terça-feira, 20 de janeiro de 2009

TOM ZÉ, O PUNK DO TROPICALISMO


No dia 23 de novembro do ano passado, diante da platéia que lotou o show que fez no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, Tom Zé disse: "Caetaaanooo, vai tomar no cu". O músico passou o final de 2008 falando mal de Caetano Veloso até em seu blog depois que ele o elogiou por causa do recém-lançado CD Estudando a Bossa - Nordeste Plaza.

"Não, Caetano (....) eu não posso aceitar agora o seu colo e do grupo baiano, que durante todos esses anos me separaram até do que era meu, enquanto gozavam todo o prestígio e privilégios, talvez como ninguém neste país analfabeto".

E Caetano respondeu: "Eu não sou o grupo baiano. Eu sou eu. E você não precisa recusar um abraço meu para ser grato a quem o ajudou. Nos abraçamos muito nesses últimos anos. E quando o show do Cê pintou você escreveu sobre ele. Agora escrevi sobre seu disco porque toco esse blog de feitura do meu e nele escrevo sobre tudo. Por que me proibiria de escrever sobre você? Tá maluco? Eu gosto de você. Não precisamos desses surtos de ressentimento".

Ah, meu Deus! Como diria o grande Millôr Fernandes, não me meto em briga de baianos. Melhor: como afirma o próprio Tom Zé no encarte do seu bom e novo álbum, "esses baianos falam demais - incorrigíveis parlapatões". Falemos de música, então, que (quase) sempre é o que mais importa na vida de compositores.

No cinquentenário da onda que se ergueu no mar do Rio e molhou o mundo, Tom Zé também resolveu homenagear o gênero com o álbum Estudando a Bossa - Nordeste Plaza (Biscoito Fino). Talvez, o seu trabalho mais melódico (para fazer jus à música de Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes).

Com sua cabeça sertaneja-paulistana caoticamente brilhante, Tom Zé desconstrói e recria vários elementos do gênero, numa reportagem sonora de fatos e acordes. Você compra um CD e, nas entrelinhas, leva também um livrete sobre a música que inventou o Brasil contemporâneo. Dois em um é isso.

E, como gosta de andar bem acompanhado, o artista chamou Mariana Aydar, Mônica Salmaso, Tita Lima, Andréia Diaz, Márcia Castro (revelação baiana), Jussara Silveira, Fabiana Cozza, Fernanda Takai, Zélia Duncan, Marina De La Riva, Anellis Assumpção, Badi Assad e David Byrne para cantar com ele no CD.

David Byrne, você deve saber, foi o homem que redescobriu Tom Zé para o Brasil e o mundo no final dos anos 80. Quando o compositor estava esquecido e sem trabalho, o ex-líder do Talking Heads apareceu e, a partir daí, a sua carreira reacendeu - passou a fazer turnês na Europa e nos EUA (saudado por muita gente boa do indie rock), além de conquistar um novo público no Brasil.

O xingamento ao ex-companheiro Caetano, 66, pode parecer ressentimento de Tom Zé, 72, sim, mas tem tudo a ver com a trajetória de um tropicalista que parece ter algo de punk em seu DNA. O tempo transformou Caetano Veloso & Gilberto Gil no mainstream do Tropicalismo - Tom Zé é o lado indie, pois não. Mas cada um tem seu valor artístico e histórico para a MPB. E isso é fato incontestável. Portanto, não tomo partido nesse entrevero. Eles que são baianos que se entendam!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

QUANDO NÃO HAVIA PROTETOR SOLAR


A vida na praia não é tão fácil quanto parece. Já foi pior, verdade. Houve tempo em que não existia protetor solar, sabia? Ou não havia por aqui. Ou lá na Marambaia não tínhamos notícia da descoberta desse milagre da ciência. Então, eu, um branquelo notório, sofria medonhamente com a vida praiana.

O problema é que sempre quis viver a vida praiana. Era guri e via aqueles comerciais de TV. Ondas espumavam em todos os programas de TV. O jornal. Pegava o jornal e a cobertura de praia era uma festa. As mulheres de biquíni, o campeonato praiano, os jornalistas escreviam direto de Salinas. Dava vontade de ir à praia. Era lá que as coisas aconteciam. Lá é que as pessoas estavam vivendo, entre camarões fritos e caipirinhas. Só que nós não tínhamos verba para ir à Orla, permanecíamos aqui, na modorra, na canícula.

O pai da Clarice tinha. A Clarice era a minha namorada, uma morena que usava shortinho branco. Era legal aquele shortinho branco da Clarice. Bem curto e apertado e tudo mais. Pois o pai dela era dono de um Fusca verde. Ainda mora lá na Marambaia, o pai da Clarice. Nos verões, ele pegava a Clarice e a mãe da Clarice e o Beto Zúqui, irmão da Clarice, que era bom meia-direita, ele pegava todo mundo e botava naquele Fusca verde e ia para a praia. Mosqueiro.

Eu ficava aqui. Eu e os moleques que não iam à praia. Curioso: nenhum moleque ia à praia; só as molecas. Os moleques que iam à praia eram os dos conjuntos habitacionais. Os do Médice. Do Mendara. Malditos.

Quando a Clarice voltava, bronzeada e sorridente, ela contava sobre o que havia feito na praia. Ai, como amo Mosqueiro, miava. Ai, que saudade de Mosqueiro. Me dava uma raiva de Mosqueiro. Um verão ela voltou falando de um certo Cléber. Aí eu e o Cléber fomos pegar jacarezinho, aí o Cléber me falou que da areia do mar se faz o vidro das janelas. O Cléber, o Cléber, o Cléber. Somos só amigos, ela alegava.

