terça-feira, 30 de junho de 2009

DIPLOMA DE JORNALISMO É PERFUMARIA


Todo mundo já sabe da minha posição sobre a queda da obrigatoriedade do diploma de jornalista. Mas como recebi do amigo Nildo Lima o excelente texto que reproduzo abaixo, achei por bem voltar ao tema mais polêmico do ano entre os colegas. O artigo foi publicado na quarta-feira passada, no jornal Correio do Brasil, de Porto Alegre. Apreciem:

Diploma de jornalismo é perfumaria - Manifesto contra a hipocrisia

Por Wladymir Ungaretti - BdF - de Porto Alegre

O diploma não está ameaçado porra nenhuma. Acabou. Não é por acaso que a Rede Globo garante que continuará prestigiando as escolas de “comunicologia” e que, por outro lado, irá abrir espaço a especialistas de outras áreas. O PRBS, também, promete que vai continuar valorizando os cursinhos da perfumaria. É só uma flexibilização. A ditadura midiática ganha “ares de diversidade”. A medida não altera porra nenhuma em termos da produção das atuais ”informações ficcionais”, dos releases das assessorias de imprensa. Associar “qualidade da informação” com diploma é deboche. Até mesmo na história recente de Zerolândia* esta associação é piada. Uma redação com hegemonia de profissionais sem diploma era dirigida pelo Lauro Schirmer. Dava para ler. Uma redação hegemonizada pelos com diploma e direção de Marcelo Rech vai para história do lixo.

Ninguém diz nada sobre a conjuntura em que o diploma foi criado. Assim, como ninguém diz nada sobre a conjuntura atual, a do fim do diploma. É preciso, no entanto, assinalar a característica básica dos dois momentos: ditadura militar e ditadura midiática. Absoluta falta de democracia. Ditabrandas. O MST pode dizer algumas coisas interessantes sobre o tema. Na militar, as redações eram “controladas” por intelectuais de esquerda. A ditadura precisava de “profissionais” com outro perfil. No começo foi quase impossível. A meninada (com o diploma) mandava “bala” contra a ditadura. E os “velhos” jornalistas prestigiavam. No mínimo faziam vistas grossas. Na atualidade, o fim do diploma “flexibiliza” e reforça os cursinhos técnicos de comunicologia. Uma adequação ao Deus Mercado. A grande novidade - e a mídia corporativa precisa - é a formação de showrnalistas especializados na transmissão de infográficos online. Ou de “especialistas” em segurar microfone. Isso tudo é uma grande piada.

Está aberta, no entanto, a possibilidade de implodirmos com os cursos de “comunicologia”, pela esquerda. Está aberta a possibilidade de formação de JORNALISTAS marginais, subversivos e da periferia. Estes cursos populares darão prioridade à formação do caráter. Não esquecendo, é claro, que a esquerda sabonete é um zero à esquerda. Uma idéia anarquista. Em 20 anos de Fabico (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS) nunca tive um aluno negro que não fosse africano. Não tive em aula um estudante de JORNALISMO morador da Lomba do Pinheiro (periferia de Porto Alegre). Estamos de olho na possibilidade de construção de ESCOLAS DE JORNALISMO na periferia. Currículo de AgiProp (agitação e propaganda). Contra o sistema. Luta de classes existe, sim. O “showrnalismo” que a mídia corporativa faz ficará “melhor”. Zerolândia ficará melhor “qualificada”. Especialistas (não diplomados) poderão brilhar.

