terça-feira, 30 de setembro de 2008

A DITADURA DO OLHAR // Minority Report

Cada vez mais tem-se a impressão de que estamos mesmo vivendo uma época marcante em relação às imagens fabricadas que temos para olhar no mundo. O cinema talvez seja a luneta mais relevante desse olhar moderno e tem traduzido tudo isso numa série de filmes que mostram-se reflexivos sobre a imagem. Nos últimos anos, Dançando no Escuro (Dancer in the Dark, Von Trier), Amnésia (Memento, Nolan), Time Code (Figgis), Elogio ao Amor (Elóge D'Amour, Godard) e Janela da Alma (Jardim e Carvalho), para citar alguns, têm estimulado discussões interessantes sobre ver e enxergar, pontos de vista diferentes e formatos de ver. Minority Report - A Nova Lei (EUA, 2002) entra para a discussão ele próprio com uma tempestade de imagens, ao mesmo tempo em que homenageia os olhos, o globo ocular mesmo, e o que ele tem visto, ou pensa ter visto.


Minority Report é também um genuíno exemplar da ficção científica, realizado com todo o porte, esmero e excesso que geralmente associamos a Steven Spielberg, diretor que frequenta com desenvoltura o gênero (Contatos Imediatos..., E.T., Inteligência Artificial).

Com perfeita utilização de tecnologia, o filme parece discutir um tanto ingenuamente a imagem numa sólida estrutura de ação, abrindo uma janela para o mundo audio-visual do futuro e cuja base nós já podemos enxergar hoje mesmo, ao nosso redor.

Dependendo do seu interesse por ação e por essa janela aberta pelo filme, Minority Report poderá sobreviver aos habituais ataques de estupidez emocional que mancham praticamente todos os trabalhos desse talentoso malabarista da imagem e do som, em especial rumo às suas conclusões. Para mim, é realmente doloroso estar sentado na cadeira gostando do filme e, de repente, perceber que a tela começa a derreter com a visão repentinamente míope de Spielberg. De qualquer forma, dependendo do valor total do filme, a má impressão geralmente encolhe, como no caso de Inteligência Artificial e o seu desnecessário happy end.

Ambientado em Washington DC, 2054, temos uma divisão especial da polícia - Pré-Crimes - que cuida de assassinatos que ainda não ocorreram. Trabalham com videntes (os pre-cogs), que imersos num líquido transmissor de energia cerebral, passam 24 horas por dia sonhando, aparentemente, com a MTV. Essas imagens fragmentadas e estéticas (produzidas pelo Imaginary Forces, responsável pela abertura de Seven) são clipes sem música de assassinatos futuros.

Spielberg e equipe devem ter discutido muito a estética dessas imagens, particularmente pelo fato de não terem sido captadas por uma câmera, afinal de contas, são visões geradas por um cérebro. Qual o formato de uma visão, ou de uma memória? Pessoalmente, acho que elas não têm/ou teriam a aparência de um clipe do U2. Spielberg e equipe parecem pensar diferente e, pelo que já ouvi, muita gente gostou. Bem, cada um sonha como pode.

A energia cerebral dos pre-cogs é transformada em imagens-documento analisadas por uma equipe de policiais. À frente da Pré-Crimes está o detetive John Anderton (Tom Cruise), que ficará chocado ao ver nos monitores mais um videoclipe violento no qual ele mesmo é o assassino. Anderton precisará ser detido ao matar, em alguns dias, alguém que ele nem conhece.

Inicialmente, Anderton é personagem duro, amargurado, não exatamente um 'bad boy', mas como num filme de detetive dos anos 70. Usuário de drogas, é traumatizado pela perda do filho e dedica sua vida à identificação de futuros assassinos. Cruise empresta a sua persona a cenas de ação montadas por Spielberg como só esse mestre do entretenimento sabe fazer (as aranhas, os jatos propulsores, os automóveis).

Como de hábito, vale registrar, Spielberg é incapaz de realmente trabalhar com um personagem duro, e nisso ele mostra-se um hipócrita. Ele implode seu homem falho e sombrio (como ocorreu com Schindler, em A Lista de Schindler) numa conclusão cor-de-rosa que nega praticamente todo o clima do que foi apresentado antes.

Bem antes disso, Anderton foge dos colegas, tendo literalmente que 'mudar o seu olhar' (olhos) para evitar o sistema padrão de identificação (scan das retinas), infiltrar a Pré-Crimes e sequestrar Agatha (Samantha Morton), a mais talentosa do trio de videntes. Com ela, irá decifrar o interessante mistério das imagens de mortes passadas e futuras que pode envolver seu inimigo interno da corporação, Danny Witwer (Colin Farrell), supervisionado pela figura paterna do chefe Lamas Burgess (Max Von Sydow).

Diferente do excelente Inteligência Artificial (2001), que tinha na pausa dos sentimentos parte importante do seu eixo, Minority Report apresenta diferentes níveis de interesse, como um moderno produto do marketing. É filme de ação legal e tem verniz intelectual para uma boa discussão.