Amigos.

Sei.

Por tudo isso, por causa dos jornalistas em Mosqueiro, dos comerciais de TV e da Clarice, queria viver a vida praiana. Quando ficamos mais taludos, eu e os guris demos um jeito nisso. Íamos para a Orla de carona. Antes era possível isso, viajar de carona. Ponto para as velhas gerações. Hoje, carona é um perigo. Para quem pega e para quem dá. Na época, que nada. Pendurávamos as mochilas nas costas e tocávamos para o Entroncamento. Vinte, 30 guris. Claro, ninguém dá carona para 20. Tínhamos de nos dividir aos pares. Lá ficávamos nós, dedão em riste. Um carro parava. Outro. Mais outro. Em duas horas, todo mundo ia. A volta, por algum motivo, era mais difícil.

Uma vez, eu e o Pedro só conseguimos carona numa Brasília de um vendedor de churrasquinho. A Brasília estava cheia de panelas e sacos de farinha e troços de fazer churrasquinho. Eu o Pedro e mais o vendedor de churrasquinho tivemos de nos acomodar no banco da frente. A Brasília andava a 60 por hora e tinha um buraco no assoalho. Por Deus. O vento que vinha da estrada queimava o pé da gente. Brabeza.

O fato é que era difícil pegar carona na volta. Mesmo assim, nós íamos e retornávamos de carona todos os fins de semana do verão. Chegando lá, corríamos para a areia da praia, que alegria. Passávamos o dia jogando bola e rondando as molecas e bebendo cerveja. De noite, eu estava todo vermelho, meus ombros e meu nariz ardiam, não entendia como é que os outros não se queimavam e eu sim.

Até que arrumei uma namorada. Não a Clarice. Outra. Marta. Fomos juntos para a praia. Para um camping em Algodoal. Ela disse que ia cuidar de mim para que não me queimasse. Sabe o que a mina fez? Me untou com Óleo Johnson. Óleo Johnson, cara! Fritou-me, a Marta. A vida praiana era dura sem o protetor solar. E por outros motivos, alguns deles futebolísticos, dos quais falarei num futuro post.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

EM NOME DOS FILHOS



Luc Ferry diz que o homem ocidental não vive, não morre e não mata mais pelo que já viveu, morreu e matou. É filósofo, Luc Ferry, e já foi ministro da Educação da França. Segundo Luc Ferry, o homem do Ocidente viveu, morreu e matou pela religião, pela pátria e pelo idealismo. Agora não mais. Agora, o eixo das motivações do Ocidente é outro.

São os filhos.

Pelos filhos, o ocidental vive, mata e morre.

Talvez seja a prova de que o homem contemporâneo é muito mais superficial e individualista do que jamais foi em toda a história da Civilização. Compreensível. Afinal, o capitalismo e a democracia, moldes do Ocidente, só vicejam se regados pelo individualismo. E a democracia é mesmo o governo do superficial e do medíocre.

Mas é provável, também, que o homem ocidental tenha se desiludido com suas antigas motivações. A religião, a mais antiga delas, é também a mais arraigada. Por ser impalpável e ameaçadora — o incrédulo tem sempre pendendo sobre a sua cabeça a espada da vingança de Deus só porque ele duvida de Deus.

O problema é que as religiões não vêm se mostrando eficientes nestes séculos todos. Nenhuma delas garante proteção total aos fiéis contra intempéries, micróbios em geral ou, o pior, a maldade humana. Mesmo que o fiel seja um modelo de crente, um modelo de comportamento. Aquele menino que morreu arrastado por um carro no Rio, por exemplo. Por que as entidades divinas permitiram seu suplício? Ele não devia ter culpa no coração. Ah, aí o religioso alega que existe o livre arbítrio. Não sei o que seria das religiões se não houvesse o livre arbítrio para absolvê-las.

Da mesma forma, as ideologias. A mais generosa delas, o comunismo, não funcionou em lugar algum quando implantada. Ao contrário, transformou seus ideólogos em monstros sanguinários, genocidas frios. Prova de que o ser humano não está preparado para dividir nada com seus semelhantes.

A pátria é ainda mais frágil. A América é a prova geográfica de que pátria não existe. Pois os colonos que vieram da Europa, da África e da Ásia, o que eles são? Filhos de japoneses, italianos, alemães e congoleses, não são também brasileiros, mexicanos, americanos? Por que alguém que nasce no Paraguai é melhor do que alguém que nasce na Bolívia?

Não. Pátria, ideologia e religião falharam como razões da existência.

Mas aí, no fim da primeira década do século 21, o mundo assiste à guerra na Faixa de Gaza, uma guerra motivada, exatamente, por noções de pátria, por ideologia e por religião. Pode-se empregar todo tipo de argumento numa guerra como esta, a favor e contra os dois lados. Ambos têm suas razões. E não têm nenhuma. Só o que não pode é acontecer o que tem acontecido. Vi uma cena desta guerra. Uma foto de jornal. Uma mãe ao lado do filho que teve as duas pernas amputadas pela explosão de uma bomba. Que religião, que pátria, que ideologia valem a dor dessa mãe? Viver pelos filhos, realmente, talvez não seja o mais nobre para o espírito humano. Talvez não seja o mais elevado. Talvez não seja nem mesmo o mais belo. Mas, de tudo pelo que já se viveu, morreu e matou, é o mais civilizado e muito, muito mais humano.
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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.