Comecei na profissão com Marcos Faerman (Marcão), trabalhei com Pilla Vares, João Aveline e José Onofre; tive aulas de marxismo e de jornalismo com Marco Aurélio Garcia, criador do primeiro Caderno de Cultura de ZH; também tive algumas lições de jornalismo com Jefferson de Barros. JORNALISTAS eram intelectuais e de esquerda. O diploma que predominava era o de advogado. Nenhum jornalista da República de Livramento (Bicudo e outros) tem diploma. Acho que o Trindade e o Vieira também não. Boa parte da redação da Folha da Manhã, da Caldas Junior, não tinha diploma. O decreto que cria a habilitação em Relações Públicas, dentro dos cursos de “comunicologia”, foi assinado pelo Jarbas Passarinho e o Delfim Neto. Não consegui o registro por ter passado uma temporada na cadeia. Fui obrigado a fazer a faculdade. Tenho o tal do diploma. Sou professor por um descuido do sistema.

Os atuais cursinhos técnicos de “comunicologia” continuarão formando o pessoal que é treinado para escrever 30 linhas. (ponto) Bons de telefone. (ponto) Ou então com qualificação para buscar release na Secretária de Segurança Pública. (ponto). Para os que possuem o DNA da profissão o diploma é um detalhe. E quando não existia Internet o cara “cascateava” e não tinha como denunciar. A informação ficava restrita ao meio profissional. Agora, o cara “cascateia” e um blogueiro (não showrnalista) denuncia e é processado. A rede de conivências corporativas é silenciosa. Só faz estardalhaço na defesa da “liberdade de imprensa”, deles.

Os atuais showrnalistas, todos diplomados, são e continuarão sendo cartógrafos do sistema. Mapeadores serviçais das elites. Nenhum dos 30 melhores alunos que tive em 20 anos de Fabico trabalhou em Zerolândia, poucos andaram (passagens rapidíssimas) por outros veículos da mídia corporativa e todos, literalmente todos, exercem a profissão comprometidos com a vida. Acho que dei minha contribuição na formação destes JORNALISTAS. Para todos eles o diploma foi um detalhe. Uma imposição burocrática e autoritária. Quase sempre de professores que não deram certo na profissão. Ou de acadêmicos que nunca passaram nas proximidades de uma redação.

O que vai acontecer? Não sei. A todos os piratas, hackers e anaquistas e loucos, de um modo geral, desejo sucesso na multiplicação dos espaços de liberdade. A clandestinidade exige atenção, humildade, intuição e pode ser o caminho para o exercício do JORNALISMO com o velho sentido da profissão. Propomos a multiplicação de panfletos eletrônicos. A realização de bacanais. De orgias eletrônicas panfletárias contra o sistema. Pela realização dos prazeres criminosos e ilegais. Abandonamos a idéia dos piquetes. O melhor é vandalizar. Não significa porra nenhuma protestar. Queremos atos de desfiguramento. Não aceitamos os estúpidos desperdícios como, por exemplo, a imensa quantidade de papel gasto em jornais de merda. Lutamos pela destruição dos símbolos dos impérios da “comunicologia”. Zerolância é criminosa. Aliena. O diploma não está ameaçado porra nenhuma. Nunca esteve. Acabou. (ponto) Fotografem a miséria conversando com os miseráveis. Aprendendo com eles. Pela ação dos marginais, dos que estão à margem, avançamos contra a barbárie.

Jornalistas, como agentes da subversão, nunca se inscrevem para concorrer a prêmios. E muito menos ainda para o Prêmio Ari-Gó. Não são os “showrnalistas” que são premiados, mas as empresas para quais vendem a alma. É tudo matéria 500. É parte da política de relações públicas. A Esso criou o Repórter Esso para combater a campanha do Petróleo é Nosso. E o “camarada” Lula poderá ser presidente do Banco Mundial.

Viva Hélio Oticica e os parangolés!!! Queremos tudo Zensentido. Glauber Rocha não tinha diploma de porra nenhuma. E, assim, ameaçava a burguesia. Como dizia o velho guerreiro Chacrinha: “quem não se comunica se trumbica”.

Mil desculpas se às vezes perco o ímpeto radical da raiz

PALAVRAS como estiletes
CORTANTES.

Wladymir Ungaretti é jornalista e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
*Obs.: o autor se refere ao jornal Zero Hora.

