Cada vez mais tem-se a impressão de que estamos mesmo vivendo uma época marcante em relação às imagens fabricadas que temos para olhar no mundo. O cinema talvez seja a luneta mais relevante desse olhar moderno e tem traduzido tudo isso numa série de filmes que mostram-se reflexivos sobre a imagem. Nos últimos anos, Dançando no Escuro (Dancer in the Dark, Von Trier), Amnésia (Memento, Nolan), Time Code (Figgis), Elogio ao Amor (Elóge D'Amour, Godard) e Janela da Alma (Jardim e Carvalho), para citar alguns, têm estimulado discussões interessantes sobre ver e enxergar, pontos de vista diferentes e formatos de ver. Minority Report - A Nova Lei (EUA, 2002) entra para a discussão ele próprio com uma tempestade de imagens, ao mesmo tempo em que homenageia os olhos, o globo ocular mesmo, e o que ele tem visto, ou pensa ter visto.

Minority Report é também um genuíno exemplar da ficção científica, realizado com todo o porte, esmero e excesso que geralmente associamos a Steven Spielberg, diretor que frequenta com desenvoltura o gênero (Contatos Imediatos..., E.T., Inteligência Artificial).
Com perfeita utilização de tecnologia, o filme parece discutir um tanto ingenuamente a imagem numa sólida estrutura de ação, abrindo uma janela para o mundo audio-visual do futuro e cuja base nós já podemos enxergar hoje mesmo, ao nosso redor.
Dependendo do seu interesse por ação e por essa janela aberta pelo filme, Minority Report poderá sobreviver aos habituais ataques de estupidez emocional que mancham praticamente todos os trabalhos desse talentoso malabarista da imagem e do som, em especial rumo às suas conclusões. Para mim, é realmente doloroso estar sentado na cadeira gostando do filme e, de repente, perceber que a tela começa a derreter com a visão repentinamente míope de Spielberg. De qualquer forma, dependendo do valor total do filme, a má impressão geralmente encolhe, como no caso de Inteligência Artificial e o seu desnecessário happy end.
Ambientado em Washington DC, 2054, temos uma divisão especial da polícia - Pré-Crimes - que cuida de assassinatos que ainda não ocorreram. Trabalham com videntes (os pre-cogs), que imersos num líquido transmissor de energia cerebral, passam 24 horas por dia sonhando, aparentemente, com a MTV. Essas imagens fragmentadas e estéticas (produzidas pelo Imaginary Forces, responsável pela abertura de Seven) são clipes sem música de assassinatos futuros.
Spielberg e equipe devem ter discutido muito a estética dessas imagens, particularmente pelo fato de não terem sido captadas por uma câmera, afinal de contas, são visões geradas por um cérebro. Qual o formato de uma visão, ou de uma memória? Pessoalmente, acho que elas não têm/ou teriam a aparência de um clipe do U2. Spielberg e equipe parecem pensar diferente e, pelo que já ouvi, muita gente gostou. Bem, cada um sonha como pode.
A energia cerebral dos pre-cogs é transformada em imagens-documento analisadas por uma equipe de policiais. À frente da Pré-Crimes está o detetive John Anderton (Tom Cruise), que ficará chocado ao ver nos monitores mais um videoclipe violento no qual ele mesmo é o assassino. Anderton precisará ser detido ao matar, em alguns dias, alguém que ele nem conhece.
Inicialmente, Anderton é personagem duro, amargurado, não exatamente um 'bad boy', mas como num filme de detetive dos anos 70. Usuário de drogas, é traumatizado pela perda do filho e dedica sua vida à identificação de futuros assassinos. Cruise empresta a sua persona a cenas de ação montadas por Spielberg como só esse mestre do entretenimento sabe fazer (as aranhas, os jatos propulsores, os automóveis).
Como de hábito, vale registrar, Spielberg é incapaz de realmente trabalhar com um personagem duro, e nisso ele mostra-se um hipócrita. Ele implode seu homem falho e sombrio (como ocorreu com Schindler, em A Lista de Schindler) numa conclusão cor-de-rosa que nega praticamente todo o clima do que foi apresentado antes.
Bem antes disso, Anderton foge dos colegas, tendo literalmente que 'mudar o seu olhar' (olhos) para evitar o sistema padrão de identificação (scan das retinas), infiltrar a Pré-Crimes e sequestrar Agatha (Samantha Morton), a mais talentosa do trio de videntes. Com ela, irá decifrar o interessante mistério das imagens de mortes passadas e futuras que pode envolver seu inimigo interno da corporação, Danny Witwer (Colin Farrell), supervisionado pela figura paterna do chefe Lamas Burgess (Max Von Sydow).
Diferente do excelente Inteligência Artificial (2001), que tinha na pausa dos sentimentos parte importante do seu eixo, Minority Report apresenta diferentes níveis de interesse, como um moderno produto do marketing. É filme de ação legal e tem verniz intelectual para uma boa discussão.
Merece também uma colocação no domínio da ficção científica ao nos apresentar elementos de tecnologia curiosamente plausíveis que poderão fazer parte da rotina no futuro, quando jornais serão misto de papel com internet e a publicidade atingirá, finalmente, um grau de pesadelo impensável ao perseguir seu público-vítima ao redor da cidade com mensagens irritantemente personalizadas. Que horror!
Adaptado do conto The Minority Report (1953), de Philip K. Dick, cujo livro Do Androids Dream of Electric Sheep? também originou Blade Runner - O Caçador de Andróides (1982), de Ridley Scott, Spielberg fez, ao que aparenta, um filme sobre a tão hoje discutida imagem, suas verdades e mentiras. Como em Blade Runner, a imagem é carregada de pistas, num jogo sofisticado de 'edição-não-linear' que poderá chamar a atenção de profissionais do áudio-visual, de editores a realizadores ou manipuladores visuais das mais variadas mídias.

Anderton edita suas verdades como um maestro nos monitores da Pré-Crimes. Em casa, utiliza não apenas drogas químico-sintéticas, mas também a 'droga' da imagem emocional de arquivo com o filho que perdeu. Ele procura em fotografias a verdade sobre o seu desaparecimento, e vê nas fotos mais um documento. A imagem mantém o homem submisso e confuso, e Minority Report repassa a mesma sensação para o espectador. Isso é muito bom.
Spielberg, um dos mais hábeis manipuladores do olhar ditatorial filmado ("olhe isso, veja aquilo"), realiza também uma verdadeira série comemorativa de imagens que celebram os olhos e o quão importantes eles são hoje. De uma tesoura cortando papel e furando os olhos de uma figura impressa a uma busca desesperada por dois olhos que correm pelo chão em direção a um ralo, à própria idéia de que está no seu olho a prova de quem você realmente é.
Por outro lado, se em Blade Runner a imagem era utilizada como prova de memória emocional por seres que precisavam acreditar no que viam, em Minority Report a imagem é prova da "verdade", conceito já não mais inocente para nós do século 20 já há muitos anos. Talvez o fato de a imagem ser ainda forte e irrefutável (vide o 11 de setembro) garanta o sentido do filme. Mesmo assim, ele parece fazer enorme barulho durante 144 minutos para chegar à conclusão de que essa imagem é digna da nossa desconfiança. E isso, todos nós já sabíamos. Esperamos que eles, do futuro, também saibam.