Merece também uma colocação no domínio da ficção científica ao nos apresentar elementos de tecnologia curiosamente plausíveis que poderão fazer parte da rotina no futuro, quando jornais serão misto de papel com internet e a publicidade atingirá, finalmente, um grau de pesadelo impensável ao perseguir seu público-vítima ao redor da cidade com mensagens irritantemente personalizadas. Que horror!

Adaptado do conto The Minority Report (1953), de Philip K. Dick, cujo livro Do Androids Dream of Electric Sheep? também originou Blade Runner - O Caçador de Andróides (1982), de Ridley Scott, Spielberg fez, ao que aparenta, um filme sobre a tão hoje discutida imagem, suas verdades e mentiras. Como em Blade Runner, a imagem é carregada de pistas, num jogo sofisticado de 'edição-não-linear' que poderá chamar a atenção de profissionais do áudio-visual, de editores a realizadores ou manipuladores visuais das mais variadas mídias.


Anderton edita suas verdades como um maestro nos monitores da Pré-Crimes. Em casa, utiliza não apenas drogas químico-sintéticas, mas também a 'droga' da imagem emocional de arquivo com o filho que perdeu. Ele procura em fotografias a verdade sobre o seu desaparecimento, e vê nas fotos mais um documento. A imagem mantém o homem submisso e confuso, e Minority Report repassa a mesma sensação para o espectador. Isso é muito bom.

Spielberg, um dos mais hábeis manipuladores do olhar ditatorial filmado ("olhe isso, veja aquilo"), realiza também uma verdadeira série comemorativa de imagens que celebram os olhos e o quão importantes eles são hoje. De uma tesoura cortando papel e furando os olhos de uma figura impressa a uma busca desesperada por dois olhos que correm pelo chão em direção a um ralo, à própria idéia de que está no seu olho a prova de quem você realmente é.

Por outro lado, se em Blade Runner a imagem era utilizada como prova de memória emocional por seres que precisavam acreditar no que viam, em Minority Report a imagem é prova da "verdade", conceito já não mais inocente para nós do século 20 já há muitos anos. Talvez o fato de a imagem ser ainda forte e irrefutável (vide o 11 de setembro) garanta o sentido do filme. Mesmo assim, ele parece fazer enorme barulho durante 144 minutos para chegar à conclusão de que essa imagem é digna da nossa desconfiança. E isso, todos nós já sabíamos. Esperamos que eles, do futuro, também saibam.

A DITADURA DO OLHAR // Déjà Vu

Por algum motivo engraçado, há uma associação direta de diversão com o absurdo no cinema, especialmente no cinema do entretenimento. Você senta na cadeira, começa a ver o filme e, aos poucos, vai ficando boquiaberto com os desdobramentos propostos pelo roteiro, como ocorre no filme Déjà Vu (EUA, 2006), do inglês Tony Scott, o cineasta burro de carga do cinemão, irmão de Ridley Scott e que já ganhou muito dinheiro com coisas como Top Gun (1986), Maré Vermelha (1995) e Inimigo do Estado (1998). Com esses filmes, Scott (Tony) deu má fama a cenas hiper-cortadas e ambientes artificialmente esfumaçados. Em Déja Vu, onde esse estilo revela-se relativamente discreto, tudo começa com uma bomba, para depois entrarmos numa inesperada trama "Hã???!!! que faz desse produto algo de insanamente estapafúrdio", você deve estar se perguntando.


Talvez o meu espanto tenha vindo do meu problema de tentar não saber muita coisa sobre filmes de ação que alugo para assistir no final de semana, a não ser o básico necessário. E Déja Vu parecia mais um thriller de investigação com ecos do 11 de setembro quando, na verdade, há uma trama tradicional de ficção científica totalmente inesperada metida ali no meio.

Para dar uma idéia da bomba que explode no início de Déjà vu, vale saber que o jornal The New York Times publicou uma matéria especial meses antes da estréia no cinema estritamente sobre a tal explosão, sobre como foi feita e filmada, alimentada à base de gasolina a bordo de um ferry boat, em Nova Orleans. Vendo o filme, não nos pareceu uma explosão particularmente memorável, especialmente sendo esta mais uma produção do super produtor Jerry Bruckenheimer, perito em demolições tipo Armagedon (1998), Pearl Harbor (2001) ou Piratas do Caribe (2004).

A explosão - incidente que irá movimentar o filme - é preparada por Scott com todas aquelas imagens das futuras vítimas (marinheiros, mulheres e crianças) felizes, sorrindo e saltitantes sob o sol, e que irão se transformar em vítimas pelo super CABUM! que vem logo a seguir. Scott preferiu seguir a escola que gosta de avisar o que vai acontecer, com impacto diferente de, por exemplo, a explosão que abre Filhos da Esperança, de Alfonso Cuaron, onde passa-se uma sensação realista parecida com a que testemunhas de uma explosão inesperada devem ter. Nos dois filmes, temos atos terroristas. Em Déja Vu, cita-se claramente o atentado de Oklahoma, em 1995, mas, curiosamente, nada em relação ao 11 de setembro.

Depois da explosão, entra o super brilhante investigador de Denzel Washington, que com os olhos, um saquinho plástico e uma caneta, pula quarteirões de investigação na frente do FBI. O filme, aos poucos, vai ganhando interesse, começando pelo encontro inusitado do investigador com o seu interesse romântico, uma garota morta a ele apresentada numa mesa de necrotério (Paula Patton, que lembra muito Halle Berry).

