quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O ROCK ERROU


- Todos os meus discos são uma comédia. (Bob Dylan)

- Bob Dylan me dá nos nervos. Se estivesse comigo numa festa, eu o mandaria calar a boca. (Lou Reed)

- Se as letras dos Rolling Stones quisessem dizer alguma coisa, seriam péssimas. (Truman Capote)

- Rock é música de jeca misturado a jazz. (Paulo Francis)

- O rock é como um orgasmo. Às vezes, um orgasmo é melhor. Em outras, o rock é melhor. (Mick Jagger)

- (Para uma tiete) Seus dentes são lindos, querida. Por que não mandou obturar também o cérebro? (John Lennon)

- Se as pessoas comprassem os discos pela música, o rock já teria acabado há muito tempo. (Malcolm McLaren)

- Não sei uma nota de música. Nem preciso. (Elvis Presley)

- Um repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para pessoas que não sabem ler. (Frank Zappa)

- Um ouvinte típico de rock é um garoto tão analfabeto que não consegue ler nem o selo do disco que acabou de comprar. (Frank Zappa)

- Nunca gostamos dos Beatles. Eram uns provincianos e não queriam que os outros soubessem disso. (Mick Jagger)

- Tudo o que fazíamos, os Stones tentavam fazer igual - três meses depois. (John Lennon)

- O rock é a Aids da música. (Júlio Medaglia)

- Dizem que Chuck Berry é Deus, mas que merda ele fez? (Elton John)

- Elton John se tornou o viado-padrão. Como Liberace, antigamente. (David Bowie)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

SEXO E FUTEBOL // Duas paixões nacionais


Passei pelo Blog do Barroso e dei de cara com mais um texto sobre sexo e futebol. Não é a primeira vez que esse amigo mistura os dois temas em suas apimentadas crônicas. E olha que isso nem é novidade na literatura brasileira. Dessa vez, no entanto, teve gente achando que as duas coisas não combinam, que um anula o outro e prejudica o nível de putaria do texto. Discordo. Sexo e futebol são coisas muito parecidas.

Aliás, o futebol é o mais humano dos esportes, pois é uma mistura insana de vários sentimentos: paixão, ódio, orgulho, vergonha, inveja, compaixão, rivalidade, alegria e tristeza. Tão vivo na nossa cultura é o futebol, que nós brasileiros não podemos simplesmente ignorá-lo: ou amamos ou odiamos.

Respeito quem o odeia e diz isso com todas as letras porque acredito que quem assim fala, assim sente.

Mas estou no time dos que amam. E sofrem. E vibram. E não, não foi influência de meu pai bicolor. Apaixonei-me por futebol ao ver pela TV a torcida do Flamengo inflamada, vibrando em um Maracanã lotado em 1982, ano da conquista do segundo título nacional de uma série de cinco (Não, nem pense em discutir isso!). Desde então, sou rubro-negro.

De lá para cá aprendi um pouco mais sobre futebol. Como todos sabem, escrevo sobre esse tema profissionalmente. Conceitos estranhos como escanteio, escalação, impedimento ou tiro livre direto fazem parte de meu vocabulário cotidiano. Mas como torcedor é que me divirto. Dou palpites na escalação, reclamo do juiz, digo que o bandeirinha é cego, me desespero ao ver o gol adversário e pulo de alegria ao ver um gol do meu time.

Gosto de futebol sim. Além de escrever, acompanho os debates nas mesas redondas, converso com tios, primos, pai e amigos. Só evito falar sobre ele com algumas pessoas - vocês já devem ter imaginado o motivo.

Mas voltando a falar da humanidade do futebol, a qual encontra expressão pela sua imensa semelhança com o sexo que pretendo traçar aqui as linhas que separam e unem as minhas duas maiores fontes de prazer nesta vida – O SEXO E O FUTEBOL.

Senão vejamos.

No futebol, como no sexo, as pessoas suam ao mesmo tempo, avançam e recuam, quase sempre vão pelo meio, mas também caem para um lado ou para outro e às vezes há um deslocamento e trocas de posições. Nos dois é importantíssimo ter jogo de cintura.

No sexo, como no futebol, muitas vezes acontece uma cotovelada no olho sem querer ou um desentendimento que acaba em expulsão. Aí um vai para o chuveiro mais cedo.
Dizem que a única diferença entre uma festa de amasso e a cobrança de um escanteio é que na grande área não tem música, porque o agarramento é o mesmo.

Também dizem que uma das diferenças entre o futebol e o sexo é a diferença entre camiseta e camisinha. Mas a camisinha, como a camiseta, também não distingue, ela tanto pode vestir um craque como um medíocre.

No sexo, como no futebol, você amacia no peito, bota no chão, cadencia e tem que ter uma explicação pronta na saída para o caso de não dar certo. No futebol, como no sexo, tem gente que se benze antes de entrar e sempre sai ofegante.

No sexo, como no futebol, tem o feijão com arroz, mas também tem o requinte, a firula e o lance de efeito. E, claro, o lençol.

E tanto no sexo quanto no futebol o som que mais se ouve é aquele "uuuhh"!!.

No fim, sexo e futebol só são diferentes mesmo em duas coisas. No futebol, não pode usar as mãos. E o sexo, graças a Deus, não é organizado pela CBF.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

CAMPEONATO DE PONTOS CORRIDOS


A vida é um campeonato de pontos corridos. Empreendi reflexão dolorosa até chegar a essa sentença filosófica.

Pontos corridos.

Quer ver? A gordura. Digamos que uma pessoa que não era gorda tenha se tornado gorda. Imagine uma linha do tempo: a pessoa não é gorda.

Não é gorda, não é gorda, não é gorda.

Aí fica gorda.

A condição dela muda, entende? De não-gorda para gorda. Há um momento em que isso acontece. Um traço na linha do tempo. Um dia e uma hora precisos. Um instante de passagem em que o não-gordo cruza a aduana, atravessa a fronteira, é alçado à situação gorda.

O que me interessa é o instante em que isso se dá. No caso da gordura, presenciamos esse momento decisivo, certa feita, eu e meus colegas de Redação. Faz tempo, já. Era uma moça que não se tratava de moça gorda, em absoluto. Possante, sim. Gostosa, talvez. Bem fornida, certamente. Gorda, nunca. Mas uma tarde lá estava ela, encostada ao balcão da lanchonete da Redação, olhando com concupiscência para as guloseimas da vitrine. Tomou a decisão, espetou o indicador no ar e ordenou ao balconista:

— Enroladinho de pizza! É isso que quero: enroladinho de pizza!

Foi na segunda dentada no enroladinho de pizza, abundantemente untado com mostarda e ketchup, quiçá maionese, que a transformação ocorreu. As células de glicerídios ou lipídios ou ácidos graxos, sabe-se lá, borbulharam pelo seu corpo, glub, glub, e reuniram-se todas e escorreram-lhe pelas veias e acumularam-se exatamente na região fulcral, o setor que decide se uma mulher é gorda ou não, a grande área do corpo feminino, a zona do agrião. Os flancos. Vulgarmente conhecidos como ancas. E ali, diante dos nossos olhos assombrados, a moça outrora apenas bem fornida tornou-se... gorda.

Foi um privilégio nosso testemunhar um fenômeno da natureza.

A velhice também. Há um dia em que a pessoa se torna velha. Não era, até que acorda, sai para a rua e alguém aponta:

— Olha ali aquele velho.

Se tudo der certo, esse dia chegará para todos nós, inexoravelmente, a despeito de todos os cremes franceses e elixires amazônicos.

Semanas atrás, achei que o meu dia havia chegado. Fui ao cinema e, ao me ver, a Duda, uma amiga do tempo de colégio, antes mesmo de dar boas noites, comentou:

— Tu estás abatido...

Depois, fomos jantar em turma e, volta e meia, ela me olhava e repetia:

— Mas como tu estás abatido...

Ao nos despedirmos, ela pegou nos meus ombros maternalmente e recomendou:

— Vê se dorme bem. Tu estás muito abatido...

Cheguei em casa vergado pelo peso dos anos, sentindo-me... abatido.

Mas, na semana passada, fui dar uma palestra num colégio particular para alunos do ensino médio. A primeira pessoa que me encontrou disse, surpresa:

— Como tu és jovem!

Em seguida, um aluno perguntou:

— Como tu te sentes como jornalista, sendo assim tão jovem?

E, já na sala de aula, a professora ao me apresentar:

— O nosso jovem jornalista...

Ao voltar para casa, olhei-me no espelho e pensei: que belo dia, esse! Será que foi a chicória que comi no almoço?

Chicória tem esse poder rejuvenecedor, como se sabe.

Enfim, se não chegou ainda, meu dia chegará. Com boa sorte, sempre chega a qualquer um. Meu sonho seria deixar registrado na agenda: “22 de maio de 2062: às 14 horas, envelheci”

É como dizia a epígrafe de um livro do Hemingway:

“O discípulo pergunta:

— Como você foi à bancarrota, mestre?

O mestre:

— Primeiro foi aos poucos; depois foi de repente.”

Campeonato de pontos corridos. Cada pequena vitória, cada um a zero parece irrelevante quando acontece, mas, lá no fim, revela-se decisivo. Ah, se o Águia de Marabá tivesse vencido o Campinense em casa; ah, se não tivesse perdido para o Duque de Caxias; ah, se não fosse aquele quindim; ah, as massas depois das dez da noite; ah, o sol tomado antes dos 30 anos... No fim, tudo parece fazer diferença. E, na verdade, não é nem exatamente uma coisa, nem exatamente outra. Nós é que fazemos a tabela. Os times e as pessoas, digo. Vide o Águia: parecia moribundo; com uma remobilização, entrou de novo na disputa e tem alguma chance de subir para a Série B. Vide eu naquele colégio: remoçado, cheio do viço da juventude. Foi a chicória, cara. Só pode ter sido a chicória.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

AS MULHERES GOSTAM DE FICAR TRISTES


Você olha para a sua mulher e ela está com a cara amofinada. Hum. Aí tem. Você a conhece, sabe que ela está chateada. Será que é algo que você fez? Ou algo que você não fez? Deve ter sido. Sempre é. Você chega para ela com todo o jeito e:
— Quê que foi?
Ela, ligeiramente impaciente:
— Quê que foi o quê?
— Você parece chateada...
Um pouco menos ligeiramente impaciente:
— Não é nada.
— Como assim, não é nada? Você está estranha.
Depois de um suspiro baixo, definitivamente impaciente:
— Estou triste, só isso.
— Por quê?
Outro suspiro. Levemente irritada:
— Por nada.
— Como assim por nada? Tem que ter alguma coisa!
Mais levemente irritada:
— Por nada, já disse!
— Ninguém fica triste por nada! Tem que ter algo!
Horrivelmente irritada:
— Já disse que não tenho nada!
E, antes que você possa contra-argumentar, ela pronuncia a frase definitiva e irrespondível:
— Tenho o direito de ficar triste!
Essa frase sempre me desconcerta. Porque direito é sempre algo bom, não é? A pessoa tem direito de morar bem, direito de ser feliz, direito de ganhar o décimo-terceiro e tal e coisa. Ninguém reclama ter o direito, por exemplo, de ser atropelado. Ou, sei lá:
— Tenho o direito de ter hemorróidas!
— Tenho o direito de fazer tratamento de canal!
— Tenho o direito de passar a minha vida inteira em Timboteua!
A mesma coisa isso de ficar triste. Por que as mulheres reivindicam o direito de ficar triste? Quem é que gosta de ficar triste?
Bem. Elas gostam. Elas querem ter o direito disso.
Assim, quando a sua mulher disser que não compreende por que você sofre por causa do futebol, responda simplesmente:
— Tenho o direito de sofrer!
Para você isso não significa nada, mas ela entenderá.
Por ter travado esse diálogo inúmeras vezes, sei que, na verdade, tudo não passa de uma cilada. Quando uma mulher está triste, ela quer que você pergunte por que ela está triste, mas, ao mesmo tempo, ficará irritada se você perguntar por que ela está triste.
Ela quer é falar. Falar, falar, falar. Vai dizer que as coisas estão erradas na vida dela, que ela precisa mudar e biribibi, mas não será nada objetivo. Muito irritante, sei, mas você precisa se conter e não perguntar os motivos de tudo aquilo. Não tem motivo, compreendestes? Toda aquela cena é só para falar. Falar, falar, falar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA // A treva branca da globalização


Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness), do brasileiro Fernando Meirelles, em cartaz no “circuito” Moviecom desde a sexta-feira passada, é um filme sobre a ausência do olhar e que, por sua vez, também passa uma sensação curiosa de déjà vu. Mas também deixa uma forte sensação no espectador ao investigar os efeitos da "treva branca" que o prêmio Nobel José Saramago descreve no seu livro - "um mar de leite" que chama a atenção pela luz, e não a escuridão.