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL CORREIO DO BRASIL, DE PORTO ALEGRE, EM 24/06/2009

domingo, 28 de junho de 2009

NÓS MATAMOS MICHAEL JACKSON



ESTE É O MELHOR TEXTO QUE LI SOBRE A VIDA E MORTE DE MICHAEL JACKSON

Vai soar hipócrita e oportunista. Mas eu vou escrever assim mesmo: nós matamos Michael Jackson. Nós e o pai dele, Joseph, que o obrigava – junto com os quatro irmãos mais velhos – a ficar ensaiando horas a fio na volta da escola. Que os dirigia com uma cinta na mão. Que repetia o tempo todo que o pequeno Michael era “feio como um macaco” e o espancava, ao ponto de o garoto vomitar só de vê-lo. Nós, com nosso apetite sádico pelo seu show de horrores, Joseph e ele próprio, Michael, que era egocêntrico demais para perceber que precisava de ajuda – da família, dos amigos e ainda psicológica ou psiquiátrica.

Ele não tinha maturidade para enxergar isso. E nem para perceber o reverso da moeda do método de Joseph Jackson: se por um lado a disciplina espartana e a ambição desenfreada do pai lhe roubaram a infância, por outro aperfeiçoaram e deram visibilidade ao seu enorme talento – o que ajudou a forjar o mito que Michael se tornaria.

Com a hecatombe de Thriller – embora Off the Wall, seu primeiro álbum solo na idade adulta, também tenha feito enorme sucesso –, Michael Jackson arrombou a porta da MTV e pulverizou a fronteira entre a música negra e a música branca nos Estados Unidos. Foi o primeiro artista negro a aparecer na MTV e o primeiro representante da black music a ter suas músicas tocadas nas rádios de rock – ao mesmo tempo em que levava o rock às rádios de black music. E assim – além de um raro senso estético e um talento assombroso para a dança –, Michael pôs a crítica e o público de joelhos.

Se tivesse paz de espírito, tudo o que ele precisava fazer dali em diante era saborear os louros da vitória – além de manter abertos os canais da sua inspiração. Depois de Thriller, Michael estava milionário, famoso no mundo inteiro, liberto dos irmãos e com autonomia artística e moral para mandar o velho Joseph para onde quisesse.

Não era o caso. Michael era todo mágoa, ressentimento, carência e... ego. E a montanha de dinheiro só fez piorar essa receita: tinham lhe roubado a infância? Pois agora ele iria comprá-la de volta, muito mais grandiosa e cintilante. Por isso Neverland e a necessidade de se cercar de crianças. Estava crescendo, sofrera com as espinhas, era narigudo e “feio como um macaco”? Pois agora ia ter o rosto que quisesse, o nariz que bem entendesse, o cabelo e a pele perfeitos. E faria tudo o que estivesse ao seu alcance para “não crescer”, ficar o mais distante possível da sua tenebrosa referência de homem adulto, o velho Joseph.

Foi o que ele tentou: comprar de volta a sua infância, com direito a amiguinhos para brincar no seu parque de diversões – e sem qualquer malícia, na minha opinião. Para mim, Michael Jackson nunca foi pedófilo. Ele sempre se sentiu uma criança, e se cercava delas por identificação, por sentir-se seguro e protegido. Só que o mesmo dinheiro que proporcionou esse mundo de fantasia, despertou a cobiça dos pais dessas crianças – que perceberam na fragilidade emocional do Rei do Pop a oportunidade para esfolá-lo, inventando as denúncias de abuso sexual que acabaram destruindo a sua carreira. E assim, dolorosamente, ele foi confrontado com a sua condição de adulto – e aprendeu que nem nas crianças podia confiar.