Engatando a sétima marcha, Déjà Vu nos leva a um laboratório de algum serviço de inteligência onde nerds diante de telas LCD mostram imagens de quatro dias atrás, e essas imagens parecem estranhamente material bruto do próprio filme, com direito a gruas, tomadas aéreas e Steadicam. Somos informados que, através de alguma teoria de relatividade creditada a Einstein, é possível abrir uma janela para o passado, e em alta definição.

sábado, 27 de setembro de 2008

Os Desafinados

A Bossa Nova desafinada de Walter Lima Jr



O cineasta Walter Lima Jr possui, em sua carreira, filmes que encontram facilmente espaço na memória afetiva do cinema brasileiro. E talvez seja suficiente citar apenas um deles, o muito especial A Lira do Delírio (1978). Seu marco inicial, Menino de Engenho (1965), e um mais recente, A Ostra e o Vento (1997), ilustram a coerência de uma trajetória que percorre mais de 40 anos. Isso nos leva ao seu mais recente esforço, Os Desafinados (2008), uma grande decepção.

Em cartaz no Moviecom Castanheira,essa maçaroca indigesta de clichês revela-se, terminada a sessão, um mistério. Problemas observados com freqüência na produção brasileira como o do cineasta que filma aquilo (ou aquele) que não conhece, resultando em notas falsas na forma de cinema e visão de mundo, não deveriam ser um problema nesse aqui.

A associação pessoal de Walter Lima Jr (também roteirista) com o material é clara. Todas as resenhas que li antes do lançamento do filme reforçavam isso, confirmando que seus anos de formação no Rio de Janeiro testemunharam o nascimento da Bossa Nova e de toda aquela geração. De fato, ele foi parte disso. O personagem de Selton Mello, um cineasta, tem o corte claro de um alter ego do próprio diretor. Mesmo assim, tudo soa tão falso, como se o filme tivesse sido dirigido à distância, por telefone – ou pelo msn.

Alternando passagens no presente e no passado (anos 60), Os Desafinados choca por fazer jus ao próprio título. O lugar comum do trocadilho apenas reflete o lugar comum do todo, que é composto por uma seqüência frustrante de situações subdesenvolvidas nas longas duas horas e dez minutos de projeção. É um filme cuja abertura nos mostra ensolaradas paisagens de cartão postal do Rio ao som da bossa nova.

Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Ângelo Paes Leme), PC (André Moraes) e Geraldo (Jair Oliveira) são o quarteto titular de músicos brasileiros que vão tentar a sorte em Nova York. Joaquim deixa a esposa grávida (Alessandra Negrini) e o grupo ganha a companhia de Dico, que quer comprar uma câmera de cinema nos EUA.

Em Nova York, Dico compra a pesada câmera 35mm, que o filme insinua ter som (câmeras de cinema são mudas). Para deixar claro que Dico é o cineasta do grupo, ele é visto com a câmera no braço em inúmeras cenas, como uma proto-handycam.

Joaquim conhece Glória (Cláudia Abreu) numa cena constrangedora no Central Park (ela toca flauta e ele vem de violão). Glória é cantora e começam um affair que, como tudo no filme, registra mais como cena filmada do que pelo sentimento de romance junto ao espectador. Poucas vezes um casal andando numa cidade à noite e se conhecendo foi tão desinteressante.

Pouca coisa vemos do grupo de fato trabalhando em Nova York, ou interagindo de forma convincente com a cidade. Há uma subtrama que não acontece envolvendo um empresário estrangeiro explorador e a falta de intimidade muito freqüente no cinema brasileiro no filmar o passado de maneira realista ganha mais uma tentativa não muito bem sucedida, mesmo num filme classe A como este. Não ajuda o fato de personagens estrangeiros em cena serem brasileiros tentando sotaques.

Na verdade, talvez a falta de intimidade maior seja com o mundo estrangeiro, e, de maneira interessante, Os Desafinados reflete essa ausência do elemento cosmopolita que marca a cultura brasileira de uma forma geral. E a Nova York retratada nesse filme é uma pista. Cenas em estúdio batem de frente com imagens de arquivo da cidade nos anos 60 que apenas reforçam o aspecto televisivo do conjunto. Na verdade, esse banco de imagens fornece as imagens mais expressivas de Os Desafinados. É uma pena que sejam sempre planos de corte rápidos, típicos de uma novela.

Sem grandes preocupações em criar um estado de espírito para ligar a história, ou de ater-se a conflitos humanos de boa qualidade, Walter Lima Jr parece querer dar conta de toda a década de 60 em pinceladas incertas. Voltamos para o Brasil (vôo rasante sobre o Corcovado, imagem assinatura do quão cansado é o senso de imagem do filme), o Golpe de 64 ganha seus cinco minutos aqui, Dico tem problemas com a censura ali, uma TV exibe o discurso histórico "I Have a Dream" de Martin Luther King e, de repente, estamos em Buenos Aires para mais uma seqüência que não parece merecer o esforço do deslocamento.