A sensação parece marcada por um reconhecimento do esforço de produção, mas também pela já citada sensação de um terreno já muito trilhado.

As idéias aqui traduzidas de Saramago resultam numa obra tão semelhante a tantas outras no repertório do cinema fantástico (o recente Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan, o australiano The Last Wave, de Peter Weir, Extermínio, de Danny Boyle, para citar apenas três), o drama apocalíptico que nos traz um cenário desolador de colapso social e humano. Na verdade, não faz nem um ano que vimos algo do tipo em Eu Sou a Lenda (um desmanche sem vergonha de uma dezena de obras antepassadas), que, diga-se de passagem, também contava com a presença de Alice Braga no elenco.

A diferença aqui é que o apocalipse não é um efeito espetacularmente visual, mas uma deixa para reflexões internas que ganham peso na segunda metade do filme que investe numa claustrofobia que aproxima o filme do teatro filmado com sofisticados efeitos de luz e tonalidades brancas. Meirelles, o montador Daniel Rezende e seu roteirista e ator Don McKellar suam as suas camisas numa primeira metade atropelada, preocupada com a apresentação relâmpago de todos os personagens, alguns deles meros figurantes.

As reflexões ganham peso, na verdade, ou evaporam, dependendo da sua escola de pensamento, pois são parcialmente entregues em pacotes de uma narração em off na voz de Danny Glover que parece desvalorizar o trabalho de imagem que Meirelles, equipe técnica e atores usam para construir o discurso. Uma imagem do filme, em especial, se destaca pela simplicidade. Através de um efeito básico, mas incrível na sua eficácia, um garoto, que está cego esbarra numa mesa invisível que aparece repentinamente ao ser atingida.

E eis que vêm as vozes em off , nesse caso trazendo coisas tipo "pior do que não ver é não ser visto", algo que Meirelles abordou em leituras sociais nos seus Domésticas (1999) e Cidade de Deus (2002). Essa cegueira branca e inicialmente literal assola a população de um país sem face numa cidade grande genérica de algum lugar do mundo, abrindo o campo para o desespero e o flagelo social.

Esse aspecto "lugar nenhum" desta variação de apocalipse me chamou a atenção, sendo brasileiro e vendo um filme internacional feito por um diretor nacional. A transformação de São Paulo, usada como locação urbana perfeitamente travestida de um abandono calculado (excelente trabalho de arte), no espaço mítico e sem nome do filme, diz uma ou duas coisas sobre o trabalho de Meirelles, cineasta paulista que constrói, filme a filme, uma inusitada carreira para si mesmo.

Refaz, nos seus próprios termos, o que realizadores do país raramente fazem, e coloco isso sem juízo de valor, pois além de uma questão de competência para uma aceitação pelo mercado externo, há simplesmente algo de vocação. Curiosamente, da geração de Meirelles, apenas Walter Salles trilha caminho parecido, e talvez não seja coincidência que Salles é o outro diretor brasileiro com penetração no mercado internacional.

Depois de localizar Domésticas e Cidade de Deus em São Paulo e no Rio, Meirelles fez O Jardineiro Fiel na África e na Europa. Agora, passa para o próximo andar, assumindo um estado de abstração nacional e geográfica completa proposta por Saramago.

Assume o caminho tomado por diretores que o mundo externo inclui num mesmo escaninho, o dos "cineastas latinos" como Alejandro Iñarritu (Babel) e Alfonso Cuaron (Filhos da Esperança, outra visão apocalíptica multicultural), que abandonaram temáticas locais para abraçar projetos externos que, na melhor das hipóteses, refletem o mundo globalizado de hoje, na pior, um desinteresse por falar sobre sua própria realidade.

Optam por um discurso global (ou "globalizado") que reduz identidades culturais locais a um mero bip fraco no gigantesco radar do mundo. Isso é bom, ou é ruim? Talvez seja ruim para os cinemas nacionais que criaram esses cineastas, embora Ensaio Sobre a Cegueira não deixe dúvidas sobre seu pedigree: é uma produção brasileira co-realizada (técnica e financeiramente) com parceiros externos, especialmente do Canadá.

Em uma das coletivas de imprensa do filme, o caráter internacional da produção foi visto como algo apenas positivo. "O mundo se encaminha para a globalização real, e a realização desse filme é prova disso, com equipe composta por canadenses, japoneses, brasileiros, mexicanos, e a coisa mais incrível... só três americanos! Que maravilha!"

Alguns dos lugares comuns que compõem o filme também foram reforçados na coletiva. "Me interessei pela fragilidade da idéia que temos de sociedade, na qual patinamos numa fina camada de gelo. No final das contas, somos todos animais", disse Meirelles. Ele também mostrou-se interessado pelo fato de eventos apocalípticos como o furacão Katrina, o 11 de Setembro e a atual crise financeira mundial em pauta.

Uma jornalista britânica enxergou no filme um subtema do "abandono estatal", como o observado durante a tragédia do Katrina, em Nova Orleans, algo, que para o olhar brasileiro, poderia já ter uma leitura nacional em relação às prisões do país.

Na verdade, Ensaio Sobre a Cegueira, que adapta fiel e assustadamente os escritos de Saramago, sugere inúmeras idéias sobre nossa incapacidade de enxergar o que sempre esteve ali, ou de perder a capacidade de reconhecer imagens que nós sempre tivemos. Parece cair como uma luva não só para o filme em questão, mas também para essa sempre inesperada atividade de ver cinema e tentar apreendê-lo.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

CONVERSA COM UMA VEGETARIANA PSICÓTICA


- O que você está fazendo? (pergunta ela em tom visivelmente apreensivo).
- Abrindo uma caixinha de leite (respondi com a famosa expressão "já vai começar").
- Isso não é leite!! (diz com o conhecido tom de desprezo)
- ÉÉÉÉÉ.. malditas redes de supermercado nos alienando e nos fazendo acreditar que dentro de caixinhas de leite tem leite.
- Você sabe que isso não é leite de verdade, isso aí é conservante puro.
- Na verdade eu ADOOOORO mesmo é o gosto de conservante, se eu pudesse compraria só o conservante, mas o leite vem junto, o que eu posso fazer?
- Você está se matando! Não vê isso?
- Eu sei.. era tomar leite ou me enforcar, fui pelo caminho menos doloroso, admito!
- Você não dá valor a nada mesmo… (diz enquanto abre a geladeira). Ai! M-e-u D-e-u-s!!! (diz como quem não acredita no que vê).
- O que? O que? O QUE?
- Carne?!?!? Como você pode apoiar o assassinato de animais?
- Não é assassinato, é cadeia alimentar.
- Ahn?
- Veja bem, estou só cumprindo meu papel social. Como representante da espécie homo sapiens é meu dever comer carne. Comer a comida da comida é que seria errado.
- Oi??
- Você prega tanto a defesa dos animais e o que faz? Desequilibra o mundo comendo alface. Como predador natural das vacas é seu dever cívico comer um bife diariamente. Se o ecossistema está assim é por culpa de pessoas como você, que são incapazes de pensar no bem-estar dos animais.
- Eu desregulo o ecossistema??? Eu não respeito os animais? E-U?
- Obviamente. Temos os vegetais (produtores) na base da pirâmide, depois temos os animais herbívoros, acima os predadores, divididos em grupos, e no topo do grupo dos predadores, temos a espécie humana e você está desregulando a pirâmide! Você não se aceita e tenta ocupar o segundo nível trófico, você é um ser humano e se vê como uma vaca. Tem medo de assumir suas responsabilidades no mundo.
- Maaa-aa-s-ss… ahn.. eu faço isso pelos animais!
- Não, você finge que seus motivos são puros, finge que faz isso para salvar o mundo, mas na verdade está comendo a comida da comida e provocando desequilíbrios ambientais, não se envergonha? Não duvido que o mico leão dourado esteja ameaçado de extinção por sua culpa. Não duvido que os leões estejam desaparecendo das savanas porque as pessoas estão comendo a comida da comida deles. Detesto essas pessoas sem consciência ecológica. Cenoura free!!! Parem com o desequilíbrio ambiental.. comam carne!!!
- Ma-a-a.. - sss
- Nada de "mimimimi.. mas, mas", senta aí que eu vou te fritar um bife.


OS TIPOS DE VEGETARIANOS

Eu como o que estiver disponível, com uma única restrição: se ainda estiver se mexendo, convém matar antes…Mas sei que existem pessoas que teimam em não aceitar sua condição de predadores. Vejamos os tipos de vegetarianos que existem:

Ovolactovegetarianos não comem carne, mas comem ovos e bebem leite.

Lactovegetarianos não comem carne nem ovos, mas bebem leite.

Ovovegetarianos não comem carne nem bebem leite, mas comem ovos.

Vegans não comem carne, nem ovos, nem bebem leite.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

NEM O HARRY POTTER, FELIPE?


"Não sou muito de ler", declarou o piloto Felipe Massa à Folha de S.Paulo, conforme publicado na edição de 28/10/08. A afirmação foi feita durante evento numa escola pública no bairro do Jardim Umarizal, Zona Sul de São Paulo. Preparada para ser uma promoção, a resposta do piloto tornou-se um vexame só. Massa fez doação de livros e inaugurou uma sala de leitura, mas o que ficou mesmo foi a opinião do ferrarista de não ler e nem se lembrar do nome do último (ou primeiro) livro que leu.

Milhões no Brasil não podem ler, pois o livro é caro e a renda das famílias não lhes permite comprá-los. Agora, um piloto de automobilismo - com salário em milhões de euros -, falando quatro ou cinco idiomas, declarar que é difícil encontrar tempo prá ler... é dose!

Desgraçadamente, isto é comum. O pobre não vai aos livros por falta de dinheiro, os ricos, por ignorância pura. Lembrei-me dos fundadores do Corinthians. Eram pessoas simples, a maioria de origem italiana - quase não falando português, decidiram fundar "um clube para jogar futebol e fazer uma biblioteca". O clube está feito e é um dos maoires do Brasil, mas a biblioteca precisa de um trabalho bem mais amplo.

Na matéria da Folha, onde se narra o vexame desta tal visita à escola da zona Sul, o repórter diz que entre os livros doados estavam "Novelas Paulistanas", de Alcântara Machado, e a ópera "Turandot", de Puccini. Alcântara Machado foi genial escritor paulista, um corintiano roxo e que muito ajudou o time. Na ópera "Turandot", a princesa chinesa matava seus namorados quando eles respondiam errado suas três perguntas.

É - também - desta ópera uma das mais belas árias do canto lírico: "Nessun dorma" (Ninguém durma), imortalizada por Pavarotti, e que termina com a famosa frase "All'alba vinceró! Vinceró! Vinceró!" (Na aurora, vencerei, vencerei!).
Será?

