quarta-feira, 29 de outubro de 2008

NEM O HARRY POTTER, FELIPE?


"Não sou muito de ler", declarou o piloto Felipe Massa à Folha de S.Paulo, conforme publicado na edição de 28/10/08. A afirmação foi feita durante evento numa escola pública no bairro do Jardim Umarizal, Zona Sul de São Paulo. Preparada para ser uma promoção, a resposta do piloto tornou-se um vexame só. Massa fez doação de livros e inaugurou uma sala de leitura, mas o que ficou mesmo foi a opinião do ferrarista de não ler e nem se lembrar do nome do último (ou primeiro) livro que leu.

Milhões no Brasil não podem ler, pois o livro é caro e a renda das famílias não lhes permite comprá-los. Agora, um piloto de automobilismo - com salário em milhões de euros -, falando quatro ou cinco idiomas, declarar que é difícil encontrar tempo prá ler... é dose!

Desgraçadamente, isto é comum. O pobre não vai aos livros por falta de dinheiro, os ricos, por ignorância pura. Lembrei-me dos fundadores do Corinthians. Eram pessoas simples, a maioria de origem italiana - quase não falando português, decidiram fundar "um clube para jogar futebol e fazer uma biblioteca". O clube está feito e é um dos maoires do Brasil, mas a biblioteca precisa de um trabalho bem mais amplo.

Na matéria da Folha, onde se narra o vexame desta tal visita à escola da zona Sul, o repórter diz que entre os livros doados estavam "Novelas Paulistanas", de Alcântara Machado, e a ópera "Turandot", de Puccini. Alcântara Machado foi genial escritor paulista, um corintiano roxo e que muito ajudou o time. Na ópera "Turandot", a princesa chinesa matava seus namorados quando eles respondiam errado suas três perguntas.

É - também - desta ópera uma das mais belas árias do canto lírico: "Nessun dorma" (Ninguém durma), imortalizada por Pavarotti, e que termina com a famosa frase "All'alba vinceró! Vinceró! Vinceró!" (Na aurora, vencerei, vencerei!).
Será?

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O SEXO ERROU!


- Se todos conhecessem a intimidade sexual dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém. (Nelson Rodrigues/Foto)

- Quando vi uma mulher nua pela primeira vez, pensei que o rabino tinha ido longe demais na circuncisão dela. (Woody Allen)

- Se eu acho que sexo é sacanagem? Só quando é bem feito. (Woody Allen)

- Homens e mulheres, mulheres e homens. Não vai dar certo. (Erica Jong)

- A pessoa pode abdicar do sexo, mas o sexo não abdica da pessoa. (Gabriel García Márquez)

- O sexo é uma das nove razões para a reencarnação. As outras oito não têm importância. (Henry Miller)

- Para algumas pessoas, depois dos 50 anos, discutir toma o lugar do sexo. (Gore Vidal)

- (Quando perguntado se a primeira pessoa com quem tinha ido para a cama era um homem ou uma mulher) Eu era muito educado para perguntar. (Gore Vidal)

- Eu nunca iria para a cama com um perfeito desconhecido. A menos que este desconhecido fosse perfeito. (May West)

- Eu digo à mulher que seu rosto é uma grande experiência para mim e que suas mãos são a minha alma - qualquer coisa para ela abaixar a calcinha. (Charles Bukowski)

- Todo o corpo é um órgão sexual, com exceção, talvez, das clavículas. (Luís Fernando Veríssimo)

- Pelo jeito que a coisa vai, em breve o terceiro sexo estará em segundo. (Stanislaw Ponte Preta).

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

QUEM MANDA NO MUNDO? // As mulheres é claro


Agora vou explicar por que e como as mulheres mandam no mundo. Vou explicar por que e como as mulheres pisam em nossos pescoços e nos jogam ao chão e nos fazem beijar seus pés macios calçados com delicados e pontiagudos escarpins.

Sempre foi assim, em qualquer tempo, e qualquer homem, por maior que tenha sido ou seja, um dia sentiu os efeitos do poder da mulher. E sofreu.