No presente, temos o grupo já envelhecido rumo ao grande final, a cereja no bolo quando o assunto é mais uma nota falsa - um desdobramento teleguiado pelo roteiro. Curiosamente, Dico, ainda no cinema 40 e tantos anos depois, tenta juntar o material da época para montar um especial que honre a música e a juventude de todos os seus amigos, principalmente dos que morreram. Esse especial é, clara e melancolicamente, Os Desafinados.

Fórmula 1 noturna

GP de Cingapura estréia fazendo história



Neste domingo, às 9 horas (horário do Recife), será disputada a primeira corrida noturna da história da Fórmula 1. Criada em 1950, a principal categoria do automobilismo internacional desembarca pela primeira vez em Cingapura, que já entra no calendário de F1 fazendo história. O circuito de rua será muito bem iluminado com refletores pra lá de potentes. Ao todo, serão 1.600 refletores, distribuídos em postes com 10 metros de altura. A pista tem um trajeto de 5.067 metros. A corrida terá 61 voltas.

Mais de 70 mil ingressos foram vendidos para a corrida. Nos ingressos, o fato da prova ser à noite foi tratado como marketing, com a mensagem “Be part of history” (faça parte da história). Os preços dos ingressos variaram entre R$ 306 e R$ 1.747. O horário noturno tem a intenção de aumentar a audiência da F1 nos Estados Unidos e na Europa.

Nos EUA, aliás, corridas noturnas já são corriqueiras tanto na Fórmula Indy quanto em outras categorias, como a Nascar.

Vale lembrar que a diputa pelo título mundial - faltando apenas 4 provas - está acirrada, com uma vantagem de apenas um ponto para o inglês Lewis Hamilton sobre o brasileiro Felipe Massa (78 x 77).

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Filmes para fugir do horário político, mas não muito (parte III)

Zumbis voltam pra casa e cobram políticos



Ainda sobre o cinema político, há um filme que talvez interesse ao leitor, uma vez que vê-lo é possível tanto em DVD como no canal FX, para quem tem TV por assinatura. Há três anos a Paris Filmes lançou uma série em DVD, o projeto Masters of Horror (aqui, Mestres do Terror), da rede americana de TV a cabo Showtime.
Nomes de peso do gênero fantástico/horror foram chamados para dirigir filmes de uma hora de duração, com liberdade de criação e sem os limites normalmente impostos pelo produto televisivo. Nomes como John Carpenter (Halloween), Dario Argento (Suspiria), John Landis (O Lobisomem Americano em Londres) e Joe Dante integram o time. E é de Dante o filme que destaco, tanto pelo fator inusitado, como pelo seu conteúdo político agressivo. Chama-se Homecoming (voltando para casa, literalmente), batizado no Brasil de Candidato Maldito.
Trata-se de um filme de morto-vivo, mas há uma guinada incrível nesse mote, pois os zumbis de Dante (diretor de Piranha, Gremlins, Viagem Insólita) são soldados americanos mortos na Guerra do Iraque que voltam do além para cobrar da Casa Branca o porquê de terem morrido tão desnecessariamente. Como é que é? Isso mesmo!
Desde que George Romero apresentou seu clássico A Noite dos Mortos Vivos (1968) que o gênero zumbi foi aberto para duas interpretações: a primeira, a do filme de horror puro, macabro e aterrorizante. A segunda, embutida ali, é política, e Romero abordou racismo em ANdMV, consumismo e shopping centers no segundo (Madrugada dos Mortos, de 1978) e militarismo e caos em Dia dos Mortos (1983). Ano passado, lançou Terra dos Mortos, com interessante subtexto (facilmente aplicável ao Brasil) sobre os pobres (zumbis) que ficam fora e os ricos isolados em condomínios, dentro.
No filme de Dante, esse lado político é claro e evidente como nunca antes, e passa uma raiva do filme para com os EUA de George W. Bush que parece deixar a ira de Michael Moore em Fahrenheit 11 de Setembro meio que dispersa. O tema de Homecoming é o desperdício de vidas para saciar uma política frouxa e mentirosa, e nada mais simples e poético do que a imagem (desde já, uma das grandes imagens do ano) de dezenas de caixões cobertos com a bandeira americana num hangar sendo abertos de dentro, por jovens soldados mortos que exigem pelo menos uma explicação para a perda inútil de suas vidas.
É um filme que precisa ser visto não tanto pelo "filme de horror" que há ali, mas pelo contrabando radical que Dante faz ao registrar artisticamente a sua opinião raivosa em relação ao seu país. Se a imagem dos caixões cobertos talvez seja a mais forte, o filme relê uma verdadeira lista de imagens simbólicas que têm marcado o governo Bush, como o isolamento da base de Guantanamo, em Cuba, ou mesmo o processo de eleição, que guarda para o espectador mais inteligente, uma poética idéia relacionada ao desejo que muitos americanos têm, de mudar.

