
O jornalista, escritor e dramaturgo carioca Nelson Rodrigues faz falta nestes tempos de imoralidade política e cultura do politicamente correto. Reacionário para a esquerda e pornográfico para os conservadores, o torcedor nº 1 do Fluminense desdenharia, por exemplo, de um negro que pedisse para ser chamado de afrodescendente e do avanço das leis antitabagistas.
Defensores do politicamente correto (praga surgida na década de 70 nos EUA e que, depois de ser discutido nos 80 na Europa, se expandiu para a periferia) pretendem tornar a linguagem mais neutra e menos preconceituosa para certas pessoas ou determinados grupos sociais. Na teoria, tudo bem. Na prática, extingue o humor das relações sociais e tenta transformar todos num bando de escoteiros.
Frasista exímio, o mestre Nelson Rodrigues escreveu: "Invejo a burrice, porque é eterna". Lembro disso toda vez que ouço alguém chamar um velho de "pessoa da melhor idade" e, recentemente, me aconselharam a trocar funcionário público por "servidor público". O argumento é de que ele serve mais ao público do que ao Estado. Dei risada.
Também já me falaram que o termo homossexualismo deve ser evitado, pois possui uma carga pejorativa (o sufixo ismo associaria o homossexual a uma doença). A palavra "homossexualidade" seria a adequada por ser neutra. Como prefiro chamar homossexual de gay... Do jeito que as coisas vão, qualquer dia vão querer me obrigar a chamar anão de sujeito "verticalmente prejudicado". Aliás, adoraria ver a o espetáculo infantil Branca de Neve e os sete verticalmente comprometidos.
A editora Agir vem reeditando a obra de Nelson Rodrigues. Agora, chegou a vez de Memórias - A menina sem estrela (R$69), publicado originalmente em 1967 e cujo título é uma referência ao drama da sua filha Daniela, que nasceu cega. Trata-se de um conjunto de 80 crônicas, publicadas entre 18 de fevereiro e 31 de maio de 1967 no Correio da Manhã, então um dos principais jornais do Rio.
Com um texto coloquial delicioso, no qual acidez e bom humor se misturam o tempo todo, Nelson cria um painel do Brasil da metade do século passado ao falar de sua iniciação sexual, do assassinato do irmão Roberto, da Revolução de 30, do suicídio de Getúlio Vargas, da gripe espanhola, de futebol... O homem era mesmo genial.