Pegue-se um dos homens mais influentes da história: Abraão, o patriarca das três grandes religiões monoteístas, o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Abraão não ficou famoso só depois de morto, como tantos personagens da História. Quando vivia, há 3900 anos, já era um influente chefe de clã, rico criador de caprinos e ovinos, e, o principal, muito amigo do Senhor em pessoa, se é que se pode dizer que o Senhor esteja enquadrado nesta categoria de pessoa.

O fato é que Abraão conversava com Jeová até com alguma intimidade. E Deus gostava tanto dele que lhe fazia promessas. Abraão teria propriedades sem conta e seria o pai de muitos povos, "tão numerosos quanto o pó sobre a terra". No entanto, Sara, a mulher de Abraão, era estéril. Assim sendo, sem filhos, de que maneira ele formaria essa prometida posteridade? A solução foi dada pela própria Sara: que Abraão tomasse sua escrava egípcia, chamada Agar, e fizesse nela um filho. Abraão adorou a idéia e deu início aos trabalhos. Que foram fecundos. Mesmo: nasceu de Agar um menino em quem Abraão pôs o nome de Ismael, que significa "Deus escuta".

Tudo ia muito bem, até que um dia Sara chamou Abraão e disse que Agar andava rindo dela à socapa, que é o mesmo que rir à sorrelfa. Tenho minhas dúvidas sobre essa parte da história. Será que Agar estava mesmo gozando de Sara ou Sara ficou com ciúme da fertilidade da escrava? Enfim. O certo é que Sara ficou agastada com a situação, mas não podia fazer nada, já que o filho era importante para Abraão fundar sua dinastia.

Um dia, porém, apareceram para Sara e Abraão três estrangeiros que não eram outros senão três anjos muito graduados lá do Céu: Gabriel, Mirael e Rafael. Eles avisaram a Sara que em um ano ela teria um filho nos braços. Abraão ficou faceiro com a notícia, mas Sara riu: ela não apenas era estéril, como estava com 89 anos de idade, enquanto Abraão tinha 99! Bem, Charles Chaplin teve um filho aos 82 anos e Oscar Niemeyer, dizem, ainda é ativo e viril aos 100! Só que hoje existe Viagra e gemada, o que não havia 40 séculos atrás. Logo, era compreensível a risada de Sara. O problema é que os anjos do Senhor não fazem gosto de que se duvide deles. Repreenderam Sara e ordenaram que o menino se chamasse Isaac. Em hebraico, "Gargalhada".

Com o nascimento de Isaac, seria de se esperar que os desentendimentos entre Sara e Agar terminassem, certo? Errado. A rivalidade entre as duas prosseguiu viva e pulsante como a da Dupla Re-Pa. Sara vivia apoquentando Abraão para que ele se livrasse de Agar. Falava tanto, mas tanto, que Abraão não se agüentou: deu uma porção de água e de pão para Agar e Ismael e os despachou para o deserto. Os dois quase morreram de sede, mas a Providência, providencialmente, os salvou fazendo aparecer um veio d´água no meio da areia. Ismael cresceu e se tornou o pai dos povos árabes, assim como seu meio-irmão Isaac é o pai dos israelitas. Ou seja: seus descendentes sustentaram pela poeira dos séculos a rivalidade estabelecida por suas mães. A rivalidade Re-Pa ainda não chegou a este ponto, mas, se continuar no ritmo que anda, logo teremos atentados nas arquibancadas.

Porém, não era da rivalidade que eu ia falar, e sim do poder das mulheres. Abraão era o patriarca, era poderoso e, aos cem anos de idade, devia ser bastante maduro. Mas não suportou a pressão de Sara e mandou o próprio filho para o deserto! Aí está o cerne do poder feminino: a chatice. Você gosta da mesinha de centro que há na sua sala. Você coloca a cerveja sobre aquela mesinha para ver o jogo e o controle remoto também e volta e meia um prato com salame e queijo, tudo muito legal. Mas a sua mulher quer tirar a mesinha de centro do centro e transferi-la para um canto. Mesmo que você saiba que sentirá falta da mesinha de centro no centro e que, pela lógica, uma mesinha de centro deve ficar de preferência no centro, e não num canto, você aceita calado que ela troque a mesinha de lugar. Por quê? Para não se incomodar. Você sabe que, se for argumentar com sua mulher, ela falará tanto que você quase desmaiará de chatice. O cálculo é simples: vale mais não ter a mesinha de centro no centro do que ser amolado durante 45 minutos sem parar.

