
No dia 23 de novembro do ano passado, diante da platéia que lotou o show que fez no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, Tom Zé disse: "Caetaaanooo, vai tomar no cu". O músico passou o final de 2008 falando mal de Caetano Veloso até em seu blog depois que ele o elogiou por causa do recém-lançado CD Estudando a Bossa - Nordeste Plaza.
"Não, Caetano (....) eu não posso aceitar agora o seu colo e do grupo baiano, que durante todos esses anos me separaram até do que era meu, enquanto gozavam todo o prestígio e privilégios, talvez como ninguém neste país analfabeto".
E Caetano respondeu: "Eu não sou o grupo baiano. Eu sou eu. E você não precisa recusar um abraço meu para ser grato a quem o ajudou. Nos abraçamos muito nesses últimos anos. E quando o show do Cê pintou você escreveu sobre ele. Agora escrevi sobre seu disco porque toco esse blog de feitura do meu e nele escrevo sobre tudo. Por que me proibiria de escrever sobre você? Tá maluco? Eu gosto de você. Não precisamos desses surtos de ressentimento".
Ah, meu Deus! Como diria o grande Millôr Fernandes, não me meto em briga de baianos. Melhor: como afirma o próprio Tom Zé no encarte do seu bom e novo álbum, "esses baianos falam demais - incorrigíveis parlapatões". Falemos de música, então, que (quase) sempre é o que mais importa na vida de compositores.
No cinquentenário da onda que se ergueu no mar do Rio e molhou o mundo, Tom Zé também resolveu homenagear o gênero com o álbum Estudando a Bossa - Nordeste Plaza (Biscoito Fino). Talvez, o seu trabalho mais melódico (para fazer jus à música de Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes).
Com sua cabeça sertaneja-paulistana caoticamente brilhante, Tom Zé desconstrói e recria vários elementos do gênero, numa reportagem sonora de fatos e acordes. Você compra um CD e, nas entrelinhas, leva também um livrete sobre a música que inventou o Brasil contemporâneo. Dois em um é isso.
E, como gosta de andar bem acompanhado, o artista chamou Mariana Aydar, Mônica Salmaso, Tita Lima, Andréia Diaz, Márcia Castro (revelação baiana), Jussara Silveira, Fabiana Cozza, Fernanda Takai, Zélia Duncan, Marina De La Riva, Anellis Assumpção, Badi Assad e David Byrne para cantar com ele no CD.
David Byrne, você deve saber, foi o homem que redescobriu Tom Zé para o Brasil e o mundo no final dos anos 80. Quando o compositor estava esquecido e sem trabalho, o ex-líder do Talking Heads apareceu e, a partir daí, a sua carreira reacendeu - passou a fazer turnês na Europa e nos EUA (saudado por muita gente boa do indie rock), além de conquistar um novo público no Brasil.
O xingamento ao ex-companheiro Caetano, 66, pode parecer ressentimento de Tom Zé, 72, sim, mas tem tudo a ver com a trajetória de um tropicalista que parece ter algo de punk em seu DNA. O tempo transformou Caetano Veloso & Gilberto Gil no mainstream do Tropicalismo - Tom Zé é o lado indie, pois não. Mas cada um tem seu valor artístico e histórico para a MPB. E isso é fato incontestável. Portanto, não tomo partido nesse entrevero. Eles que são baianos que se entendam!