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O SEXO ERROU!


- Se todos conhecessem a intimidade sexual dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém. (Nelson Rodrigues/Foto)

- Quando vi uma mulher nua pela primeira vez, pensei que o rabino tinha ido longe demais na circuncisão dela. (Woody Allen)

- Se eu acho que sexo é sacanagem? Só quando é bem feito. (Woody Allen)

- Homens e mulheres, mulheres e homens. Não vai dar certo. (Erica Jong)

- A pessoa pode abdicar do sexo, mas o sexo não abdica da pessoa. (Gabriel García Márquez)

- O sexo é uma das nove razões para a reencarnação. As outras oito não têm importância. (Henry Miller)

- Para algumas pessoas, depois dos 50 anos, discutir toma o lugar do sexo. (Gore Vidal)

- (Quando perguntado se a primeira pessoa com quem tinha ido para a cama era um homem ou uma mulher) Eu era muito educado para perguntar. (Gore Vidal)

- Eu nunca iria para a cama com um perfeito desconhecido. A menos que este desconhecido fosse perfeito. (May West)

- Eu digo à mulher que seu rosto é uma grande experiência para mim e que suas mãos são a minha alma - qualquer coisa para ela abaixar a calcinha. (Charles Bukowski)

- Todo o corpo é um órgão sexual, com exceção, talvez, das clavículas. (Luís Fernando Veríssimo)

- Pelo jeito que a coisa vai, em breve o terceiro sexo estará em segundo. (Stanislaw Ponte Preta).

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

QUEM MANDA NO MUNDO? // As mulheres é claro


Agora vou explicar por que e como as mulheres mandam no mundo. Vou explicar por que e como as mulheres pisam em nossos pescoços e nos jogam ao chão e nos fazem beijar seus pés macios calçados com delicados e pontiagudos escarpins.

Sempre foi assim, em qualquer tempo, e qualquer homem, por maior que tenha sido ou seja, um dia sentiu os efeitos do poder da mulher. E sofreu.

Pegue-se um dos homens mais influentes da história: Abraão, o patriarca das três grandes religiões monoteístas, o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Abraão não ficou famoso só depois de morto, como tantos personagens da História. Quando vivia, há 3900 anos, já era um influente chefe de clã, rico criador de caprinos e ovinos, e, o principal, muito amigo do Senhor em pessoa, se é que se pode dizer que o Senhor esteja enquadrado nesta categoria de pessoa.

O fato é que Abraão conversava com Jeová até com alguma intimidade. E Deus gostava tanto dele que lhe fazia promessas. Abraão teria propriedades sem conta e seria o pai de muitos povos, "tão numerosos quanto o pó sobre a terra". No entanto, Sara, a mulher de Abraão, era estéril. Assim sendo, sem filhos, de que maneira ele formaria essa prometida posteridade? A solução foi dada pela própria Sara: que Abraão tomasse sua escrava egípcia, chamada Agar, e fizesse nela um filho. Abraão adorou a idéia e deu início aos trabalhos. Que foram fecundos. Mesmo: nasceu de Agar um menino em quem Abraão pôs o nome de Ismael, que significa "Deus escuta".

Tudo ia muito bem, até que um dia Sara chamou Abraão e disse que Agar andava rindo dela à socapa, que é o mesmo que rir à sorrelfa. Tenho minhas dúvidas sobre essa parte da história. Será que Agar estava mesmo gozando de Sara ou Sara ficou com ciúme da fertilidade da escrava? Enfim. O certo é que Sara ficou agastada com a situação, mas não podia fazer nada, já que o filho era importante para Abraão fundar sua dinastia.

Um dia, porém, apareceram para Sara e Abraão três estrangeiros que não eram outros senão três anjos muito graduados lá do Céu: Gabriel, Mirael e Rafael. Eles avisaram a Sara que em um ano ela teria um filho nos braços. Abraão ficou faceiro com a notícia, mas Sara riu: ela não apenas era estéril, como estava com 89 anos de idade, enquanto Abraão tinha 99! Bem, Charles Chaplin teve um filho aos 82 anos e Oscar Niemeyer, dizem, ainda é ativo e viril aos 100! Só que hoje existe Viagra e gemada, o que não havia 40 séculos atrás. Logo, era compreensível a risada de Sara. O problema é que os anjos do Senhor não fazem gosto de que se duvide deles. Repreenderam Sara e ordenaram que o menino se chamasse Isaac. Em hebraico, "Gargalhada".

Com o nascimento de Isaac, seria de se esperar que os desentendimentos entre Sara e Agar terminassem, certo? Errado. A rivalidade entre as duas prosseguiu viva e pulsante como a da Dupla Re-Pa. Sara vivia apoquentando Abraão para que ele se livrasse de Agar. Falava tanto, mas tanto, que Abraão não se agüentou: deu uma porção de água e de pão para Agar e Ismael e os despachou para o deserto. Os dois quase morreram de sede, mas a Providência, providencialmente, os salvou fazendo aparecer um veio d´água no meio da areia. Ismael cresceu e se tornou o pai dos povos árabes, assim como seu meio-irmão Isaac é o pai dos israelitas. Ou seja: seus descendentes sustentaram pela poeira dos séculos a rivalidade estabelecida por suas mães. A rivalidade Re-Pa ainda não chegou a este ponto, mas, se continuar no ritmo que anda, logo teremos atentados nas arquibancadas.

Porém, não era da rivalidade que eu ia falar, e sim do poder das mulheres. Abraão era o patriarca, era poderoso e, aos cem anos de idade, devia ser bastante maduro. Mas não suportou a pressão de Sara e mandou o próprio filho para o deserto! Aí está o cerne do poder feminino: a chatice. Você gosta da mesinha de centro que há na sua sala. Você coloca a cerveja sobre aquela mesinha para ver o jogo e o controle remoto também e volta e meia um prato com salame e queijo, tudo muito legal. Mas a sua mulher quer tirar a mesinha de centro do centro e transferi-la para um canto. Mesmo que você saiba que sentirá falta da mesinha de centro no centro e que, pela lógica, uma mesinha de centro deve ficar de preferência no centro, e não num canto, você aceita calado que ela troque a mesinha de lugar. Por quê? Para não se incomodar. Você sabe que, se for argumentar com sua mulher, ela falará tanto que você quase desmaiará de chatice. O cálculo é simples: vale mais não ter a mesinha de centro no centro do que ser amolado durante 45 minutos sem parar.

Precisamente como aconteceu com Luiz Omar Pinheiro, presidente do Paysandu, no caso da Copa do Centenário. Todo mundo dizendo para que ele colocasse o time na competição. A Federação, a Seel, a imprensa, seus companheiros de diretoria, todos. Luiz Omar queria antecipar as férias do time? Acredito que sim. Mas não agüentou a chateação. Os favoráveis à disputa usaram a tática das mulheres. A da sua mulher, que deslocou a mesinha de centro para o canto. A de Sara, que fez Abraão exilar o filho primogênito. A estratégia milenar e infalível das mulheres para nos dominar, nos jogar ao chão e nos fazer lamber seus pés macios calçados com seus pontiagudos escarpins.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

AS DUAS FACES DA LEI // Uma bala perdida


Nas primeiras cenas em que aparecem lado a lado, como os tiras veteranos que protagonizam As Duas Faces da Lei, Robert De Niro e Al Pacino treinam pontaria e se mostram certeiros. Já o filme, em cartaz nos Moviecom Castanheira e Iguatemi desde o final de semana passado, erra feio o alvo e expõe esses dois gigantes do cinema a um trabalho menor em suas carreiras.

Minha expectativa sobre as As Duas Faces da Lei (Righteous Kill, EUA, 2008) era grande, em especial pela escalação de De Niro e Pacino, que até então só haviam contracenado em Fogo Contra Fogo (1995), ótimo policial assinado por Michael Mann - no clássico O Poderoso Chefão 2 os atores vivem pai e filho, mas em épocas diferentes. Aqui, interpretam detetives de Nova York que trabalham em parceria há mais de 30 anos, conhecidos como Turk (Peru), interpretado por De Niro, e Rooster (Frango), vivido por Al Pacino.

Eles investigam assassinatos cometidos por um serial killer que elimina criminosos impunes e deixa como pista poemas justificando por que estes mereceram ser justiçados à bala. Os corpos vão se empilhando à medida que as evidências apontam que: 1) um policial é o autor das execuções; 2) este policial pode ser um dos parceiros.

Se o enredo - tira durão bancando juiz e carrasco - é manjado, o roteiro de Russell Gewirtz e a direção de John Avnet mostram ser possível piorá-lo. Tanto na narrativa frouxa quanto nos cacoetes visuais, As Duas Faces da Lei assume a aparência desses seriados policiais de segunda linha que transbordam nos canais por assinatura. Avnet foi revelado no melodrama Tomates Verdes Fritos (1991) e assinou também dramas como Íntimo e Pessoal (1996). Sua falta de experiência com tramas de suspense e ação já havia sido demonstrado em 88 Minutos (2007), péssimo triller em tempo real estrelada por Pacino (referência clara ao seriado 24 Horas).

Agora, o diretor atira seus dois excelentes atores em uma série de situações desconexas, às quais tenta costurar com as muletas tradicionais dos realizadores pouco inspirados: narração em off, flashbacks e o gran finale com a reviravolta que diz "não era nada disso que você estava pensando" - clichês que, neste caso, não passam de truques óbvios para sacudir o espectador inevitavelmente sonolento.

Afora o prazer que resta das poucas cenas em que Pacino e De Niro justificam a esperada parceria (parece que eles se deram conta durante as filmagens que o negócio ia dar merda), praticamente na reta final do longa, e dos bons momentos que um e outro consegue ter isoladamente, As Duas Faces da Lei, voltando à analogia televisiva, parece um seriado do qual se acompanha um capítulo esporadicamente: sabemos do que se trata, mas o que vemos, sem saber o que se passou entre um episódio e outro, é confuso demais e interessante de menos para garantir a fidelidade da audiência.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A CASA DA MÃE JOANA // Um vaudeville tupiniquim


A Casa da Mãe Joana (Brasil, 2007), filme de Hugo Carvana em cartaz no Moviecom (Iguatemi e Castanheira), passa como um alegre pesadelo para feministas. Esse filme retrô sugere algo como se ouvíssemos numa mesa de bar vizinha histórias machistas de homens que já foram jovens. A assinatura do filme é a da sensualidade brasileira desejada de uma Juliana Paes - fada masculina em coloridos baby-dolls -, andando pra lá e pra cá.

Esse curioso produto de mercado lembra o que restou da comédia popularesca nacional, com peças avulsas da chanchada, do programa de auditório e de uma "sensibilidade alcoólica" tão cara a uma faixa social burguesa dos homens da boa idade, grupo que abriga Carvana, aos 71 anos.

Carvana - "o Dr. Andrade da novela Três irmãs" – é uma figura memorável no cinema brasileiro. Fez um filme marcante em Vai Trabalhar Vagabundo (1973), onde o malandro carioca ganhou representação definitiva. Fez o repórter Valdomiro Pena na excelente série Plantão de Polícia, na Globo dos 70/80 (porquê não existe em DVD?!), com o mesmo tipo de malemolência anarquista/zona sul/Rio de Janeiro.

Esse tom antigo marcado por toda uma trajetória revela-se presente no seu novo filme e não deixa de ser uma curiosidade observá-lo. Rodado em grande parte em estúdio, há, mesmo assim, um aspecto de "filme" que outros produtos atuais do tipo não parecem atingir, como foi o caso de A Grande Família, o Filme.