Precisamente como aconteceu com Luiz Omar Pinheiro, presidente do Paysandu, no caso da Copa do Centenário. Todo mundo dizendo para que ele colocasse o time na competição. A Federação, a Seel, a imprensa, seus companheiros de diretoria, todos. Luiz Omar queria antecipar as férias do time? Acredito que sim. Mas não agüentou a chateação. Os favoráveis à disputa usaram a tática das mulheres. A da sua mulher, que deslocou a mesinha de centro para o canto. A de Sara, que fez Abraão exilar o filho primogênito. A estratégia milenar e infalível das mulheres para nos dominar, nos jogar ao chão e nos fazer lamber seus pés macios calçados com seus pontiagudos escarpins.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

AS DUAS FACES DA LEI // Uma bala perdida


Nas primeiras cenas em que aparecem lado a lado, como os tiras veteranos que protagonizam As Duas Faces da Lei, Robert De Niro e Al Pacino treinam pontaria e se mostram certeiros. Já o filme, em cartaz nos Moviecom Castanheira e Iguatemi desde o final de semana passado, erra feio o alvo e expõe esses dois gigantes do cinema a um trabalho menor em suas carreiras.

Minha expectativa sobre as As Duas Faces da Lei (Righteous Kill, EUA, 2008) era grande, em especial pela escalação de De Niro e Pacino, que até então só haviam contracenado em Fogo Contra Fogo (1995), ótimo policial assinado por Michael Mann - no clássico O Poderoso Chefão 2 os atores vivem pai e filho, mas em épocas diferentes. Aqui, interpretam detetives de Nova York que trabalham em parceria há mais de 30 anos, conhecidos como Turk (Peru), interpretado por De Niro, e Rooster (Frango), vivido por Al Pacino.

Eles investigam assassinatos cometidos por um serial killer que elimina criminosos impunes e deixa como pista poemas justificando por que estes mereceram ser justiçados à bala. Os corpos vão se empilhando à medida que as evidências apontam que: 1) um policial é o autor das execuções; 2) este policial pode ser um dos parceiros.

Se o enredo - tira durão bancando juiz e carrasco - é manjado, o roteiro de Russell Gewirtz e a direção de John Avnet mostram ser possível piorá-lo. Tanto na narrativa frouxa quanto nos cacoetes visuais, As Duas Faces da Lei assume a aparência desses seriados policiais de segunda linha que transbordam nos canais por assinatura. Avnet foi revelado no melodrama Tomates Verdes Fritos (1991) e assinou também dramas como Íntimo e Pessoal (1996). Sua falta de experiência com tramas de suspense e ação já havia sido demonstrado em 88 Minutos (2007), péssimo triller em tempo real estrelada por Pacino (referência clara ao seriado 24 Horas).

Agora, o diretor atira seus dois excelentes atores em uma série de situações desconexas, às quais tenta costurar com as muletas tradicionais dos realizadores pouco inspirados: narração em off, flashbacks e o gran finale com a reviravolta que diz "não era nada disso que você estava pensando" - clichês que, neste caso, não passam de truques óbvios para sacudir o espectador inevitavelmente sonolento.