Eu não sei de onde eu tinha tanta convicção da inocência dele, talvez por nunca ter detectado em seu olhar, palavras ou ações qualquer vestígio da malícia e da tensão sexual de um pedófilo. Mas hoje, vasculhando a biografia de Michael, dei de cara com uma informação que, embora não possa ser encarada como verdade absoluta por sua procedência, merece ser levada em consideração: “Durante a investigação [da acusação de pedofilia por parte do garoto Gavin Arvizo, em 2005], o perfil de Jackson foi examinado por um profissional da saúde mental chamado Dr. Stan Katz; o médico também passou várias horas com o acusador. A avaliação feita por Katz dizia que Jackson tinha a mente de um garoto e não se encaixava no perfil de um pedófilo”.

Ah, e achei outra informação, que teria entrado no Guinness Book do ano 2000: “Michael Jackson foi o artista que mais ajudou pessoas no mundo, tendo contribuído com mais de 39 organizações”. Pena não ter conseguido ajudar a si mesmo... por tudo isso, eu lamento profundamente a morte de Michael Jackson.



TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA GAZETA DO POVO POR
Luigi Poniwass (anoitetoda@gazetadopovo.com.br)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

FOTOGRAFAR É QUE É CRIME


Afinal, comete crime ou não o adulto que mantém relações sexuais com crianças e adolescentes?

De acordo com recente decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) - que, dias atrás, absolveu dois acusados de usar os serviços de duas garotas de programa menores de idade - o ilícito penal deixa de existir quando a suposta vítima já atue como prostituta e o suspeito seja um cliente eventual.

A história que vem dando panos pra mangas começou em Mato Grosso do Sul. Conforme os autos, os réus teriam contratado o programa com as três garotas num ponto de ônibus. Pagaram R$ 80 a duas delas, justamente as menores, e R$ 60 à terceira, que tinha mais de 18 anos.

Em tese, o ato estaria ferindo o artigo 244-A do Estatuto da Criança e do Adolescente, segundo o qual, submeter criança ou adolescente à prostituição ou exploração sexual é crime, sujeito a pena de reclusão de quatro a dez anos, além do pagamento de multa.

Mas não foi este o entendimento do Tribunal de Justiça do MS. Para os desembargadores, o fato de as garotas já atuarem como prostitutas isentava os réus do crime de exploração sexual – isso porque eles não as havia iniciado no ofício nem obtinham qualquer lucro com a atividade por elas desempenhada. Irresignado, o Ministério Público recorreu ao STJ, mas o resultado foi mantido na instância superior.

Em seu parecer, o relator, ministro Arnaldo Esteves, justifica que o crime previsto no artigo 244 do ECA não se aplicaria a clientes ocasionais. A Procuradoria Geral do Estado do Mato Grosso do Sul promete recorrer da decisão.

Mas aí agora é que vem a graça. Embora absolvidos da acusação de exploração sexual, os réus não saíram totalmente impunes: como fotografaram as garotas em poses pornográficas, foram condenados com base no artigo 241-B do ECA ("adquirir, possuir ou armazenar, por qualquer meio, fotografia, vídeo ou outra forma de registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente"). Quer dizer, dependendo das circunstâncias, manter relações sexuais com adolescente até que pode. Fotografar é que é crime...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

INTRIGAS DE ESTADO // libelo em louvor ao jornalismo impresso


Quando o escândalo Watergate veio à tona, os jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, do The Washington Post, viraram super-heróis da mídia. Reeditaram o mito bíblico do pequeno Davi que derruba o gigante Golias, levando o presidente republicano Richard Nixon a renunciar o cargo, em 1974.

O caso gerou o longa-metragem "Todos os homens do presidente" (1976) e desencadeou um “surto” de filmes sobre a imprensa, como o clássico "Rede de intrigas" (1976), de Sidney Lumet, e "Ausência de malícia" (1981), de Sidney Pollack.

Produções sobre os bastidores da notícia, contudo, há muito deixaram de ser um filão rentável para o cinema e para a televisão. Talvez porque histórias como a do repórter Jayson Blair, do The New York Times, que plagiou e inventou centenas de reportagens nas fuças dos editores do mais importante jornal do mundo, deixem a opinião pública meio ressabiada quanto aos padrões éticos praticados no meio.

