
Agora vou explicar por que e como as mulheres mandam no mundo. Vou explicar por que e como as mulheres pisam em nossos pescoços e nos jogam ao chão e nos fazem beijar seus pés macios calçados com delicados e pontiagudos escarpins.
Sempre foi assim, em qualquer tempo, e qualquer homem, por maior que tenha sido ou seja, um dia sentiu os efeitos do poder da mulher. E sofreu.
Pegue-se um dos homens mais influentes da história: Abraão, o patriarca das três grandes religiões monoteístas, o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Abraão não ficou famoso só depois de morto, como tantos personagens da História. Quando vivia, há 3900 anos, já era um influente chefe de clã, rico criador de caprinos e ovinos, e, o principal, muito amigo do Senhor em pessoa, se é que se pode dizer que o Senhor esteja enquadrado nesta categoria de pessoa.
O fato é que Abraão conversava com Jeová até com alguma intimidade. E Deus gostava tanto dele que lhe fazia promessas. Abraão teria propriedades sem conta e seria o pai de muitos povos, "tão numerosos quanto o pó sobre a terra". No entanto, Sara, a mulher de Abraão, era estéril. Assim sendo, sem filhos, de que maneira ele formaria essa prometida posteridade? A solução foi dada pela própria Sara: que Abraão tomasse sua escrava egípcia, chamada Agar, e fizesse nela um filho. Abraão adorou a idéia e deu início aos trabalhos. Que foram fecundos. Mesmo: nasceu de Agar um menino em quem Abraão pôs o nome de Ismael, que significa "Deus escuta".
Tudo ia muito bem, até que um dia Sara chamou Abraão e disse que Agar andava rindo dela à socapa, que é o mesmo que rir à sorrelfa. Tenho minhas dúvidas sobre essa parte da história. Será que Agar estava mesmo gozando de Sara ou Sara ficou com ciúme da fertilidade da escrava? Enfim. O certo é que Sara ficou agastada com a situação, mas não podia fazer nada, já que o filho era importante para Abraão fundar sua dinastia.
Um dia, porém, apareceram para Sara e Abraão três estrangeiros que não eram outros senão três anjos muito graduados lá do Céu: Gabriel, Mirael e Rafael. Eles avisaram a Sara que em um ano ela teria um filho nos braços. Abraão ficou faceiro com a notícia, mas Sara riu: ela não apenas era estéril, como estava com 89 anos de idade, enquanto Abraão tinha 99! Bem, Charles Chaplin teve um filho aos 82 anos e Oscar Niemeyer, dizem, ainda é ativo e viril aos 100! Só que hoje existe Viagra e gemada, o que não havia 40 séculos atrás. Logo, era compreensível a risada de Sara. O problema é que os anjos do Senhor não fazem gosto de que se duvide deles. Repreenderam Sara e ordenaram que o menino se chamasse Isaac. Em hebraico, "Gargalhada".
Com o nascimento de Isaac, seria de se esperar que os desentendimentos entre Sara e Agar terminassem, certo? Errado. A rivalidade entre as duas prosseguiu viva e pulsante como a da Dupla Re-Pa. Sara vivia apoquentando Abraão para que ele se livrasse de Agar. Falava tanto, mas tanto, que Abraão não se agüentou: deu uma porção de água e de pão para Agar e Ismael e os despachou para o deserto. Os dois quase morreram de sede, mas a Providência, providencialmente, os salvou fazendo aparecer um veio d´água no meio da areia. Ismael cresceu e se tornou o pai dos povos árabes, assim como seu meio-irmão Isaac é o pai dos israelitas. Ou seja: seus descendentes sustentaram pela poeira dos séculos a rivalidade estabelecida por suas mães. A rivalidade Re-Pa ainda não chegou a este ponto, mas, se continuar no ritmo que anda, logo teremos atentados nas arquibancadas.
Porém, não era da rivalidade que eu ia falar, e sim do poder das mulheres. Abraão era o patriarca, era poderoso e, aos cem anos de idade, devia ser bastante maduro. Mas não suportou a pressão de Sara e mandou o próprio filho para o deserto! Aí está o cerne do poder feminino: a chatice. Você gosta da mesinha de centro que há na sua sala. Você coloca a cerveja sobre aquela mesinha para ver o jogo e o controle remoto também e volta e meia um prato com salame e queijo, tudo muito legal. Mas a sua mulher quer tirar a mesinha de centro do centro e transferi-la para um canto. Mesmo que você saiba que sentirá falta da mesinha de centro no centro e que, pela lógica, uma mesinha de centro deve ficar de preferência no centro, e não num canto, você aceita calado que ela troque a mesinha de lugar. Por quê? Para não se incomodar. Você sabe que, se for argumentar com sua mulher, ela falará tanto que você quase desmaiará de chatice. O cálculo é simples: vale mais não ter a mesinha de centro no centro do que ser amolado durante 45 minutos sem parar.
Precisamente como aconteceu com Luiz Omar Pinheiro, presidente do Paysandu, no caso da Copa do Centenário. Todo mundo dizendo para que ele colocasse o time na competição. A Federação, a Seel, a imprensa, seus companheiros de diretoria, todos. Luiz Omar queria antecipar as férias do time? Acredito que sim. Mas não agüentou a chateação. Os favoráveis à disputa usaram a tática das mulheres. A da sua mulher, que deslocou a mesinha de centro para o canto. A de Sara, que fez Abraão exilar o filho primogênito. A estratégia milenar e infalível das mulheres para nos dominar, nos jogar ao chão e nos fazer lamber seus pés macios calçados com seus pontiagudos escarpins.