Afora o prazer que resta das poucas cenas em que Pacino e De Niro justificam a esperada parceria (parece que eles se deram conta durante as filmagens que o negócio ia dar merda), praticamente na reta final do longa, e dos bons momentos que um e outro consegue ter isoladamente, As Duas Faces da Lei, voltando à analogia televisiva, parece um seriado do qual se acompanha um capítulo esporadicamente: sabemos do que se trata, mas o que vemos, sem saber o que se passou entre um episódio e outro, é confuso demais e interessante de menos para garantir a fidelidade da audiência.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A CASA DA MÃE JOANA // Um vaudeville tupiniquim


A Casa da Mãe Joana (Brasil, 2007), filme de Hugo Carvana em cartaz no Moviecom (Iguatemi e Castanheira), passa como um alegre pesadelo para feministas. Esse filme retrô sugere algo como se ouvíssemos numa mesa de bar vizinha histórias machistas de homens que já foram jovens. A assinatura do filme é a da sensualidade brasileira desejada de uma Juliana Paes - fada masculina em coloridos baby-dolls -, andando pra lá e pra cá.

Esse curioso produto de mercado lembra o que restou da comédia popularesca nacional, com peças avulsas da chanchada, do programa de auditório e de uma "sensibilidade alcoólica" tão cara a uma faixa social burguesa dos homens da boa idade, grupo que abriga Carvana, aos 71 anos.

Carvana - "o Dr. Andrade da novela Três irmãs" – é uma figura memorável no cinema brasileiro. Fez um filme marcante em Vai Trabalhar Vagabundo (1973), onde o malandro carioca ganhou representação definitiva. Fez o repórter Valdomiro Pena na excelente série Plantão de Polícia, na Globo dos 70/80 (porquê não existe em DVD?!), com o mesmo tipo de malemolência anarquista/zona sul/Rio de Janeiro.

Esse tom antigo marcado por toda uma trajetória revela-se presente no seu novo filme e não deixa de ser uma curiosidade observá-lo. Rodado em grande parte em estúdio, há, mesmo assim, um aspecto de "filme" que outros produtos atuais do tipo não parecem atingir, como foi o caso de A Grande Família, o Filme.

Neste, temos um grupo de quatro homens safados que aplicam golpes em mulheres para ganhar dinheiro e conquistar outras mulheres. A filosofia é nunca ter que dar um dia de trabalho que seja, se dar bem sexualmente e beber uísque. Em ordem decrescente de idade, Antônio Pedro, José Wilker, Paulo Betti e Pedro Cardoso integram essa quadrilha. Terão que rever seus dogmas para saldar uma dívida contraída num esquema mulheril que não deu certo.

Os desdobramentos beiram o indescritível, com Betti de prostituto semi-nu para mulheres maduras usando adereços de couro e protagonizando piadas de Viagra. Wilker vira enfermeiro para um comendador e travesti de idade avançada (Agildo Ribeiro de cadeira de rodas e vestido de mulher), enquanto Cardoso fica de caso com a esposa (Malu Mader) de um joalheiro. Como num vaudeville tupiniquim, entra ainda a mãe de Betti (Laura Cardoso), conseguindo aos poucos superar a mera "piada de véia", e a filha de Wilker, uma menina chamada Tainacã (Fernanda Freitas), sempre com um sorridente shortinho, e, às vezes, sem.

Já o mais velho Pedro tenta incorporar a alma feminina brasileira ao virar uma falsa colunista mulher para algum jornal. Sua musa é Juliana Paes, tratada pelo filme como uma aparição através de pirlimpimpins digitais alegremente toscos. A capacidade de Paes sorrir e fazer biquinho impressiona. O elemento macumba sela a bagaceira como indiscutivelmente brasileira. Arlete Sales, Miéle, Beth Goulart e Cláudio Marzo também completam o elenco, ou o quadro.

TODO MUNDO NU // Ou restaure-se a moralidade


O ator Pedro Cardoso levantou uma boa polêmica. Teatro, cinema e televisão estão apelando demais para a nudez?

Pedro Cardoso disse: "Tirar a roupa não é exigência do ofício do ator e sim da indústria pornográfica".

O que eu acho sobre o assunto:
1) A nudez deveria ser algo normal.
2) Só que depende de onde e de quando.
3) Mais do que tudo, depende de quem.