Filmes para fugir do horário político, mas não muito (parte II)

Mera Coincidência

O Brasil seria o país perfeito para fazer filmes como Mera Coincidência (Wag The Dog, EUA, 1997), de Barry Levinson. Se mostrássemos com senso crítico a mecânica dos nossos políticos e a configuração peculiar da sociedade brasileira, seríamos capazes de produzir sátiras mordazes como esta que deixariam o mundo de boca aberta e com azia no estômago. Enquanto não chegamos lá, assistimos aos esforços dos americanos.
Este, na verdade, é o único problema de Mera Coincidência. Embora bem atuado, super bem escrito e dirigido com precisão, é, essencialmente, americano na temática e na ética. De qualquer forma, não é difícil entrar no clima de humor selvagem que guia esta sátira política, que pode ser vista como descendente direta de Dr. Fantástico, de Kubrick (guardando devidas proporções) ou Bob Roberts, de Tim Robbins.




O filme parte do princípio que um cachorro balança o rabo porque tem poder sobre o rabo. Se fosse diferente, o rabo balançaria o cachorro (wag the dog), algo que talvez defina o próprio Brasil.
Robert DeNiro é Conrad Bean, cínico profissional e especialista nos mecanismos que guiam a opinião pública numa sociedade cada vez mais dominada pela mídia. Ele é chamado pela Casa Branca para minimizar os efeitos negativos de um escândalo envolvendo o Presidente e uma adolescente, 10 dias antes de uma possível re-eleição. É bom frisar que o filme foi feito antes do escândalo entre Clinton e a estagiária Monica Lewinski.
Bean, portanto, contrata Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor hollywoodiano que deverá produzir imagens de uma guerra fictícia com a Albânia. Bean explica que é uma estratégia certeira e revela, por exemplo, que a invasão de Granada, nos anos 80, foi parte de um plano para levantar a moral da administração Reagan depois que 243 americanos morreram em Beirute, com um carro bomba, em 1983. "Dois dias depois, ninguém lembrava mais de Beirute!!", diz Bean.
A graça do filme é o seu humor ácido, jogado aos baldes em cima do próprio "USA". Há o ridículo hino estilo We Are the World criado para escorar a farsa, a febre de sapatos velhos jogados em árvores país a fora, a sátira impiedosa do culto americano do herói, além de uma imagem do operador de marionetes de Robert De Niro, numa janela onde é refletida a bandeira americana, colorida e imponente.
Também interessante é o choque entre Bean e Motss, que se acha um artista frustrado ("ninguém reconhece o trabalho de um produtor"), buscando um crédito que não combina com os esquemas políticos ultra-discretos administrados por Bean. Aí, o filme versa rápida, e de forma certeira, sobre Hollywood.
Impossível, como brasileiro, não lembrar da eleição Collor Vs. Lula, de 1989, fato que parece ter sido escrito por alguém como David Mamet. Ele dá ao filme um tom que começa irônico e engraçado (os efeitos especiais empregados na armação) e passa por uma escalada francamente assustadora, ao sentirmos a força dos que vivem e precisam do poder.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Brodagem explícita

A vulgaridade cheia de ternura de um virgem


O Virgem de 40 Anos (The 40 Year Old Virgin, EUA, 2005) é um dos filmes mais divertidos que eu vi nos últimos anos, um saco de gargalhadas do início ao fim que desafia sua própria (longa) duração. Trata-se de uma overdose de humor masculino que, pelo simples fato de elogiá-lo, poderá pegar mal pra dedéu em alguns círculos mais feministas. Paciência.