O fato é que um filme como "Intrigas de estado" (EUA, 2009), embora não seja uma obra-prima, é muito bem-vindo – e pertinente. Ainda mais num momento em que os jornais impressos ao redor do mundo, sobretudo nos Eua, parecem enfrentar uma crise sem precedentes, com o desaparecimento de diários importantes, como o Seattle Post-Intelligencer, cuja versão impressa deixou de circular e hoje só pode ser lido na internet. Esse thriller político dirigido por Kevin McDonald (de "O último rei da Escócia") é uma espécie de libelo em louvor ao jornalismo impresso. O filme fica em cartaz até hoje na sala Catasnheira 1 e irá para a Castanhal 1, na cidade vizinha.

O ator Brad Pitt ("Tróia") chegou a estar envolvido no projeto, mas acabou sendo substituído por Russell Crowe. Além de Pitt, Edward Norton ("Clube da luta") também desistiu de participar do filme. Além de Russell Crowe, o elenco também conta com a participação de Ben Affleck ("Demolidor"), Rachel Adams ("Voo noturno"), Jason Bateman ("Juno"), Helen Mirren ("A rainha") e Jeff Daniels ("Boa noite e boa sorte").

Mesmo não tendo um desempenho tão satisfatório nas bilheterias americanas, onde arrecadou pouco mais de US$ 36 milhões, a produção é sucesso entre os críticos brasileiros. E deve ganhar um impulso com toda essa agitação em torno do fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão.

Baseado na minissérie britânica "State of play" (2003), produzida pela BBC, "Intrigas de estado" tem como grande mérito mostrar as engrenagens de um jornal em crise, o fictício The Washington Globe. O veículo, com circulação em queda, acaba de ser vendido para um grande grupo e sua diretora de redação (Helen Mirren) cobra aumento nas vendas, resultados.

É nesse momento nevrálgico que duas notícias, uma aparentemente desimportante e outra bombástica, vêm à tona: um ladrão (e talvez traficante) e um ciclista são assassinados à queima-roupa e a assessora do jovem e promissor deputado Stephen Collins (Affleck) morre nos trilhos de uma estação de metrô da capital federal, num aparente suicídio.

Mais interressado em cobrir e desvendar os misteriosos assassinatos, o repórter investigativo Cal McAffrey (Crowe, ótimo como sempre) é atropelado pela outra ocorrência: Collins é um de seus melhores amigos de juventude e a suposta suicida era amante do deputado.

Apesar de ter reviravoltas um tanto rocambolescas (e até inverossímeis), a trama de "Intrigas de estado" retrata com fidelidade as entranhas do processo de produção da notícia – e num momento histórico particularmente intrigante.

O repórter à moda antiga, McAffrey, dividido entre cumprir seu papel e ajudar seu amigo, entra em confronto com a novata e ambiciosa Della Frye (Adams), que mantém na versão on-line do The Washington Globe um popular blog político. De um lado do ringue, a experiência do profissional que acredita na apuração, no cruzamento de fontes e, sobretudo, no cheiro da tinta no papel. Do outro, o poder da instantaneidade, da interatividade, das notícias que se fazem (e desfazem) em tempo real na tela do computador. Quem ganha é o espectador.

TEXTO PUBLICADO NA PÁGINA 20 DA EDIÇÃO DE HOJE (22/06) DO JORNAL AMAZÔNIA

sexta-feira, 19 de junho de 2009

MENSAGEM DE APOIO


O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Pará está preparando uma manifestação para a próxima semana em repúdio à decisão do STF, que derrubou a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo em território nacional. O protesto, segundo a presidente Sheila Faro, deve ser feito em forma de panelaço - em referência ao "cozinheiro" do Gilmar Mendes.