O terceiro ponto é o mais importante. Televisão, cinema e publicidade usam o nu de forma distorcida. Na maioria das vezes, os corpos expostos são de homens e mulheres jovens e bonitos. Nada contra. Aliás, não vou ser hipócrita de dizer que não aprecio os ensaios sensuais das belas "modelos" de alguns sites e revistas. Só que esta realidade cria um padrão estético irreal, que gera angústia e frustração.

Por que o corpo de um velho é feio? Por que a celulite é feia? Por que a passagem do tempo é antiestética? Por que as pessoas aceitam isso?

Stanislaw Ponte Preta cunhou a frase que ficou famosa: "Ou nos locupletamos todos, os restaure-se a moralidade". No caso da nudez, eu diria: "Ou nos pelamos todos, ou restaure-se a moralidade".

Gostaria de saber a sua opinião.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O CAMINHO DO MEIO // Lao-tsé tinha razão


Havia um tempo em que as redações eram comunistas. Jornalista tinha que ser de esquerda, ou não era jornalista; era preposto patronal. Aí o comunismo acabou.

Mais recentemente as redações tornaram-se neoliberais. Jornalista moderno tinha que defender a liberdade do mercado, ou não passava de um caquético ultrapassado. E agora o neoliberalismo acabou!

Sacanagem com a categoria.

Esse é o problema com a realidade: desmonta as teorias mais brilhantes. Todos aqueles debates entre esquerdistas e liberais, as discussões de bar e bancadas de TV, os artigos tão bem redigidos, os pontos de vista expostos com tanta clareza e objetividade - tudo desperdício de talento e energia.

Hoje em dia, os capitalistas mais devotados defendem a estatização. Mas eles não querem que o longo braço do Estado se estenda na direção da saúde, da educação ou da segurança: querem a estatização do dinheiro! Por Deus! Alguns países estão planejando nacionalizar... os bancos!

Aí está: viver é contraditório.

Fico lendo todas essas notícias sobre os bilhões que vão para o sistema financeiro a fim de estancar a crise. Os Estados Unidos vão gastar US$ 700 bilhões, a Europa outros tantos bilhões de euros, até o Brasil lançará mão de seus bilhões guardados com tanto esmero no Banco Central.

Antes, nunca havia bilhões para nada. Os professores ganham mal, os policiais ganham mal, as pessoas ficam doentes e não têm dinheiro para ir ao médico ou comprar remédio. Ninguém jamais teve a idéia de dar alguns bilhões para essa gente toda.

Agora os bilhões caem em cascatas. Por quê? Porque, segundo dizem, o mercado está em pânico. E os policiais? E os professores? E os doentes tantos? Eles não estão em pânico?

Eu estou em pânico. Quero o meu bilhão.

Há 25 séculos havia no Oriente Longínquo um homem chamado Lao-tsé, o "Homem Velho". Lao-tsé foi o maior filósofo da China. Maior até do que Confúcio. O próprio Confúcio ficou impressionadíssimo quando o conheceu. Comparou-o a "um dragão subindo aos céus, navegando no vento e nas nuvens" - na China, acredite, comparar alguém a um dragão não é ofensa. Lao-tsé, por sua vez, não ficou nada impressionado ao conhecer Confúcio. Não lhe deu a menor importância. Achou-o, inclusive, meio aborrecido.

Esse Lao-tsé foi o fundador do taoísmo, a principal religião chinesa, junto com o budismo. Tao, em chinês, significa "caminho". O livro que Lao-tsé escreveu é o Tao Te Ching: o "caminho do meio". Quer dizer: há 2.500 anos o velho Homem Velho já sabia qual era a solução. Estado absoluto? Não. Nenhum Estado? Também não. O caminho do meio é a saída.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O PREFEITO DOS RICOS // Nesse eu votaria

Queria um candidato a prefeito que defendesse os mais favorecidos. Um que pensasse nos aquinhoados, nos bem de vida. Na classe A. Sem descuidar da saúde e da educação, óbvio, mas com o olhar direcionado para o luxo e as amenidades da vida. Seria o meu candidato.