Neste, temos um grupo de quatro homens safados que aplicam golpes em mulheres para ganhar dinheiro e conquistar outras mulheres. A filosofia é nunca ter que dar um dia de trabalho que seja, se dar bem sexualmente e beber uísque. Em ordem decrescente de idade, Antônio Pedro, José Wilker, Paulo Betti e Pedro Cardoso integram essa quadrilha. Terão que rever seus dogmas para saldar uma dívida contraída num esquema mulheril que não deu certo.

Os desdobramentos beiram o indescritível, com Betti de prostituto semi-nu para mulheres maduras usando adereços de couro e protagonizando piadas de Viagra. Wilker vira enfermeiro para um comendador e travesti de idade avançada (Agildo Ribeiro de cadeira de rodas e vestido de mulher), enquanto Cardoso fica de caso com a esposa (Malu Mader) de um joalheiro. Como num vaudeville tupiniquim, entra ainda a mãe de Betti (Laura Cardoso), conseguindo aos poucos superar a mera "piada de véia", e a filha de Wilker, uma menina chamada Tainacã (Fernanda Freitas), sempre com um sorridente shortinho, e, às vezes, sem.

Já o mais velho Pedro tenta incorporar a alma feminina brasileira ao virar uma falsa colunista mulher para algum jornal. Sua musa é Juliana Paes, tratada pelo filme como uma aparição através de pirlimpimpins digitais alegremente toscos. A capacidade de Paes sorrir e fazer biquinho impressiona. O elemento macumba sela a bagaceira como indiscutivelmente brasileira. Arlete Sales, Miéle, Beth Goulart e Cláudio Marzo também completam o elenco, ou o quadro.

TODO MUNDO NU // Ou restaure-se a moralidade


O ator Pedro Cardoso levantou uma boa polêmica. Teatro, cinema e televisão estão apelando demais para a nudez?

Pedro Cardoso disse: "Tirar a roupa não é exigência do ofício do ator e sim da indústria pornográfica".

O que eu acho sobre o assunto:
1) A nudez deveria ser algo normal.
2) Só que depende de onde e de quando.
3) Mais do que tudo, depende de quem.

O terceiro ponto é o mais importante. Televisão, cinema e publicidade usam o nu de forma distorcida. Na maioria das vezes, os corpos expostos são de homens e mulheres jovens e bonitos. Nada contra. Aliás, não vou ser hipócrita de dizer que não aprecio os ensaios sensuais das belas "modelos" de alguns sites e revistas. Só que esta realidade cria um padrão estético irreal, que gera angústia e frustração.

Por que o corpo de um velho é feio? Por que a celulite é feia? Por que a passagem do tempo é antiestética? Por que as pessoas aceitam isso?

Stanislaw Ponte Preta cunhou a frase que ficou famosa: "Ou nos locupletamos todos, os restaure-se a moralidade". No caso da nudez, eu diria: "Ou nos pelamos todos, ou restaure-se a moralidade".

Gostaria de saber a sua opinião.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O CAMINHO DO MEIO // Lao-tsé tinha razão


Havia um tempo em que as redações eram comunistas. Jornalista tinha que ser de esquerda, ou não era jornalista; era preposto patronal. Aí o comunismo acabou.

Mais recentemente as redações tornaram-se neoliberais. Jornalista moderno tinha que defender a liberdade do mercado, ou não passava de um caquético ultrapassado. E agora o neoliberalismo acabou!

Sacanagem com a categoria.

Esse é o problema com a realidade: desmonta as teorias mais brilhantes. Todos aqueles debates entre esquerdistas e liberais, as discussões de bar e bancadas de TV, os artigos tão bem redigidos, os pontos de vista expostos com tanta clareza e objetividade - tudo desperdício de talento e energia.

Hoje em dia, os capitalistas mais devotados defendem a estatização. Mas eles não querem que o longo braço do Estado se estenda na direção da saúde, da educação ou da segurança: querem a estatização do dinheiro! Por Deus! Alguns países estão planejando nacionalizar... os bancos!

Aí está: viver é contraditório.

Fico lendo todas essas notícias sobre os bilhões que vão para o sistema financeiro a fim de estancar a crise. Os Estados Unidos vão gastar US$ 700 bilhões, a Europa outros tantos bilhões de euros, até o Brasil lançará mão de seus bilhões guardados com tanto esmero no Banco Central.

Antes, nunca havia bilhões para nada. Os professores ganham mal, os policiais ganham mal, as pessoas ficam doentes e não têm dinheiro para ir ao médico ou comprar remédio. Ninguém jamais teve a idéia de dar alguns bilhões para essa gente toda.

Agora os bilhões caem em cascatas. Por quê? Porque, segundo dizem, o mercado está em pânico. E os policiais? E os professores? E os doentes tantos? Eles não estão em pânico?

Eu estou em pânico. Quero o meu bilhão.

Há 25 séculos havia no Oriente Longínquo um homem chamado Lao-tsé, o "Homem Velho". Lao-tsé foi o maior filósofo da China. Maior até do que Confúcio. O próprio Confúcio ficou impressionadíssimo quando o conheceu. Comparou-o a "um dragão subindo aos céus, navegando no vento e nas nuvens" - na China, acredite, comparar alguém a um dragão não é ofensa. Lao-tsé, por sua vez, não ficou nada impressionado ao conhecer Confúcio. Não lhe deu a menor importância. Achou-o, inclusive, meio aborrecido.

Esse Lao-tsé foi o fundador do taoísmo, a principal religião chinesa, junto com o budismo. Tao, em chinês, significa "caminho". O livro que Lao-tsé escreveu é o Tao Te Ching: o "caminho do meio". Quer dizer: há 2.500 anos o velho Homem Velho já sabia qual era a solução. Estado absoluto? Não. Nenhum Estado? Também não. O caminho do meio é a saída.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O PREFEITO DOS RICOS // Nesse eu votaria

Queria um candidato a prefeito que defendesse os mais favorecidos. Um que pensasse nos aquinhoados, nos bem de vida. Na classe A. Sem descuidar da saúde e da educação, óbvio, mas com o olhar direcionado para o luxo e as amenidades da vida. Seria o meu candidato.

Por quê? Por causa, por exemplo, de um naco de Belém que descobri, dia desses. Uma prainha do Outeiro. Nem desconfiava da sua existência. Normal - nós, que moramos do outro lado da cidade, nos diziam que nesta cidade tem praia, mas certeza certeza só tivemos depois de, sei lá, passar dos 18 anos.

Então, lá estava eu, na pequena praia. Que lugar lindo e nojento. Lindo por natureza, nojento por abandono. Ainda que sua praça pareça atendida pela prefeitura, a grama cortada e tudo mais, o lixo se acumula na areia e, como não há nenhum comércio nas imediações, o local torna-se ermo e inseguro.

Fiquei imaginando se Paris possuísse um recanto bucólico como aquele. No que a prefeitura de Paris faria com o lugar. Como o embelezaria, como chamaria a iniciativa privada para erguer por perto um café, um restaurante, e as pessoas almoçariam olhando embevecidas para o rio. Paris faria daquela curva da cidade um lugar atraente para os mais favorecidos, que trariam segurança e empregos. E beneficiariam os menos favorecidos.

Algum gaiato argumentaria que não se pode comparar Belém com Paris. Por que não? Eu aqui, como os menos favorecidos, quero o melhor. Não quero o feio, o sujo, o precário. Eu e os menos favorecidos, e os mais favorecidos também, todos queremos o belo, o limpo, o bem-arrumado. Mas alguém disse para os candidatos a prefeito, e para alguns ex-prefeitos, que o pobre gosta de conviver com a pobreza. E eles acreditaram.

Quando a prefeitura discute um projeto, digamos o Janelas Para o Rio, logo vem um defendendo que o lugar seja "para toda a população". Isso significa a instalação de troços como "shoppings populares", o mesmo que um monte de camelôs juntos. Nada contra os camelôs, eles têm de ter o seu espaço. Não na orla da cidade. A beira do rio há que ser da nata, da classe A. Os ricos, viva eles!

Se tudo ali for bonito e arrumado, ali estará o dinheiro. E os menos favorecidos terão onde trabalhar e onde flanar, que eles flanam. Os pobres de Paris decerto não freqüentam os restaurantes de três estrelas do Guia Michelin do Boulevard Saint-Germain, mas eles usufruem das belezas do Boulevard Saint-Germain, e de graça. Difícil crer, mas os pobres também gostam de coisas boas. Por isso, queria um candidato que não tivesse preconceito contra o dinheiro. Um candidato que defendesse o luxo. A nata. Os ricos. Viva eles!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

SOZINHO NO CINEMA // Numa noite de sábado


Ir ao cinema sozinho. Durante a semana, nenhum problema. Chego de mão no bolso, tomo um expresso ou um ovomaltine antes, dou a chamada passada d'olhos... peraí, um apóstrofo, estava ansioso para usar um no blog. Vou até repetir: dou uma passada d'olhos no último Ítalo Calvino que comprei ali na livraria e, enfim, entro na sessão.

Ao fim do filme, saio tranqüilo, vou para casa pensando na história, talvez encontre o Eduardo e o meu irmão Charle para uma pizza e talicoisa.

O drama é o sábado à noite. Uma vez tentei ir ao cinema sozinho num sábado à noite. Cheguei lá e, puxa, todos aqueles casais. Eles ficaram me olhando:

— Olha aquele cara sozinho no cinema num sábado à noite.

Tenho certeza que apontavam para mim. Que cochichavam. Alguns riam. Eu, um cara sozinho, absolutamente sozinho, uma aberração. O que havia de errado comigo, que não estava de namorada? Será que ela havia me dado o bolo, coitado de mim? Será que nenhuma mulher dessa cidade fervente de mulheres solteiras, descasadas, viúvas, sequiosas de companhia, será que nenhuma delas queria ir comigo ao cinema justamente num sábado à noite???

Era o que comentavam. Sei disso! Comprei meu ingresso e me aprumei. Queria salvar minha dignidade. Tentei aparafusar no rosto uma expressão satisfeita, de quem estava sozinho por preferência, entendem? Uma opção. Ensaiei até um meio sorriso. Se estivesse com um celular faria de conta que estava conversando com uma moça. Falaria no tom que habitualmente as pessoas usam ao celular. Aos berros:

— Alô? Ah, oi, Fê. Estou entrando no cinema. Por que não te convidei? Bem, Fê, tu sabes que gosto de ir ao cinema sozinho. A solidão também é importante, Fê. Lembra quando tu ganhaste o Garota Verão e as pessoas não te deixavam em paz? Pois é, Fê. A solidão às vezes é um bálsamo. Depois? Está certo, depois do filme nos encontramos, querida. O quê? Hein? Ah, pode ser aquela calcinha preta de rendinha que tu usaste a última vez...

Mas tinha esquecido o celular no carro. O único recurso era a linguagem não-verbal. Como se parece uma pessoa completamente satisfeita por estar sozinha no cinema num sábado à noite? Já sei: sobrancelha esquerda levantada, olhar sonhador de quem está esperando uma noite inefável, talvez um assobiozinho. Sim, um assobio pega bem.

Foi assim que entrei na sala. O filme começou. O mundo ficou sem importância por duas horas. Esqueci de tudo, até que estava sozinho no cinema num sábado à noite. Mas, quando a ação acabou, as luzes se acenderam, como sempre se acendem.

Os casais todos se levantaram, largaram os copos e sacos de pipoca nas poltronas, apanharam suas bolsas... Mas antes que reparassem em mim, saí pisando firme, sem olhar para os lados. Não queria encontrar ninguém conhecido. Deus me livre pegar a fama de quem vai sozinho ao cinema num sábado à noite.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

ROLLING STONE // Livro e Reality Show


Criada em 1967, em San Francisco, a Rolling Stone (EUA) é um ícone da cultura pop mundial e uma das marcas da revista (que ganhou edição brasileira desde outubro de 2006) ao longo do tempo são as suas entrevistas centrais. Nelas, grandes personalidades do rock, do cinema, da política e da literatura abrem o jogo. Agora, pela primeira vez, 40 das melhores entrevistas da história da publicação (tiragem mensal: 1, 4 milhão) foram reunidas em um único volume.