Eu, que lá não estarei no dia, deixo aqui minha mensagem de apoio aos colegas que também não estarão lá. Não acho que o diploma de jornalista qualifique alguém para escrever. A maioria dos formandos que conheci, inclusive eu, não tinha preparo para cair de cabeça na reportagem e, em muitas vezes, não sabia sequer fazer um lead. Não estou falando de todos, só da maioria.

Do mesmo modo, não há por que não contratar um profissional de outra área e que escreva bem só pela falta de diploma. Aposto que existem médicos, economistas, cientistas e historiadores que escrevem muito melhor que a maioria dos jornalistas formados. Se há uma vaga para repórter em um veículo, por exemplo, ela deveria ser preenchida pelo mais habilitado, independente de sua formação. Jornalismo não é medicina. A “abertura do mercado” só elevará o nível da imprensa e acabará com muitos cursos falcatruas por aí.

“Derrubar a exigência de formação superior específica em Jornalismo é algo que só interessa aos donos de veículos de comunicação, que, sem ela, teriam um poder ainda maior de controle dos jornalistas e de manipulação da mídia”, afirmou Dr. Rosinha.

Hein? Sério, é o tipo de argumento que não consegue convencer ninguém. De que maneira o diploma me protege do “controle” e da “manipulação”? Confesso que acompanho há alguns anos este tipo de discussão e, até hoje, não consegui encontrar algum argumento que me faça acreditar na necessidade do diploma. Curso de jornalismo deveria ter, no máximo, seis meses de duração. O resto é enrolação.

Para pensar: diploma não é obrigatório na Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Chile, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Japão, Luxemburgo, Polônia, Reino Unido, Suécia, Suíça e tantos mais.

PARA QUEM ACHA QUE ESTOU LEGISLANDO EM CAUSA PRÓPRIA, VISITEM OS SITES LISTADOS ABAIXO:

Blog do Barata

Observatório da Imprensa

Denis Russo

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A ÉTICA DOS BACHARÉIS


Ao contrário da maioria dos colegas de redação, não me parece óbvia a necessidade da obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão. Entendo e concordo em parte com os que alegam que a formação de um profissional é muito mais que saber escrever bem, mesmo que sem essa qualidade seja muito difícil que alguém adentre ao mercado.

Mas será que os objetivos estão sendo alcançados? Eu acredito piamente que não. E meu argumento é baseado justamente nesta discussão. Vejam vocês, que tipo de jornalista está sendo formado que se preocupava mais em discutir se deve ser exigido ou não o diploma ao mesmo tempo que o Supremo Tribunal Federal discutia sobre toda a Lei de Imprensa?

O que interessa mais para a sociedade? Pelo que se viu nos últimos dias, deve-se concluir que o jornalista acredita que os leitores e afins estão mais preocupados em saber se quem escreve saiu de uma das 50 faculdades de jornalismo de Belém e não se esse mesmo profissional é consciente do seu meio. Escolhemos focalizar a discussão em nossos umbigos, que é uma parte quase insignificante do todo.

Não comentei antes para não "queimar a língua", já que aqui ficaria registrado. Esperei para ver. Não deu outra. Quem acompanhou as manifestações da classe realizadas nos últimos dois meses em todo o país deve ter ficado muito preocupado. Os sindicatos e jornalistas em marcha pela obrigatoriedade do diploma e nem uma linha sobre a reforma ou extinção da Lei de Imprensa.

Por várias vezes procurei algo no site da Fenaj que aprofundasse a discussão e que não tivesse ligação com a obrigatoriedade. Nada nas últimas semanas. E o STF encerrou as duas questões. Primeiro decidiu pela extinção da Lei de Imprensa e, ontem (17), acabou com a exigência do diploma.