Por quê? Por causa, por exemplo, de um naco de Belém que descobri, dia desses. Uma prainha do Outeiro. Nem desconfiava da sua existência. Normal - nós, que moramos do outro lado da cidade, nos diziam que nesta cidade tem praia, mas certeza certeza só tivemos depois de, sei lá, passar dos 18 anos.

Então, lá estava eu, na pequena praia. Que lugar lindo e nojento. Lindo por natureza, nojento por abandono. Ainda que sua praça pareça atendida pela prefeitura, a grama cortada e tudo mais, o lixo se acumula na areia e, como não há nenhum comércio nas imediações, o local torna-se ermo e inseguro.

Fiquei imaginando se Paris possuísse um recanto bucólico como aquele. No que a prefeitura de Paris faria com o lugar. Como o embelezaria, como chamaria a iniciativa privada para erguer por perto um café, um restaurante, e as pessoas almoçariam olhando embevecidas para o rio. Paris faria daquela curva da cidade um lugar atraente para os mais favorecidos, que trariam segurança e empregos. E beneficiariam os menos favorecidos.

Algum gaiato argumentaria que não se pode comparar Belém com Paris. Por que não? Eu aqui, como os menos favorecidos, quero o melhor. Não quero o feio, o sujo, o precário. Eu e os menos favorecidos, e os mais favorecidos também, todos queremos o belo, o limpo, o bem-arrumado. Mas alguém disse para os candidatos a prefeito, e para alguns ex-prefeitos, que o pobre gosta de conviver com a pobreza. E eles acreditaram.

Quando a prefeitura discute um projeto, digamos o Janelas Para o Rio, logo vem um defendendo que o lugar seja "para toda a população". Isso significa a instalação de troços como "shoppings populares", o mesmo que um monte de camelôs juntos. Nada contra os camelôs, eles têm de ter o seu espaço. Não na orla da cidade. A beira do rio há que ser da nata, da classe A. Os ricos, viva eles!

Se tudo ali for bonito e arrumado, ali estará o dinheiro. E os menos favorecidos terão onde trabalhar e onde flanar, que eles flanam. Os pobres de Paris decerto não freqüentam os restaurantes de três estrelas do Guia Michelin do Boulevard Saint-Germain, mas eles usufruem das belezas do Boulevard Saint-Germain, e de graça. Difícil crer, mas os pobres também gostam de coisas boas. Por isso, queria um candidato que não tivesse preconceito contra o dinheiro. Um candidato que defendesse o luxo. A nata. Os ricos. Viva eles!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

SOZINHO NO CINEMA // Numa noite de sábado


Ir ao cinema sozinho. Durante a semana, nenhum problema. Chego de mão no bolso, tomo um expresso ou um ovomaltine antes, dou a chamada passada d'olhos... peraí, um apóstrofo, estava ansioso para usar um no blog. Vou até repetir: dou uma passada d'olhos no último Ítalo Calvino que comprei ali na livraria e, enfim, entro na sessão.

Ao fim do filme, saio tranqüilo, vou para casa pensando na história, talvez encontre o Eduardo e o meu irmão Charle para uma pizza e talicoisa.

O drama é o sábado à noite. Uma vez tentei ir ao cinema sozinho num sábado à noite. Cheguei lá e, puxa, todos aqueles casais. Eles ficaram me olhando:

— Olha aquele cara sozinho no cinema num sábado à noite.

Tenho certeza que apontavam para mim. Que cochichavam. Alguns riam. Eu, um cara sozinho, absolutamente sozinho, uma aberração. O que havia de errado comigo, que não estava de namorada? Será que ela havia me dado o bolo, coitado de mim? Será que nenhuma mulher dessa cidade fervente de mulheres solteiras, descasadas, viúvas, sequiosas de companhia, será que nenhuma delas queria ir comigo ao cinema justamente num sábado à noite???