Rolling Stone - As melhores entrevistas da revista Rolling Stone (Larousse do Brasil, 448 páginas/R$49,90) traz depoimentos de John Lennon, Mick Jagger, Ray Charles, Francis Ford Coppola, Bill Clinton, Bono, Kurt Cobain, Bob Dylan, Pete Townshend, Jerry Garcia, Neil Young, Bruce Springsteen, Spike Lee, Clint Eastwood, Truman Capote, Tom Wolfe e Joni Mitchell, entre outros.

Veja essa pérola Kurt Cobain sobre Lennon & McCartney: "Oh, sim. John Lennon era meu Beatle favorito. Não sei quem escreveu quais partes das canções, mas Paul McCartney me deixa constrangido. Lennon obviamente era perturbado (risos). E eu me identificava com isso".

Parte do clima da Redação da revista pode ser visto todas as quintas-feiras, às 22h15, no Multishow (ORM Cabo/Sky), no reality show Um estágio na Rolling Stone. Logo no início, o lendário fundador e editor da RS, Jann Wenner, telefona para os seis escolhidos: cinco focas (jornalistas iniciantes) dos EUA e um da Austrália.

Durante dois meses, eles trabalham na revista, em Nova York, disputando um contrato de um ano. O perfil da turma é variado: uma editora de uma publicação de hip hop, um apaixonado por indie rock, um cara iniciplinado, porém brilhante, que começou a escrever quando morava num reformatório, uma riponga fã de rock clássico, uma poeta e militante lésbica, etc.

Muito legal observar que certos vícios e modismos da geração atual, que está acabando de sair das universidades com o diplominha de jornalista na mochila, aparecem em qualquer redação do mundo. Alguns já chegam achando que sabem de tudo e querendo escolher sobre o que vão escrever. Outros, apesar de talentosos escritores, não tomam cuidado em pesquisar sobre os artistas entrevistas e quebram a cara no momento de fechar o texto.

Foquices à parte, é uma meia-hora bem divertida.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

DEUS ERROU


- Eu só acreditaria num Deus que soubesse dançar. (Nietzsche/foto)


- Somos muito injustos com Deus. Não lhe permitimos nem pecar. (Nietzsche)


- Se Deus existe, por que Ele não me dá um sinal de sua existência? Como, por exemplo, abrir uma bela conta em meu nome num banco suíço. (Woody Allen)


- Por que Deus não fala comigo? Se ele pelo menos tossisse! (Woody Allen)


- Todo homem pensa que Deus está do seu lado. Os ricos e os poderosos têm certeza. (Jean Anouilh)


- Deus me perdoará. É a sua profissão. (Heinrich Heine)


- Deus é amor, mas exija isto por escrito. (Gipsy Rose Lee)


- Nem todos os filhos de Deus são bonitos. A maioria é, quando muito, apresentável. (Fran Lebowitz)


- Se Deus não existisse, teria sido preciso inventá-lo. (Voltaire)


- Se Deus fosse condenado a levar a vida que infligiu aos homens, já teria se matado. (Alexandre Dumas)


- Deus está vivo - só não quer se envolver. (Anônimo)


- Deus está morto. Mas não se preocupe - a Virgem Maria está esperando outro. (Anônimo)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

TORCEDOR CHATO // Na Boca do Túnel

Através do ex-zagueiro e capitão do Paysandu, Gino, recebo o precioso "Na Boca do Túnel", com direito a dedicatória e tudo. O autor é o potiguar Maeterlinck Rêgo Mendes, que conta uma série de casos pitorescos presenciados por ele mesmo, como médico do América de Natal, ou outros que chegaram ao seu conhecimento, através do depoimento de pessoas com quem convive no mundo da bola.


São histórias curiosas, como uma contada ao autor - a quem peço permissão para levar aos leitores deste pedaço - pelo próprio personagem, o treinador Givanildo Oliveira, atualmente comandando o Vila Nova-GO. Givanildo, como se sabe, também dirigiu o América potiguar e conviveu com Maeterlinck.

O fato se passou numa das ocasiões em que Giva esteve à frente da equipe do Sport Recife-PE. Era um jogo entre o Rubro-Negro e o Central, na Ilha do Retiro, em dia de pouco público. Nesses jogos, qualquer grito de torcedor repercute, pois com as arquibancadas vazias, a voz do gritante se espalha facilmente.

O Sport, como sempre, era favorito, principalmente jogando em seu reduto. Só que estava encontrando muita dificuldade para abrir o placar. A torcida, como não poderia deixar de ser, mostrava-se insatisfeita, vaiando o time e dirigindo palavras pouco amáveis ao treinador. Todavia, havia um torcedor, desses ingrezientos, que resolveu pegar no pé do técnico com tudo a que tinha direito. A todo momento, Givanildo ouvia xingamentos partidos do cidadão, mais ainda depois que o primeiro tempo encerrou-se, com o placar ostentando um incômodo – para os rubro-negros - 0 a 0.

No segundo tempo, o Central ainda resistiu por algum tempo, mas o Sport foi minando suas forças devagarinho. Até que o time da Ilha faz 1 a 0. Givanildo respira aliviado, achando que o cri-cri vai deixá-lo em paz. Ledo engano, pois o homem continua achando que o Sport está jogando errado e quer sempre mais. Algum tempo depois, o Sport faz o segundo. Agora não é possível que esse cara não me deixe em paz, pensou Givanildo. Foi apenas um sonho, porque o peitica permaneceu sem lhe dar tréguas. O Sport faz 3 a 0 e não se passa muito tempo para o juiz encerrar a partida.

Quando vai se encaminhando para o túnel, Givanildo fixa o olhar no seu algoz, como se estivesse desabafando intimamente, naquela de "xinga agora, seu fdp". O cidadão era mesmo de fé e não perdeu o rebolado ao sentir que o técnico pairava o olhar em si.

"Não se preocupe não, Givanildo. Domingo eu estou aqui de novo."

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A DITADURA DO OLHAR // Minority Report

Cada vez mais tem-se a impressão de que estamos mesmo vivendo uma época marcante em relação às imagens fabricadas que temos para olhar no mundo. O cinema talvez seja a luneta mais relevante desse olhar moderno e tem traduzido tudo isso numa série de filmes que mostram-se reflexivos sobre a imagem. Nos últimos anos, Dançando no Escuro (Dancer in the Dark, Von Trier), Amnésia (Memento, Nolan), Time Code (Figgis), Elogio ao Amor (Elóge D'Amour, Godard) e Janela da Alma (Jardim e Carvalho), para citar alguns, têm estimulado discussões interessantes sobre ver e enxergar, pontos de vista diferentes e formatos de ver. Minority Report - A Nova Lei (EUA, 2002) entra para a discussão ele próprio com uma tempestade de imagens, ao mesmo tempo em que homenageia os olhos, o globo ocular mesmo, e o que ele tem visto, ou pensa ter visto.


Minority Report é também um genuíno exemplar da ficção científica, realizado com todo o porte, esmero e excesso que geralmente associamos a Steven Spielberg, diretor que frequenta com desenvoltura o gênero (Contatos Imediatos..., E.T., Inteligência Artificial).

Com perfeita utilização de tecnologia, o filme parece discutir um tanto ingenuamente a imagem numa sólida estrutura de ação, abrindo uma janela para o mundo audio-visual do futuro e cuja base nós já podemos enxergar hoje mesmo, ao nosso redor.

Dependendo do seu interesse por ação e por essa janela aberta pelo filme, Minority Report poderá sobreviver aos habituais ataques de estupidez emocional que mancham praticamente todos os trabalhos desse talentoso malabarista da imagem e do som, em especial rumo às suas conclusões. Para mim, é realmente doloroso estar sentado na cadeira gostando do filme e, de repente, perceber que a tela começa a derreter com a visão repentinamente míope de Spielberg. De qualquer forma, dependendo do valor total do filme, a má impressão geralmente encolhe, como no caso de Inteligência Artificial e o seu desnecessário happy end.

Ambientado em Washington DC, 2054, temos uma divisão especial da polícia - Pré-Crimes - que cuida de assassinatos que ainda não ocorreram. Trabalham com videntes (os pre-cogs), que imersos num líquido transmissor de energia cerebral, passam 24 horas por dia sonhando, aparentemente, com a MTV. Essas imagens fragmentadas e estéticas (produzidas pelo Imaginary Forces, responsável pela abertura de Seven) são clipes sem música de assassinatos futuros.

Spielberg e equipe devem ter discutido muito a estética dessas imagens, particularmente pelo fato de não terem sido captadas por uma câmera, afinal de contas, são visões geradas por um cérebro. Qual o formato de uma visão, ou de uma memória? Pessoalmente, acho que elas não têm/ou teriam a aparência de um clipe do U2. Spielberg e equipe parecem pensar diferente e, pelo que já ouvi, muita gente gostou. Bem, cada um sonha como pode.

A energia cerebral dos pre-cogs é transformada em imagens-documento analisadas por uma equipe de policiais. À frente da Pré-Crimes está o detetive John Anderton (Tom Cruise), que ficará chocado ao ver nos monitores mais um videoclipe violento no qual ele mesmo é o assassino. Anderton precisará ser detido ao matar, em alguns dias, alguém que ele nem conhece.

Inicialmente, Anderton é personagem duro, amargurado, não exatamente um 'bad boy', mas como num filme de detetive dos anos 70. Usuário de drogas, é traumatizado pela perda do filho e dedica sua vida à identificação de futuros assassinos. Cruise empresta a sua persona a cenas de ação montadas por Spielberg como só esse mestre do entretenimento sabe fazer (as aranhas, os jatos propulsores, os automóveis).

Como de hábito, vale registrar, Spielberg é incapaz de realmente trabalhar com um personagem duro, e nisso ele mostra-se um hipócrita. Ele implode seu homem falho e sombrio (como ocorreu com Schindler, em A Lista de Schindler) numa conclusão cor-de-rosa que nega praticamente todo o clima do que foi apresentado antes.

Bem antes disso, Anderton foge dos colegas, tendo literalmente que 'mudar o seu olhar' (olhos) para evitar o sistema padrão de identificação (scan das retinas), infiltrar a Pré-Crimes e sequestrar Agatha (Samantha Morton), a mais talentosa do trio de videntes. Com ela, irá decifrar o interessante mistério das imagens de mortes passadas e futuras que pode envolver seu inimigo interno da corporação, Danny Witwer (Colin Farrell), supervisionado pela figura paterna do chefe Lamas Burgess (Max Von Sydow).

Diferente do excelente Inteligência Artificial (2001), que tinha na pausa dos sentimentos parte importante do seu eixo, Minority Report apresenta diferentes níveis de interesse, como um moderno produto do marketing. É filme de ação legal e tem verniz intelectual para uma boa discussão.

Merece também uma colocação no domínio da ficção científica ao nos apresentar elementos de tecnologia curiosamente plausíveis que poderão fazer parte da rotina no futuro, quando jornais serão misto de papel com internet e a publicidade atingirá, finalmente, um grau de pesadelo impensável ao perseguir seu público-vítima ao redor da cidade com mensagens irritantemente personalizadas. Que horror!

Adaptado do conto The Minority Report (1953), de Philip K. Dick, cujo livro Do Androids Dream of Electric Sheep? também originou Blade Runner - O Caçador de Andróides (1982), de Ridley Scott, Spielberg fez, ao que aparenta, um filme sobre a tão hoje discutida imagem, suas verdades e mentiras. Como em Blade Runner, a imagem é carregada de pistas, num jogo sofisticado de 'edição-não-linear' que poderá chamar a atenção de profissionais do áudio-visual, de editores a realizadores ou manipuladores visuais das mais variadas mídias.