O Virgem de 40 Anos não é grosseiro e vulgar como alguns poderão deduzir. Sua intensa grosseria e espetacular vulgaridade nunca realmente perdem a ternura. Há no filme um clima geral de "brodagem" entre amigos que revela o carinho que o próprio filme tem pelos seus personagens, chegando a lembrar o cult e mui apreciado Swingers (1995), de Doug Liman. Valorizo um filme como esse pois a norma nesse tipo de coisa (American Pie, Porky's) é um show de humilhação moral e sexual que, na melhor das hipóteses, revela os recalques puritanos de uma sociedade como a americana. Em O Virgem... também existe material para esse tipo de olhar sobre o puritanismo, mas é preciso tentar parar de rir para entender onde estarás sendo levado.
Andy (Steve Carrell, que co-roteirizou o filme com o diretor Judd Apatow) é o personagem titular. Ele mora só, veste camisa ensacada e trabalha numa loja de eletro-eletrônicos de Los Angeles. Andy desenvolveu um trauma a partir de dois acidentes sexuais do seu passado, mostrados em hilariantes flashbacks.
Se há homens que sentem enorme dificuldade de sair da infância, Andy é um que nunca saiu. Sua casa lembra uma loja de briquedos, sua falta crônica de sexo é suprida por um materialismo que não poderia ser mais americano. Ele vai também de bicicleta para o trabalho, fator que parece chocar os sempre motorizados EUA.
Ao aproximar-se de três colegas da loja - David (Paul Rudd), ainda de luto pelo fim de um relacionamento, Jay (Romany Malco), que se acha Don Juan, e Cal (Seth Rogen), adepto de viagens sexuais a Tijuana, no México, um trio macho gente fina e muito engraçado -, o segredo de Andy é descoberto e caberá aos amigos tentar produzir a primeira vez do tímido Andy.
Cada uma das dicas é de uma malandragem masculina totalmente do mal. Do mal talvez, mas engraçadas, a começar pela associação de sexo + mulher + álcool. Homofobia também entra na roda, sobrando, em especial, para fãs do Coldplay. Entre inúmeros arroubos de inspiração, este filme te dá uma boa dica de como tratar gente que te liga para fazer telemarketing. Ou como, no emprego, é sempre melhor pensar no bem estar do amigo e colega, deixando o trabalho em si no segundo plano. Isso me lembra uma certa confraria da qual participei e que no momento oportuno poderei entrar em detalhes neste mesmo espaço.
Boa parte da estratégia de inclusão sexual para Andy é pensada no excelente cenário que é a loja onde trabalham. Composta por bugigangas digitais e enormes monitores de plasma, temos uma fauna bem observada de personagens secundários que fazem o lugar ganhar vida e graça. Dos dois funcionários paquistaneses ("Quem somos nós? Da Al-Qaeda?") à chefe deles, Paula (Jane Lynch), que revela-se uma das personagens mais bacanas de todo o filme. Essa mulher esguia, nos seus 40, com certeza não é mais virgem. A atriz arrasa numa cena bem escrita sobre um certo personagem do histórico sexual dela.
Curiosamente, O Virgem de 40 Anos acrescenta um segundo desdobramento narrativo que vem na figura de Trish (a maravilhosa e lindamente afetada Catherine Keener, de Quero Ser John Malkovich), uma pequena empresária que desperta a atração de Andy. Mãe de três e já avó ("uma das avós mais gatas do país"), ela tenta conter o libido da filha de 16 anos num mundo que só pensa em sexo, ao mesmo tempo em que tenta estimular o de Andy que, estranhamente, sempre adia o contato sexual entre os dois. Observar que o filme equilibra comédia de costumes sexuais e historinha de amor tão bem é um feito.
O que mais impressiona no filme é a capacidade de nos dar, em média, uma gargalhada a cada 30 segundos com os quatro amigos e Trish. O trio da loja tem enorme senso de amizade e vontade de melhorar Andy, promover seu bem estar emocional e sexual, muitas vezes à base de palavras construtivas, embora bebida, drogas e pequenos atos de desobediência civil não estejam descartados.
Estranhamente, acabei de ver Penetras Bons de Bico em DVD com muita boa vontade e detestei. Lembro que na época em que fui ver esse aqui no cinema não tinha grandes expectativas e gostei muito. Os dois filmes acabam ali mesmo onde já imaginávamos que acabariam, e aí senti uma estranha fisgada que me incomodou em O Virgem..., e vai aqui aviso leve de SPOILER. Se entendi bem, mesmo depois de superada a barreira psicológica, os dois esperam para trepar só depois do casório? Que filosofosia batista é essa? Ah, mas não será um deslize como esse que vai estragar a durabilidade (e longevidade) das minhas gargalhadas.
Logo depois, o filme irá redimir-se numa sequência "Hmm??!!" totalmente inesperada que brinda admiradores relaxados de Hair (1979), de Milos Forman, com uma síntese perfeita das duas horas que acabamos de ver: uma hilariante demonstração de vulgaridade, sem nunca perder a ternura e o humor.

Perigo em Bangkok

Mais um assassino de cabelo estranho!



Às vezes a gente fica observando decisões feitas por alguns artistas, algumas delas de botar a mão na cabeça. Um deles é o ator Nicolas Cage, que saiu dos filmes pequenos e autorais nos anos 80 e 90 (Arizona Nunca Mais, dos Irmãos Coen, Coração Selvagem, de David Lynch) para ganhar um Oscar de ator por outro filme de pequeno porte, Despedida em Las Vegas (1996). Depois disso, virou astro em filmes caros tipo The Rock e 8mm. Recentemente, fez o Motoqueiro Fantasma e O Homem de Palha, dois filmes ruins, e agora aparece com um cabelo estranho em Perigo em Bangkok (Bangkok Dangerous, EUA/Tailândia, 2008), dos irmãos Pang, diretores chineses.Esse thriller escuro contribui pouco para elevar a qualidade dos filmes recentes que têm como personagens principais assassinos profissionais (Hitman, O Procurado).
O filme também chama a atenção por tratar-se de uma produção internacional feita na Tailândia por uma equipe tailandesa, curiosidade na mesma semana que vê o também multinacional Ensaio Sobre a Cegueira chegar às salas. Perigo em Bangkok é uma refilmagem de um thriller de mesmo título dirigido pelos mesmos irmãos Pang em 1999, muito visto no mercado asiático. É mais um desses filmes onde o personagem principal não ri, mata laconicamente e movimenta-se na calada da noite como um ninja. E, claro, esse vistoso corte de Barbie morena assanhada, o mais estranho mini-carpete visto desde o gerente de boate de Tom Hanks em Código Da Vinci (o de Barden em No Country For Old Men não conta, pois foi de propósito).
Uma narração dele próprio explica seu modus operandi, composto por regras como associar-se a algum apoio local que seja descartável (pequenos criminosos, viciados em heroína), nunca deixar pistas (não parece conhecer investigação forense) e dar o fora o mais rápido possível. Cage murmura no microfone algo sobre o trabalho oferecer boa grana e levá-lo não importa aonde, o que termina soando como um depoimento sincero do próprio ator sobre suas escolhas recentes no cinema.
Esse matador chega a Bangkok para executar serviços, todos seguidos de gordos depósitos na sua conta corrente. Associa-se a um pequeno marginal chamado Kong, portador de maletas que trazem armas especiais para cada serviço e informações sobre a próxima vítima. Tudo isso você já viu antes, e todos nós entendemos que o sisudo matador irá mudar da água para o vinho, não tanto porque sentimos a mudança, mas pelo fato de filmes do tipo gostarem desse tipo de coisa.
Uma guinada interessante é um inesperado fator Luzes da Cidade, onde nosso amigo interessa-se por uma surda-muda, funcionária de uma farmácia. É ela quem irá dar um pouco de delicadeza a essa alma solitária. Uma cena curiosa onde os dois vão jantar de repente parece fazer parte de um outro filme, talvez uma comédia romântica, claramente a melhor cena do todo. O tema principal é comida picante.
No mais, é tudo muito escuro e rotineiro. A mudança de caráter é absurda, o cabelo permanece esquisito, uma seqüência lembra o assassinato de um certo presidente, as mortes dos vilões sem graça (vilão descartável No. 7 leva tiro e cai), mas, mesmo assim, permanece no filme a impressão de que estamos vendo um thriller estranho, com alguma personalidade, marcada por um final não muito hollywoodiano que deixa a sensação de ser um produto algo de alienígena na sua previsbilidade.