O recado dado à sociedade ficou bem claro. O jornalista está mais preocupado com seu emprego que com o jornalismo. Essa é a ética dos nossos bacharéis?

sexta-feira, 12 de junho de 2009

TERROR NA CALÇADA


Vi uma velhinha sentada numa cadeira na calçada, segunda-feira. Juro que vi. Foi numa rua da Pedreira. O dia estava quente e ensolarado, e resolvi fazer a pé um trajeto que tinha de percorrer. A Pedreira é o melhor bairro para se caminhar na cidade, a vida suburbana escorre por suas ruas planas, as pessoas circulam entre o pequeno comércio bem fornido de fruteiras, açougues, sapatarias, padarias. As coisas realmente importantes da vida estão naquelas ruas. As miudezas que constroem o dia das pessoas, o pacote de Bolacha Maria do armazém, o Melhoral da farmácia da esquina, a dúzia de tachinhas da ferragem.

Então, gastava as solas dos tênis debaixo dos plátanos da Pedreira, quando a vi. Usava os cabelos brancos presos na nuca e equilibrava os óculos na ponta do nariz. Estava sentada numa cadeira de madeira, provavelmente em frente à própria casa. Fazia tricô. Nem me viu passar, concentrada que estava na peça que se formava a partir das agulhas que trançava com os dedos finos.

A princípio, temi por ela, tão sozinha, à mercê de algum mal-intencionado que por ali passasse e tencionasse subjugá-la. Depois, assimilei aquela cena como se bebesse de um tônico, como se fosse besuntado por um bálsamo. Ali estava uma réstia de civilização.

Porque a civilização tem sofrido derrotas por aqui. O Re-Pa um dia já foi o mais belo dos clássicos, com os estádios repartidos em azul marinho e azul celeste, metade para cada um - agora é, na prática, um jogo de uma torcida só. Triste... E, dias atrás, torcedores do Corinthians e do Vasco se enfrentaram numa batalha campal que terminou com um ônibus incendiado e um rapaz morto por causa do futebol. Por causa do futebol... Golpes duros na civilização.

Lembro de um tempo em que a cena da velhinha na calçada era usual. Morávamos na Marambaia, meus pais, meus irmãos e eu. À noitinha, depois do trabalho, eles e os vizinhos da Passagem Samaritana arrastavam as cadeiras da sala de casa para a calçada e se aboletavam numa roda, olhando as crianças que brincavam ali perto, contando histórias.

A maioria, histórias de terror. Um homem era ladrão de sepulturas. Um dia, sua velha mãe, descobrindo que ele exercia essa pérfida atividade, o censurou e o advertiu:

— Cuidado, os mortos vingativos podem querer te arrastar para dentro da terra, para junto deles...

O ladrão deu de ombros, mas ficou com o aviso materno latejando no fundo do cérebro, como, aliás, soem ficar os avisos maternos.

Uma noite chuvosa de inverno lá se foi ele, abrir cavoucos nos túmulos, aviltar o descanso dos espíritos. Era uma noite lúgubre, e o ladrão tremeu, lembrando-se do que a mãe lhe dissera. Prometeu a si mesmo que aquela seria a última vez que cometeria ação tão medonha. Depois daquela noite, nunca mais!

Caminhou rezando baixo pelo cemitério, o coração aos saltos, ziguezagueando por entre as cruzes. Vestia um sobretudo que esvoaçava com o vento cortante que vinha da baía do Guajará. Sentia frio. Depois de pilhar o morto, já estava se retirando, cheio de temor, quando a ponta de sua capa prendeu-se na cruz. Quis correr, não conseguiu. Parecia que estava sendo sugado para o seio da terra. Para a sepultura! Acreditou que fosse um defunto que despertara em busca de vendeta e caiu no chão do campo santo, fulminado por um ataque cardíaco.

Assim eram as histórias de terror daquela época. O máximo de medo que se podia sentir sentado numa cadeira na calçada. Hoje, uma velhinha tomando sol na calçada, fazendo tricô, é razão de espanto e, ao mesmo tempo, de júbilo. Sinal de que ainda existe civilização. Um pequeno pedaço dela, mas ainda assim civilização.
Powered By Blogger

Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.