Anderton edita suas verdades como um maestro nos monitores da Pré-Crimes. Em casa, utiliza não apenas drogas químico-sintéticas, mas também a 'droga' da imagem emocional de arquivo com o filho que perdeu. Ele procura em fotografias a verdade sobre o seu desaparecimento, e vê nas fotos mais um documento. A imagem mantém o homem submisso e confuso, e Minority Report repassa a mesma sensação para o espectador. Isso é muito bom.

Spielberg, um dos mais hábeis manipuladores do olhar ditatorial filmado ("olhe isso, veja aquilo"), realiza também uma verdadeira série comemorativa de imagens que celebram os olhos e o quão importantes eles são hoje. De uma tesoura cortando papel e furando os olhos de uma figura impressa a uma busca desesperada por dois olhos que correm pelo chão em direção a um ralo, à própria idéia de que está no seu olho a prova de quem você realmente é.

Por outro lado, se em Blade Runner a imagem era utilizada como prova de memória emocional por seres que precisavam acreditar no que viam, em Minority Report a imagem é prova da "verdade", conceito já não mais inocente para nós do século 20 já há muitos anos. Talvez o fato de a imagem ser ainda forte e irrefutável (vide o 11 de setembro) garanta o sentido do filme. Mesmo assim, ele parece fazer enorme barulho durante 144 minutos para chegar à conclusão de que essa imagem é digna da nossa desconfiança. E isso, todos nós já sabíamos. Esperamos que eles, do futuro, também saibam.

A DITADURA DO OLHAR // Déjà Vu

Por algum motivo engraçado, há uma associação direta de diversão com o absurdo no cinema, especialmente no cinema do entretenimento. Você senta na cadeira, começa a ver o filme e, aos poucos, vai ficando boquiaberto com os desdobramentos propostos pelo roteiro, como ocorre no filme Déjà Vu (EUA, 2006), do inglês Tony Scott, o cineasta burro de carga do cinemão, irmão de Ridley Scott e que já ganhou muito dinheiro com coisas como Top Gun (1986), Maré Vermelha (1995) e Inimigo do Estado (1998). Com esses filmes, Scott (Tony) deu má fama a cenas hiper-cortadas e ambientes artificialmente esfumaçados. Em Déja Vu, onde esse estilo revela-se relativamente discreto, tudo começa com uma bomba, para depois entrarmos numa inesperada trama "Hã???!!! que faz desse produto algo de insanamente estapafúrdio", você deve estar se perguntando.


Talvez o meu espanto tenha vindo do meu problema de tentar não saber muita coisa sobre filmes de ação que alugo para assistir no final de semana, a não ser o básico necessário. E Déja Vu parecia mais um thriller de investigação com ecos do 11 de setembro quando, na verdade, há uma trama tradicional de ficção científica totalmente inesperada metida ali no meio.

Para dar uma idéia da bomba que explode no início de Déjà vu, vale saber que o jornal The New York Times publicou uma matéria especial meses antes da estréia no cinema estritamente sobre a tal explosão, sobre como foi feita e filmada, alimentada à base de gasolina a bordo de um ferry boat, em Nova Orleans. Vendo o filme, não nos pareceu uma explosão particularmente memorável, especialmente sendo esta mais uma produção do super produtor Jerry Bruckenheimer, perito em demolições tipo Armagedon (1998), Pearl Harbor (2001) ou Piratas do Caribe (2004).

A explosão - incidente que irá movimentar o filme - é preparada por Scott com todas aquelas imagens das futuras vítimas (marinheiros, mulheres e crianças) felizes, sorrindo e saltitantes sob o sol, e que irão se transformar em vítimas pelo super CABUM! que vem logo a seguir. Scott preferiu seguir a escola que gosta de avisar o que vai acontecer, com impacto diferente de, por exemplo, a explosão que abre Filhos da Esperança, de Alfonso Cuaron, onde passa-se uma sensação realista parecida com a que testemunhas de uma explosão inesperada devem ter. Nos dois filmes, temos atos terroristas. Em Déja Vu, cita-se claramente o atentado de Oklahoma, em 1995, mas, curiosamente, nada em relação ao 11 de setembro.

Depois da explosão, entra o super brilhante investigador de Denzel Washington, que com os olhos, um saquinho plástico e uma caneta, pula quarteirões de investigação na frente do FBI. O filme, aos poucos, vai ganhando interesse, começando pelo encontro inusitado do investigador com o seu interesse romântico, uma garota morta a ele apresentada numa mesa de necrotério (Paula Patton, que lembra muito Halle Berry).

Engatando a sétima marcha, Déjà Vu nos leva a um laboratório de algum serviço de inteligência onde nerds diante de telas LCD mostram imagens de quatro dias atrás, e essas imagens parecem estranhamente material bruto do próprio filme, com direito a gruas, tomadas aéreas e Steadicam. Somos informados que, através de alguma teoria de relatividade creditada a Einstein, é possível abrir uma janela para o passado, e em alta definição.

sábado, 27 de setembro de 2008

Os Desafinados

A Bossa Nova desafinada de Walter Lima Jr



O cineasta Walter Lima Jr possui, em sua carreira, filmes que encontram facilmente espaço na memória afetiva do cinema brasileiro. E talvez seja suficiente citar apenas um deles, o muito especial A Lira do Delírio (1978). Seu marco inicial, Menino de Engenho (1965), e um mais recente, A Ostra e o Vento (1997), ilustram a coerência de uma trajetória que percorre mais de 40 anos. Isso nos leva ao seu mais recente esforço, Os Desafinados (2008), uma grande decepção.

Em cartaz no Moviecom Castanheira,essa maçaroca indigesta de clichês revela-se, terminada a sessão, um mistério. Problemas observados com freqüência na produção brasileira como o do cineasta que filma aquilo (ou aquele) que não conhece, resultando em notas falsas na forma de cinema e visão de mundo, não deveriam ser um problema nesse aqui.

A associação pessoal de Walter Lima Jr (também roteirista) com o material é clara. Todas as resenhas que li antes do lançamento do filme reforçavam isso, confirmando que seus anos de formação no Rio de Janeiro testemunharam o nascimento da Bossa Nova e de toda aquela geração. De fato, ele foi parte disso. O personagem de Selton Mello, um cineasta, tem o corte claro de um alter ego do próprio diretor. Mesmo assim, tudo soa tão falso, como se o filme tivesse sido dirigido à distância, por telefone – ou pelo msn.

Alternando passagens no presente e no passado (anos 60), Os Desafinados choca por fazer jus ao próprio título. O lugar comum do trocadilho apenas reflete o lugar comum do todo, que é composto por uma seqüência frustrante de situações subdesenvolvidas nas longas duas horas e dez minutos de projeção. É um filme cuja abertura nos mostra ensolaradas paisagens de cartão postal do Rio ao som da bossa nova.

Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Ângelo Paes Leme), PC (André Moraes) e Geraldo (Jair Oliveira) são o quarteto titular de músicos brasileiros que vão tentar a sorte em Nova York. Joaquim deixa a esposa grávida (Alessandra Negrini) e o grupo ganha a companhia de Dico, que quer comprar uma câmera de cinema nos EUA.

Em Nova York, Dico compra a pesada câmera 35mm, que o filme insinua ter som (câmeras de cinema são mudas). Para deixar claro que Dico é o cineasta do grupo, ele é visto com a câmera no braço em inúmeras cenas, como uma proto-handycam.

Joaquim conhece Glória (Cláudia Abreu) numa cena constrangedora no Central Park (ela toca flauta e ele vem de violão). Glória é cantora e começam um affair que, como tudo no filme, registra mais como cena filmada do que pelo sentimento de romance junto ao espectador. Poucas vezes um casal andando numa cidade à noite e se conhecendo foi tão desinteressante.

Pouca coisa vemos do grupo de fato trabalhando em Nova York, ou interagindo de forma convincente com a cidade. Há uma subtrama que não acontece envolvendo um empresário estrangeiro explorador e a falta de intimidade muito freqüente no cinema brasileiro no filmar o passado de maneira realista ganha mais uma tentativa não muito bem sucedida, mesmo num filme classe A como este. Não ajuda o fato de personagens estrangeiros em cena serem brasileiros tentando sotaques.

Na verdade, talvez a falta de intimidade maior seja com o mundo estrangeiro, e, de maneira interessante, Os Desafinados reflete essa ausência do elemento cosmopolita que marca a cultura brasileira de uma forma geral. E a Nova York retratada nesse filme é uma pista. Cenas em estúdio batem de frente com imagens de arquivo da cidade nos anos 60 que apenas reforçam o aspecto televisivo do conjunto. Na verdade, esse banco de imagens fornece as imagens mais expressivas de Os Desafinados. É uma pena que sejam sempre planos de corte rápidos, típicos de uma novela.

Sem grandes preocupações em criar um estado de espírito para ligar a história, ou de ater-se a conflitos humanos de boa qualidade, Walter Lima Jr parece querer dar conta de toda a década de 60 em pinceladas incertas. Voltamos para o Brasil (vôo rasante sobre o Corcovado, imagem assinatura do quão cansado é o senso de imagem do filme), o Golpe de 64 ganha seus cinco minutos aqui, Dico tem problemas com a censura ali, uma TV exibe o discurso histórico "I Have a Dream" de Martin Luther King e, de repente, estamos em Buenos Aires para mais uma seqüência que não parece merecer o esforço do deslocamento.

No presente, temos o grupo já envelhecido rumo ao grande final, a cereja no bolo quando o assunto é mais uma nota falsa - um desdobramento teleguiado pelo roteiro. Curiosamente, Dico, ainda no cinema 40 e tantos anos depois, tenta juntar o material da época para montar um especial que honre a música e a juventude de todos os seus amigos, principalmente dos que morreram. Esse especial é, clara e melancolicamente, Os Desafinados.

Fórmula 1 noturna

GP de Cingapura estréia fazendo história



Neste domingo, às 9 horas (horário do Recife), será disputada a primeira corrida noturna da história da Fórmula 1. Criada em 1950, a principal categoria do automobilismo internacional desembarca pela primeira vez em Cingapura, que já entra no calendário de F1 fazendo história. O circuito de rua será muito bem iluminado com refletores pra lá de potentes. Ao todo, serão 1.600 refletores, distribuídos em postes com 10 metros de altura. A pista tem um trajeto de 5.067 metros. A corrida terá 61 voltas.

Mais de 70 mil ingressos foram vendidos para a corrida. Nos ingressos, o fato da prova ser à noite foi tratado como marketing, com a mensagem “Be part of history” (faça parte da história). Os preços dos ingressos variaram entre R$ 306 e R$ 1.747. O horário noturno tem a intenção de aumentar a audiência da F1 nos Estados Unidos e na Europa.

Nos EUA, aliás, corridas noturnas já são corriqueiras tanto na Fórmula Indy quanto em outras categorias, como a Nascar.

Vale lembrar que a diputa pelo título mundial - faltando apenas 4 provas - está acirrada, com uma vantagem de apenas um ponto para o inglês Lewis Hamilton sobre o brasileiro Felipe Massa (78 x 77).