Para fugir do horário político, mas não muito

Normalmente não perco meu tempo assistindo ao Horário Eleitoral Gratuito. Prefiro ver o que está passando na TV por assinatura ou alugar um bom DVD para ocupar aquela meia-hora perdida na programação. Mas para não me sentir totalmente alienado do processo eleitoral, acabei fazendo uma lista de filmes com algum enfoque político para estes últimos dias da campanha. Foi aí que veio a idéia de compartilhar algumas impressões sobre estas produções – em sua maioria norte-americanas – com os leitores do blog. Pra começar, um dos meus preferidos.
Eleição (Election, EUA), de Alexander Payne, pode ser considerado um dos grandes filmes americanos de 1999. Ajuda o fato de ser uma obra de temática tão fortemente americana, ambientada no coração dos EUA (Nebraska), onde Payne cria uma espécie de maquete realista dos que fazem a sociedade “USA” ao enfocar uma eleição estudantil, numa escola secundária. Freqüentando a escola, um grupo de personagens que desempenham suas funções no filme com distinção, mas que também funcionam num nível simbólico, representando os EUA e sua mecânica política como um todo. O conflito entre os diferentes partidos é administrado por Payne com mão notavelmente boba.
Eleição não é particularmente famoso, não foi sucesso de bilheteria e trata-se de um filme pequeno, dotado de um disfarce, para muitos, impenetrável: foi vendido como comédia teen. A presença de Mathew Broderick parece confirmar isso e nos remete diretamente ao seu Ferris Bueller de Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller's Day Off, EUA, 1986), de John Hughes. No entanto, um dos muitos trunfos de Eleição é exatamente o seu disfarce, uma vez que há, nesse filme, uma raposa feroz escondida na pele de um cordeirinho.

Jim McAllister (Broderick) é o melhor professor da Escola Carver, na cidade de Omaha. Dedicado ao trabalho e premiado inúmeras vezes pelo seu empenho e visão comunitária, ele tem certeza de que sua parte do sonho americano está sendo muito bem feita. Ensina a disciplina “Ética e Moral”, é casado e quer ter um filho com Diane (Molly Hagan), muito embora o clima no lar dos McAllister seja de infertilidade afetiva e sexual.Correto como uma régua, Jim sente-se incomodado ao perceber sua própria irritação com uma aluna chamada Tracy Flick (Reese Witherspoon), uma adolescente pateticamente obstinada e empreendedora que candidata-se à presidência do grêmio estudantil, sem concorrentes. Como geralmente ocorre na narrativa clássica americana, a irritação de McAllister também é nossa irritação e, possivelmente, do próprio Payne (que escreveu o roteiro indicado ao Oscar com Jim Taylor). Tracy é ironizada, ridicularizada pela câmera, embora ela mesma, e o seu jeito, falem por si próprios. De qualquer forma, Payne consegue algum tipo de distanciamento, mas sem nunca perder a essência da identificação entre espectador e personagens, principalmente em relação a McAllister.
Witherspoon (indicada ao Globo de Ouro pelo papel) compõe Tracy como uma locomotiva movida a veneno e uma ambição tocada pela objetividade comum às aves de rapina. Filha de uma ex-aeromoça (Coleen Camp), é a imagem da ambição projetada também pelo sonho americano. Seria prima não muito distante da aplicada personalidade televisiva de Nicole Kidman, em Um Sonho Sem Limite (To Die For, 1995), de Gus Van Sant. Focada no alvo, Tracy fará de tudo para acertá-lo e Payne certifica-se de que suas ações e manipulações permaneçam ancoradas na realidade. Talvez em outro filme, Tracy apelasse para assassinato. Em Eleição, ela almeja Washington DC.


