
Às vezes, tudo o que um homem precisa é de um bom copo de cerveja gelada e encorpada. Não uma dessas cervejas desmaiadas, aquosas e tristes. Falo de uma cerveja realmente encorpada, de um dourado escuro como o das loiras de Salinas em julho, com a espuma do colarinho com dois dedos de espessura, um copo de cerveja que, quando lhe é servido, você o ergue com solenidade do tampo da mesa e olha sorrindo para ele e ainda sorrindo o conduz até os lábios e fecha os olhos ao sorver o primeiro gole e sente o líquido denso escorrendo-lhe garganta abaixo e fazendo sua alma arrepiar e todo o seu ser se alegra e você exclama:
– Aaaaaaaah...
E pergunta para o amigo:
– Que tal uma isca de peixe ou um charque frito com macaxeira?
Realmente, às vezes, tudo o que um homem precisa é de um bom copo de cerveja gelada e encorpada. Com os amigos junto, claro. Pode ser numa praia de Salinas, admirando as mulheres de coxas grossas e biquínis curtos; pode ser no bar da Laura, esperando o charque com macaxeira perfeito preparado pela Dona Tereza; pode ser no bar do Belga, em Outeiro, mordiscando um bolinho de piracuí; pode ser na Walda, experimentando um sanduíche de filé com queijo do marajó. Tanto faz. Mas os amigos, eles sempre têm de estar por perto.
Amigos que não fiquem ao celular, bem entendido.
O Osmar e o Professor Pardal têm mania de teclar no iphone, no blackbarry ou seja lá o que for aquilo que monopoliza a atenção deles enquanto estamos no bar. Irritante. Com quem você quer conversar? Com as pessoas que estão ali, na sua frente, ao vivo, trinchando uma batatinha frita, ou com as que estão no MSN? Por favor! Então vá sair com esses seus amigos virtuais!
Não, eu não preciso estar on line o dia todo, não preciso de MSN no celular, não preciso nem de celular o tempo inteiro, não preciso me informar mais rápido do que os outros sobre tudo. Não. O twitter faz com que o planeta saiba de uma notícia em poucos minutos? E daí? Posso muito bem passar sem novidades durante o tempo em que estou sentado à mesa de um bar com meus amigos. Não preciso de novidades a todo momento, não mesmo. O que eu preciso, muitas vezes, é apenas um bom copo de cerveja gelada e encorpada, sim senhor.
Até porque não sou jogador de futebol.
Se fosse jogador de futebol, o que aconteceria? Eu sentaria à mesa do bar com meus amigos e logo apareceria um gaiato com seu maldito celular e me fotografaria sorvendo um grosso gole de cerveja gelada e encorpada e colocaria a foto no twitter ou no orkut ou sabe-se lá em que maldito escaninho da internet e essa foto circularia entre os malditos torcedores talibãs e os torcedores me chamariam de bêbado e os dirigentes do clube me puniriam. Essa é a vida de um jogador de futebol. Um rapaz de vinte e poucos anos, com o bolso formigando de euros, com uma saúde de cavalo de prado, cercado de mulheres esguias e fogosas e que dançam com os bracinhos levantados, mas que não pode sentar a uma mesa de bar e pedir um copo de cerveja gelada e encorpada. Eu posso. Que bom que não sou jogador de futebol.