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Filmes para fugir do horário político, mas não muito (parte III)

Zumbis voltam pra casa e cobram políticos



Ainda sobre o cinema político, há um filme que talvez interesse ao leitor, uma vez que vê-lo é possível tanto em DVD como no canal FX, para quem tem TV por assinatura. Há três anos a Paris Filmes lançou uma série em DVD, o projeto Masters of Horror (aqui, Mestres do Terror), da rede americana de TV a cabo Showtime.
Nomes de peso do gênero fantástico/horror foram chamados para dirigir filmes de uma hora de duração, com liberdade de criação e sem os limites normalmente impostos pelo produto televisivo. Nomes como John Carpenter (Halloween), Dario Argento (Suspiria), John Landis (O Lobisomem Americano em Londres) e Joe Dante integram o time. E é de Dante o filme que destaco, tanto pelo fator inusitado, como pelo seu conteúdo político agressivo. Chama-se Homecoming (voltando para casa, literalmente), batizado no Brasil de Candidato Maldito.
Trata-se de um filme de morto-vivo, mas há uma guinada incrível nesse mote, pois os zumbis de Dante (diretor de Piranha, Gremlins, Viagem Insólita) são soldados americanos mortos na Guerra do Iraque que voltam do além para cobrar da Casa Branca o porquê de terem morrido tão desnecessariamente. Como é que é? Isso mesmo!
Desde que George Romero apresentou seu clássico A Noite dos Mortos Vivos (1968) que o gênero zumbi foi aberto para duas interpretações: a primeira, a do filme de horror puro, macabro e aterrorizante. A segunda, embutida ali, é política, e Romero abordou racismo em ANdMV, consumismo e shopping centers no segundo (Madrugada dos Mortos, de 1978) e militarismo e caos em Dia dos Mortos (1983). Ano passado, lançou Terra dos Mortos, com interessante subtexto (facilmente aplicável ao Brasil) sobre os pobres (zumbis) que ficam fora e os ricos isolados em condomínios, dentro.
No filme de Dante, esse lado político é claro e evidente como nunca antes, e passa uma raiva do filme para com os EUA de George W. Bush que parece deixar a ira de Michael Moore em Fahrenheit 11 de Setembro meio que dispersa. O tema de Homecoming é o desperdício de vidas para saciar uma política frouxa e mentirosa, e nada mais simples e poético do que a imagem (desde já, uma das grandes imagens do ano) de dezenas de caixões cobertos com a bandeira americana num hangar sendo abertos de dentro, por jovens soldados mortos que exigem pelo menos uma explicação para a perda inútil de suas vidas.
É um filme que precisa ser visto não tanto pelo "filme de horror" que há ali, mas pelo contrabando radical que Dante faz ao registrar artisticamente a sua opinião raivosa em relação ao seu país. Se a imagem dos caixões cobertos talvez seja a mais forte, o filme relê uma verdadeira lista de imagens simbólicas que têm marcado o governo Bush, como o isolamento da base de Guantanamo, em Cuba, ou mesmo o processo de eleição, que guarda para o espectador mais inteligente, uma poética idéia relacionada ao desejo que muitos americanos têm, de mudar.

Filmes para fugir do horário político, mas não muito (parte II)

Mera Coincidência

O Brasil seria o país perfeito para fazer filmes como Mera Coincidência (Wag The Dog, EUA, 1997), de Barry Levinson. Se mostrássemos com senso crítico a mecânica dos nossos políticos e a configuração peculiar da sociedade brasileira, seríamos capazes de produzir sátiras mordazes como esta que deixariam o mundo de boca aberta e com azia no estômago. Enquanto não chegamos lá, assistimos aos esforços dos americanos.
Este, na verdade, é o único problema de Mera Coincidência. Embora bem atuado, super bem escrito e dirigido com precisão, é, essencialmente, americano na temática e na ética. De qualquer forma, não é difícil entrar no clima de humor selvagem que guia esta sátira política, que pode ser vista como descendente direta de Dr. Fantástico, de Kubrick (guardando devidas proporções) ou Bob Roberts, de Tim Robbins.




O filme parte do princípio que um cachorro balança o rabo porque tem poder sobre o rabo. Se fosse diferente, o rabo balançaria o cachorro (wag the dog), algo que talvez defina o próprio Brasil.
Robert DeNiro é Conrad Bean, cínico profissional e especialista nos mecanismos que guiam a opinião pública numa sociedade cada vez mais dominada pela mídia. Ele é chamado pela Casa Branca para minimizar os efeitos negativos de um escândalo envolvendo o Presidente e uma adolescente, 10 dias antes de uma possível re-eleição. É bom frisar que o filme foi feito antes do escândalo entre Clinton e a estagiária Monica Lewinski.
Bean, portanto, contrata Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor hollywoodiano que deverá produzir imagens de uma guerra fictícia com a Albânia. Bean explica que é uma estratégia certeira e revela, por exemplo, que a invasão de Granada, nos anos 80, foi parte de um plano para levantar a moral da administração Reagan depois que 243 americanos morreram em Beirute, com um carro bomba, em 1983. "Dois dias depois, ninguém lembrava mais de Beirute!!", diz Bean.
A graça do filme é o seu humor ácido, jogado aos baldes em cima do próprio "USA". Há o ridículo hino estilo We Are the World criado para escorar a farsa, a febre de sapatos velhos jogados em árvores país a fora, a sátira impiedosa do culto americano do herói, além de uma imagem do operador de marionetes de Robert De Niro, numa janela onde é refletida a bandeira americana, colorida e imponente.
Também interessante é o choque entre Bean e Motss, que se acha um artista frustrado ("ninguém reconhece o trabalho de um produtor"), buscando um crédito que não combina com os esquemas políticos ultra-discretos administrados por Bean. Aí, o filme versa rápida, e de forma certeira, sobre Hollywood.
Impossível, como brasileiro, não lembrar da eleição Collor Vs. Lula, de 1989, fato que parece ter sido escrito por alguém como David Mamet. Ele dá ao filme um tom que começa irônico e engraçado (os efeitos especiais empregados na armação) e passa por uma escalada francamente assustadora, ao sentirmos a força dos que vivem e precisam do poder.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Brodagem explícita

A vulgaridade cheia de ternura de um virgem


O Virgem de 40 Anos (The 40 Year Old Virgin, EUA, 2005) é um dos filmes mais divertidos que eu vi nos últimos anos, um saco de gargalhadas do início ao fim que desafia sua própria (longa) duração. Trata-se de uma overdose de humor masculino que, pelo simples fato de elogiá-lo, poderá pegar mal pra dedéu em alguns círculos mais feministas. Paciência.

O Virgem de 40 Anos não é grosseiro e vulgar como alguns poderão deduzir. Sua intensa grosseria e espetacular vulgaridade nunca realmente perdem a ternura. Há no filme um clima geral de "brodagem" entre amigos que revela o carinho que o próprio filme tem pelos seus personagens, chegando a lembrar o cult e mui apreciado Swingers (1995), de Doug Liman. Valorizo um filme como esse pois a norma nesse tipo de coisa (American Pie, Porky's) é um show de humilhação moral e sexual que, na melhor das hipóteses, revela os recalques puritanos de uma sociedade como a americana. Em O Virgem... também existe material para esse tipo de olhar sobre o puritanismo, mas é preciso tentar parar de rir para entender onde estarás sendo levado.
Andy (Steve Carrell, que co-roteirizou o filme com o diretor Judd Apatow) é o personagem titular. Ele mora só, veste camisa ensacada e trabalha numa loja de eletro-eletrônicos de Los Angeles. Andy desenvolveu um trauma a partir de dois acidentes sexuais do seu passado, mostrados em hilariantes flashbacks.
Se há homens que sentem enorme dificuldade de sair da infância, Andy é um que nunca saiu. Sua casa lembra uma loja de briquedos, sua falta crônica de sexo é suprida por um materialismo que não poderia ser mais americano. Ele vai também de bicicleta para o trabalho, fator que parece chocar os sempre motorizados EUA.
Ao aproximar-se de três colegas da loja - David (Paul Rudd), ainda de luto pelo fim de um relacionamento, Jay (Romany Malco), que se acha Don Juan, e Cal (Seth Rogen), adepto de viagens sexuais a Tijuana, no México, um trio macho gente fina e muito engraçado -, o segredo de Andy é descoberto e caberá aos amigos tentar produzir a primeira vez do tímido Andy.
Cada uma das dicas é de uma malandragem masculina totalmente do mal. Do mal talvez, mas engraçadas, a começar pela associação de sexo + mulher + álcool. Homofobia também entra na roda, sobrando, em especial, para fãs do Coldplay. Entre inúmeros arroubos de inspiração, este filme te dá uma boa dica de como tratar gente que te liga para fazer telemarketing. Ou como, no emprego, é sempre melhor pensar no bem estar do amigo e colega, deixando o trabalho em si no segundo plano. Isso me lembra uma certa confraria da qual participei e que no momento oportuno poderei entrar em detalhes neste mesmo espaço.
Boa parte da estratégia de inclusão sexual para Andy é pensada no excelente cenário que é a loja onde trabalham. Composta por bugigangas digitais e enormes monitores de plasma, temos uma fauna bem observada de personagens secundários que fazem o lugar ganhar vida e graça. Dos dois funcionários paquistaneses ("Quem somos nós? Da Al-Qaeda?") à chefe deles, Paula (Jane Lynch), que revela-se uma das personagens mais bacanas de todo o filme. Essa mulher esguia, nos seus 40, com certeza não é mais virgem. A atriz arrasa numa cena bem escrita sobre um certo personagem do histórico sexual dela.
Curiosamente, O Virgem de 40 Anos acrescenta um segundo desdobramento narrativo que vem na figura de Trish (a maravilhosa e lindamente afetada Catherine Keener, de Quero Ser John Malkovich), uma pequena empresária que desperta a atração de Andy. Mãe de três e já avó ("uma das avós mais gatas do país"), ela tenta conter o libido da filha de 16 anos num mundo que só pensa em sexo, ao mesmo tempo em que tenta estimular o de Andy que, estranhamente, sempre adia o contato sexual entre os dois. Observar que o filme equilibra comédia de costumes sexuais e historinha de amor tão bem é um feito.
O que mais impressiona no filme é a capacidade de nos dar, em média, uma gargalhada a cada 30 segundos com os quatro amigos e Trish. O trio da loja tem enorme senso de amizade e vontade de melhorar Andy, promover seu bem estar emocional e sexual, muitas vezes à base de palavras construtivas, embora bebida, drogas e pequenos atos de desobediência civil não estejam descartados.
Estranhamente, acabei de ver Penetras Bons de Bico em DVD com muita boa vontade e detestei. Lembro que na época em que fui ver esse aqui no cinema não tinha grandes expectativas e gostei muito. Os dois filmes acabam ali mesmo onde já imaginávamos que acabariam, e aí senti uma estranha fisgada que me incomodou em O Virgem..., e vai aqui aviso leve de SPOILER. Se entendi bem, mesmo depois de superada a barreira psicológica, os dois esperam para trepar só depois do casório? Que filosofosia batista é essa? Ah, mas não será um deslize como esse que vai estragar a durabilidade (e longevidade) das minhas gargalhadas.
Logo depois, o filme irá redimir-se numa sequência "Hmm??!!" totalmente inesperada que brinda admiradores relaxados de Hair (1979), de Milos Forman, com uma síntese perfeita das duas horas que acabamos de ver: uma hilariante demonstração de vulgaridade, sem nunca perder a ternura e o humor.

Perigo em Bangkok

Mais um assassino de cabelo estranho!