McCallister tenta separar os fatos relacionados a Tracy, especialmente após um incidente que vitimou seu melhor amigo e também professor, Dave (Mark Harelik), algo apresentado pelo filme com ironia dolorosa. Talvez por isso e também motivado por uma defesa da democracia americana e do poder de escolha da sua comunidade estudantil, ele parte para achar um segundo candidato que possa fazer frente à forte plataforma de Tracy. Encontra o candidato biônico perfeito: Paul Metzler (Chris Klein, uma espécie de Keanu Reeves 10 anos mais jovem), menino bom, bonito, popular e burro.Tem início uma guerra de ética e moral que fará McAllister repensar toda a sua vida e a mecânica de uma sociedade injusta, mas sempre com um pé firme na ingenuidade dos otimistas. Narrado num ritmo que mistura agilidade de edição e atenção especial ao conteúdo apresentado, Eleição é uma massa sólida de informação bem apresentada ao longo de 103 minutos. É um filme onde os personagens são bem construídos não apenas pelos diálogos afiados, mas também por uma preparação cuidadosa dos arredores e dos símbolos e signos que os cercam.Isso vai desde a própria escola, às residências classe-média dos personagens, a motéis construídos para servir à família americana e onde corredores são horrendamente acarpetados. Esse tipo de textura tem sido utilizada com enorme efeito pelos Simpsons, já há uma década e meia, e encontra perfeita ressonância nesse filme, que pode ser visto como um ensaio sobre os americanos, seus ideais e a forma como esta sociedade pensa. Há um conteúdo realista de “tempo” e “lugar” que salta aos olhos numa utilização original desses elementos, especialmente pelo tom realista de ironia. O time de coadjuvantes é excelente. Tammy (Jessica Campbell) é a irmã homossexual de Paul que candidata-se à presidência com uma plataforma anárquica que deverá servir propósitos bem pessoais. Linda (Delaney Driscoll) é a vizinha dos McAllister que irá oferecer uma perspectiva de vida mais fértil para Jim enquanto, na escola, alunos e professores são mostrados com tanta naturalidade que o espectador sente-se imediatamente inserido no ambiente. Eleição é também aquele tipo de filme cujo teor é notavelmente amargo, especialmente se olharmos para McAllister, personagem construído com todas as cores de um homem que Frank Capra teria tentado construir. O que realmente não pertence ao estilo Capra é a visão irônica com a qual Payne ajusta sua lente ao mostrar não apenas seu quixotesco personagem principal, mas também a América do meio-oeste.Particularmente perturbador é o desdobramento de uma trama que envolve sexo com menores de idade, adultério, lesbianismo, corrupção e a ingenuidade dos que só querem fazer um bom trabalho para a sociedade. Nesse sentido, o filme faz parte de uma leva de obras recentes que lançam olhar ácido sobre os EUA, como Clube da Luta (Fight Club), Três Reis (Three Kings) e Felicidade (Happiness), com doloroso sarcasmo. O filme tem o cinismo de alguém que parece estar se fazendo de besta, mas que revela-se inteligente e cortante no seu comentário.Se o filme, como um todo, é dotado de um tom corrosivo, Payne deixa para os últimos 10 minutos o efeito máximo do ferrão ao encerrar sua história com o drama e o silêncio social dos inocentes. É uma nota final amarga, mas absolutamente adequada ao perfeito exercício em deboche controlado apresentado ao longo de todo o filme.
DVD - Eleição chegou ao formato DVD num disco razoável (Paramount), com a obrigatória imagem excelente, freqüentemente granulada, mas normal em se tratando de um filme rodado em Super35mm. O formato de tela é “scope”, como no cinema, ajustado para algo em torno de 2.35:1.A trilha sonora em Dolby Digital 5.1 não explora canais traseiros, mas apresenta-se forte especialmente na trilha sempre ativa de Rolfe Kent. Diálogos são perfeitamente reproduzidos, embora o destaque sonoro do filme vá para o primeiro som que ouvimos, ainda na abertura, uma enorme mangueira regando um campo de futebol.Além do básico (capítulos divididos), este DVD traz o comentário simpático e sempre interessante do diretor Alexander Payne. Ele explica aspectos interessantes do filme e muitos dos seus segredos. Ouvir informações sobre esses segredos nos diz muito sobre o processo criativo que guia realizadores e, acreditem em mim, ajuda muito na hora de escrever uma resenha.A textura realista do filme sobre o meio-oeste pode ser explicada pelo fato de o próprio Payne ter nascido e sido criado na cidade de Omaha, onde se passa a história e onde ele filmou Ruth em Questão (Citizen Ruth), seu primeiro filme. É também interessante ouvi-lo falar sobre sua tentativa de defender os personagens de Broderick e Witherspoon através de círculos e linhas retas. Jim seria sempre representado por círculos e Tracy por retas. Isso realmente está no filme, embora o espectador provavelmente não esteja ciente disso. Há também um tema que Payne faz questão de ressaltar envolvendo “lixo”, que parece perseguir todos no filme, especialmente Jim. Caminhões de lixo, lixo e lixeiras estão sempre lá, fazendo parte importante da trama, em determinadas situações. O DVD de Election vale pelos comentários de Payne, que parece ser um realizador extremamente talentoso ao tentar decifrar sua sociedade, assim como personagem simples e de palavra fácil, sem falsas posições intelectualizadas.
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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.