Era o que comentavam. Sei disso! Comprei meu ingresso e me aprumei. Queria salvar minha dignidade. Tentei aparafusar no rosto uma expressão satisfeita, de quem estava sozinho por preferência, entendem? Uma opção. Ensaiei até um meio sorriso. Se estivesse com um celular faria de conta que estava conversando com uma moça. Falaria no tom que habitualmente as pessoas usam ao celular. Aos berros:

— Alô? Ah, oi, Fê. Estou entrando no cinema. Por que não te convidei? Bem, Fê, tu sabes que gosto de ir ao cinema sozinho. A solidão também é importante, Fê. Lembra quando tu ganhaste o Garota Verão e as pessoas não te deixavam em paz? Pois é, Fê. A solidão às vezes é um bálsamo. Depois? Está certo, depois do filme nos encontramos, querida. O quê? Hein? Ah, pode ser aquela calcinha preta de rendinha que tu usaste a última vez...

Mas tinha esquecido o celular no carro. O único recurso era a linguagem não-verbal. Como se parece uma pessoa completamente satisfeita por estar sozinha no cinema num sábado à noite? Já sei: sobrancelha esquerda levantada, olhar sonhador de quem está esperando uma noite inefável, talvez um assobiozinho. Sim, um assobio pega bem.

Foi assim que entrei na sala. O filme começou. O mundo ficou sem importância por duas horas. Esqueci de tudo, até que estava sozinho no cinema num sábado à noite. Mas, quando a ação acabou, as luzes se acenderam, como sempre se acendem.

Os casais todos se levantaram, largaram os copos e sacos de pipoca nas poltronas, apanharam suas bolsas... Mas antes que reparassem em mim, saí pisando firme, sem olhar para os lados. Não queria encontrar ninguém conhecido. Deus me livre pegar a fama de quem vai sozinho ao cinema num sábado à noite.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

ROLLING STONE // Livro e Reality Show


Criada em 1967, em San Francisco, a Rolling Stone (EUA) é um ícone da cultura pop mundial e uma das marcas da revista (que ganhou edição brasileira desde outubro de 2006) ao longo do tempo são as suas entrevistas centrais. Nelas, grandes personalidades do rock, do cinema, da política e da literatura abrem o jogo. Agora, pela primeira vez, 40 das melhores entrevistas da história da publicação (tiragem mensal: 1, 4 milhão) foram reunidas em um único volume.

Rolling Stone - As melhores entrevistas da revista Rolling Stone (Larousse do Brasil, 448 páginas/R$49,90) traz depoimentos de John Lennon, Mick Jagger, Ray Charles, Francis Ford Coppola, Bill Clinton, Bono, Kurt Cobain, Bob Dylan, Pete Townshend, Jerry Garcia, Neil Young, Bruce Springsteen, Spike Lee, Clint Eastwood, Truman Capote, Tom Wolfe e Joni Mitchell, entre outros.

Veja essa pérola Kurt Cobain sobre Lennon & McCartney: "Oh, sim. John Lennon era meu Beatle favorito. Não sei quem escreveu quais partes das canções, mas Paul McCartney me deixa constrangido. Lennon obviamente era perturbado (risos). E eu me identificava com isso".

Parte do clima da Redação da revista pode ser visto todas as quintas-feiras, às 22h15, no Multishow (ORM Cabo/Sky), no reality show Um estágio na Rolling Stone. Logo no início, o lendário fundador e editor da RS, Jann Wenner, telefona para os seis escolhidos: cinco focas (jornalistas iniciantes) dos EUA e um da Austrália.

Durante dois meses, eles trabalham na revista, em Nova York, disputando um contrato de um ano. O perfil da turma é variado: uma editora de uma publicação de hip hop, um apaixonado por indie rock, um cara iniciplinado, porém brilhante, que começou a escrever quando morava num reformatório, uma riponga fã de rock clássico, uma poeta e militante lésbica, etc.

Muito legal observar que certos vícios e modismos da geração atual, que está acabando de sair das universidades com o diplominha de jornalista na mochila, aparecem em qualquer redação do mundo. Alguns já chegam achando que sabem de tudo e querendo escolher sobre o que vão escrever. Outros, apesar de talentosos escritores, não tomam cuidado em pesquisar sobre os artistas entrevistas e quebram a cara no momento de fechar o texto.