Às vezes a gente fica observando decisões feitas por alguns artistas, algumas delas de botar a mão na cabeça. Um deles é o ator Nicolas Cage, que saiu dos filmes pequenos e autorais nos anos 80 e 90 (Arizona Nunca Mais, dos Irmãos Coen, Coração Selvagem, de David Lynch) para ganhar um Oscar de ator por outro filme de pequeno porte, Despedida em Las Vegas (1996). Depois disso, virou astro em filmes caros tipo The Rock e 8mm. Recentemente, fez o Motoqueiro Fantasma e O Homem de Palha, dois filmes ruins, e agora aparece com um cabelo estranho em Perigo em Bangkok (Bangkok Dangerous, EUA/Tailândia, 2008), dos irmãos Pang, diretores chineses.Esse thriller escuro contribui pouco para elevar a qualidade dos filmes recentes que têm como personagens principais assassinos profissionais (Hitman, O Procurado).
O filme também chama a atenção por tratar-se de uma produção internacional feita na Tailândia por uma equipe tailandesa, curiosidade na mesma semana que vê o também multinacional Ensaio Sobre a Cegueira chegar às salas. Perigo em Bangkok é uma refilmagem de um thriller de mesmo título dirigido pelos mesmos irmãos Pang em 1999, muito visto no mercado asiático. É mais um desses filmes onde o personagem principal não ri, mata laconicamente e movimenta-se na calada da noite como um ninja. E, claro, esse vistoso corte de Barbie morena assanhada, o mais estranho mini-carpete visto desde o gerente de boate de Tom Hanks em Código Da Vinci (o de Barden em No Country For Old Men não conta, pois foi de propósito).
Uma narração dele próprio explica seu modus operandi, composto por regras como associar-se a algum apoio local que seja descartável (pequenos criminosos, viciados em heroína), nunca deixar pistas (não parece conhecer investigação forense) e dar o fora o mais rápido possível. Cage murmura no microfone algo sobre o trabalho oferecer boa grana e levá-lo não importa aonde, o que termina soando como um depoimento sincero do próprio ator sobre suas escolhas recentes no cinema.
Esse matador chega a Bangkok para executar serviços, todos seguidos de gordos depósitos na sua conta corrente. Associa-se a um pequeno marginal chamado Kong, portador de maletas que trazem armas especiais para cada serviço e informações sobre a próxima vítima. Tudo isso você já viu antes, e todos nós entendemos que o sisudo matador irá mudar da água para o vinho, não tanto porque sentimos a mudança, mas pelo fato de filmes do tipo gostarem desse tipo de coisa.
Uma guinada interessante é um inesperado fator Luzes da Cidade, onde nosso amigo interessa-se por uma surda-muda, funcionária de uma farmácia. É ela quem irá dar um pouco de delicadeza a essa alma solitária. Uma cena curiosa onde os dois vão jantar de repente parece fazer parte de um outro filme, talvez uma comédia romântica, claramente a melhor cena do todo. O tema principal é comida picante.
No mais, é tudo muito escuro e rotineiro. A mudança de caráter é absurda, o cabelo permanece esquisito, uma seqüência lembra o assassinato de um certo presidente, as mortes dos vilões sem graça (vilão descartável No. 7 leva tiro e cai), mas, mesmo assim, permanece no filme a impressão de que estamos vendo um thriller estranho, com alguma personalidade, marcada por um final não muito hollywoodiano que deixa a sensação de ser um produto algo de alienígena na sua previsbilidade.

Para fugir do horário político, mas não muito

Normalmente não perco meu tempo assistindo ao Horário Eleitoral Gratuito. Prefiro ver o que está passando na TV por assinatura ou alugar um bom DVD para ocupar aquela meia-hora perdida na programação. Mas para não me sentir totalmente alienado do processo eleitoral, acabei fazendo uma lista de filmes com algum enfoque político para estes últimos dias da campanha. Foi aí que veio a idéia de compartilhar algumas impressões sobre estas produções – em sua maioria norte-americanas – com os leitores do blog. Pra começar, um dos meus preferidos.
Eleição (Election, EUA), de Alexander Payne, pode ser considerado um dos grandes filmes americanos de 1999. Ajuda o fato de ser uma obra de temática tão fortemente americana, ambientada no coração dos EUA (Nebraska), onde Payne cria uma espécie de maquete realista dos que fazem a sociedade “USA” ao enfocar uma eleição estudantil, numa escola secundária. Freqüentando a escola, um grupo de personagens que desempenham suas funções no filme com distinção, mas que também funcionam num nível simbólico, representando os EUA e sua mecânica política como um todo. O conflito entre os diferentes partidos é administrado por Payne com mão notavelmente boba.
Eleição não é particularmente famoso, não foi sucesso de bilheteria e trata-se de um filme pequeno, dotado de um disfarce, para muitos, impenetrável: foi vendido como comédia teen. A presença de Mathew Broderick parece confirmar isso e nos remete diretamente ao seu Ferris Bueller de Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller's Day Off, EUA, 1986), de John Hughes. No entanto, um dos muitos trunfos de Eleição é exatamente o seu disfarce, uma vez que há, nesse filme, uma raposa feroz escondida na pele de um cordeirinho.

Jim McAllister (Broderick) é o melhor professor da Escola Carver, na cidade de Omaha. Dedicado ao trabalho e premiado inúmeras vezes pelo seu empenho e visão comunitária, ele tem certeza de que sua parte do sonho americano está sendo muito bem feita. Ensina a disciplina “Ética e Moral”, é casado e quer ter um filho com Diane (Molly Hagan), muito embora o clima no lar dos McAllister seja de infertilidade afetiva e sexual.Correto como uma régua, Jim sente-se incomodado ao perceber sua própria irritação com uma aluna chamada Tracy Flick (Reese Witherspoon), uma adolescente pateticamente obstinada e empreendedora que candidata-se à presidência do grêmio estudantil, sem concorrentes. Como geralmente ocorre na narrativa clássica americana, a irritação de McAllister também é nossa irritação e, possivelmente, do próprio Payne (que escreveu o roteiro indicado ao Oscar com Jim Taylor). Tracy é ironizada, ridicularizada pela câmera, embora ela mesma, e o seu jeito, falem por si próprios. De qualquer forma, Payne consegue algum tipo de distanciamento, mas sem nunca perder a essência da identificação entre espectador e personagens, principalmente em relação a McAllister.
Witherspoon (indicada ao Globo de Ouro pelo papel) compõe Tracy como uma locomotiva movida a veneno e uma ambição tocada pela objetividade comum às aves de rapina. Filha de uma ex-aeromoça (Coleen Camp), é a imagem da ambição projetada também pelo sonho americano. Seria prima não muito distante da aplicada personalidade televisiva de Nicole Kidman, em Um Sonho Sem Limite (To Die For, 1995), de Gus Van Sant. Focada no alvo, Tracy fará de tudo para acertá-lo e Payne certifica-se de que suas ações e manipulações permaneçam ancoradas na realidade. Talvez em outro filme, Tracy apelasse para assassinato. Em Eleição, ela almeja Washington DC.


McCallister tenta separar os fatos relacionados a Tracy, especialmente após um incidente que vitimou seu melhor amigo e também professor, Dave (Mark Harelik), algo apresentado pelo filme com ironia dolorosa. Talvez por isso e também motivado por uma defesa da democracia americana e do poder de escolha da sua comunidade estudantil, ele parte para achar um segundo candidato que possa fazer frente à forte plataforma de Tracy. Encontra o candidato biônico perfeito: Paul Metzler (Chris Klein, uma espécie de Keanu Reeves 10 anos mais jovem), menino bom, bonito, popular e burro.Tem início uma guerra de ética e moral que fará McAllister repensar toda a sua vida e a mecânica de uma sociedade injusta, mas sempre com um pé firme na ingenuidade dos otimistas. Narrado num ritmo que mistura agilidade de edição e atenção especial ao conteúdo apresentado, Eleição é uma massa sólida de informação bem apresentada ao longo de 103 minutos. É um filme onde os personagens são bem construídos não apenas pelos diálogos afiados, mas também por uma preparação cuidadosa dos arredores e dos símbolos e signos que os cercam.Isso vai desde a própria escola, às residências classe-média dos personagens, a motéis construídos para servir à família americana e onde corredores são horrendamente acarpetados. Esse tipo de textura tem sido utilizada com enorme efeito pelos Simpsons, já há uma década e meia, e encontra perfeita ressonância nesse filme, que pode ser visto como um ensaio sobre os americanos, seus ideais e a forma como esta sociedade pensa. Há um conteúdo realista de “tempo” e “lugar” que salta aos olhos numa utilização original desses elementos, especialmente pelo tom realista de ironia. O time de coadjuvantes é excelente. Tammy (Jessica Campbell) é a irmã homossexual de Paul que candidata-se à presidência com uma plataforma anárquica que deverá servir propósitos bem pessoais. Linda (Delaney Driscoll) é a vizinha dos McAllister que irá oferecer uma perspectiva de vida mais fértil para Jim enquanto, na escola, alunos e professores são mostrados com tanta naturalidade que o espectador sente-se imediatamente inserido no ambiente. Eleição é também aquele tipo de filme cujo teor é notavelmente amargo, especialmente se olharmos para McAllister, personagem construído com todas as cores de um homem que Frank Capra teria tentado construir. O que realmente não pertence ao estilo Capra é a visão irônica com a qual Payne ajusta sua lente ao mostrar não apenas seu quixotesco personagem principal, mas também a América do meio-oeste.Particularmente perturbador é o desdobramento de uma trama que envolve sexo com menores de idade, adultério, lesbianismo, corrupção e a ingenuidade dos que só querem fazer um bom trabalho para a sociedade. Nesse sentido, o filme faz parte de uma leva de obras recentes que lançam olhar ácido sobre os EUA, como Clube da Luta (Fight Club), Três Reis (Three Kings) e Felicidade (Happiness), com doloroso sarcasmo. O filme tem o cinismo de alguém que parece estar se fazendo de besta, mas que revela-se inteligente e cortante no seu comentário.Se o filme, como um todo, é dotado de um tom corrosivo, Payne deixa para os últimos 10 minutos o efeito máximo do ferrão ao encerrar sua história com o drama e o silêncio social dos inocentes. É uma nota final amarga, mas absolutamente adequada ao perfeito exercício em deboche controlado apresentado ao longo de todo o filme.
DVD - Eleição chegou ao formato DVD num disco razoável (Paramount), com a obrigatória imagem excelente, freqüentemente granulada, mas normal em se tratando de um filme rodado em Super35mm. O formato de tela é “scope”, como no cinema, ajustado para algo em torno de 2.35:1.A trilha sonora em Dolby Digital 5.1 não explora canais traseiros, mas apresenta-se forte especialmente na trilha sempre ativa de Rolfe Kent. Diálogos são perfeitamente reproduzidos, embora o destaque sonoro do filme vá para o primeiro som que ouvimos, ainda na abertura, uma enorme mangueira regando um campo de futebol.Além do básico (capítulos divididos), este DVD traz o comentário simpático e sempre interessante do diretor Alexander Payne. Ele explica aspectos interessantes do filme e muitos dos seus segredos. Ouvir informações sobre esses segredos nos diz muito sobre o processo criativo que guia realizadores e, acreditem em mim, ajuda muito na hora de escrever uma resenha.A textura realista do filme sobre o meio-oeste pode ser explicada pelo fato de o próprio Payne ter nascido e sido criado na cidade de Omaha, onde se passa a história e onde ele filmou Ruth em Questão (Citizen Ruth), seu primeiro filme. É também interessante ouvi-lo falar sobre sua tentativa de defender os personagens de Broderick e Witherspoon através de círculos e linhas retas. Jim seria sempre representado por círculos e Tracy por retas. Isso realmente está no filme, embora o espectador provavelmente não esteja ciente disso. Há também um tema que Payne faz questão de ressaltar envolvendo “lixo”, que parece perseguir todos no filme, especialmente Jim. Caminhões de lixo, lixo e lixeiras estão sempre lá, fazendo parte importante da trama, em determinadas situações. O DVD de Election vale pelos comentários de Payne, que parece ser um realizador extremamente talentoso ao tentar decifrar sua sociedade, assim como personagem simples e de palavra fácil, sem falsas posições intelectualizadas.
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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.