Foquices à parte, é uma meia-hora bem divertida.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

DEUS ERROU


- Eu só acreditaria num Deus que soubesse dançar. (Nietzsche/foto)


- Somos muito injustos com Deus. Não lhe permitimos nem pecar. (Nietzsche)


- Se Deus existe, por que Ele não me dá um sinal de sua existência? Como, por exemplo, abrir uma bela conta em meu nome num banco suíço. (Woody Allen)


- Por que Deus não fala comigo? Se ele pelo menos tossisse! (Woody Allen)


- Todo homem pensa que Deus está do seu lado. Os ricos e os poderosos têm certeza. (Jean Anouilh)


- Deus me perdoará. É a sua profissão. (Heinrich Heine)


- Deus é amor, mas exija isto por escrito. (Gipsy Rose Lee)


- Nem todos os filhos de Deus são bonitos. A maioria é, quando muito, apresentável. (Fran Lebowitz)


- Se Deus não existisse, teria sido preciso inventá-lo. (Voltaire)


- Se Deus fosse condenado a levar a vida que infligiu aos homens, já teria se matado. (Alexandre Dumas)


- Deus está vivo - só não quer se envolver. (Anônimo)


- Deus está morto. Mas não se preocupe - a Virgem Maria está esperando outro. (Anônimo)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

TORCEDOR CHATO // Na Boca do Túnel

Através do ex-zagueiro e capitão do Paysandu, Gino, recebo o precioso "Na Boca do Túnel", com direito a dedicatória e tudo. O autor é o potiguar Maeterlinck Rêgo Mendes, que conta uma série de casos pitorescos presenciados por ele mesmo, como médico do América de Natal, ou outros que chegaram ao seu conhecimento, através do depoimento de pessoas com quem convive no mundo da bola.


São histórias curiosas, como uma contada ao autor - a quem peço permissão para levar aos leitores deste pedaço - pelo próprio personagem, o treinador Givanildo Oliveira, atualmente comandando o Vila Nova-GO. Givanildo, como se sabe, também dirigiu o América potiguar e conviveu com Maeterlinck.

O fato se passou numa das ocasiões em que Giva esteve à frente da equipe do Sport Recife-PE. Era um jogo entre o Rubro-Negro e o Central, na Ilha do Retiro, em dia de pouco público. Nesses jogos, qualquer grito de torcedor repercute, pois com as arquibancadas vazias, a voz do gritante se espalha facilmente.

O Sport, como sempre, era favorito, principalmente jogando em seu reduto. Só que estava encontrando muita dificuldade para abrir o placar. A torcida, como não poderia deixar de ser, mostrava-se insatisfeita, vaiando o time e dirigindo palavras pouco amáveis ao treinador. Todavia, havia um torcedor, desses ingrezientos, que resolveu pegar no pé do técnico com tudo a que tinha direito. A todo momento, Givanildo ouvia xingamentos partidos do cidadão, mais ainda depois que o primeiro tempo encerrou-se, com o placar ostentando um incômodo – para os rubro-negros - 0 a 0.

No segundo tempo, o Central ainda resistiu por algum tempo, mas o Sport foi minando suas forças devagarinho. Até que o time da Ilha faz 1 a 0. Givanildo respira aliviado, achando que o cri-cri vai deixá-lo em paz. Ledo engano, pois o homem continua achando que o Sport está jogando errado e quer sempre mais. Algum tempo depois, o Sport faz o segundo. Agora não é possível que esse cara não me deixe em paz, pensou Givanildo. Foi apenas um sonho, porque o peitica permaneceu sem lhe dar tréguas. O Sport faz 3 a 0 e não se passa muito tempo para o juiz encerrar a partida.

Quando vai se encaminhando para o túnel, Givanildo fixa o olhar no seu algoz, como se estivesse desabafando intimamente, naquela de "xinga agora, seu fdp". O cidadão era mesmo de fé e não perdeu o rebolado ao sentir que o técnico pairava o olhar em si.

"Não se preocupe não, Givanildo. Domingo eu estou aqui de novo."
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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.