
Já disse aqui neste blog que um dos grandes males que assolam a humanidade neste século XXI é a moda do "politicamente correto". Mas tem outro comportamento recente que me incomoda tanto quanto. É o "musicalmente correto". Um troço que traduzindo pro vulgar significa simplesmente "tolerância ao mau gosto". É aquela coisa do "é uma merda, mas temos que respeitar a cultura popular". Aí, você que não gosta de tecnobrega - por exemplo - tem que ficar calado para não ganhar fama de reacionário ou ser chamado de elitista pelos amigos.
E a desculpa tá na ponta da língua: "sou eclético". E o pior é que as pessoas aceitam esta bobagem sem pensar ou fazer qualquer questionamento minimamente racional. Não existe mais a tal da "incompatibilidades de gênero". O sujeito bota uma bermuda justa, uma camisa colorida, um tênis da moda e vai pra micareta pular ao som de Ivete Sangalo, depois desce numa boate para sacudir o esqueleto ao som de psytrance e, no final da madrugada, sobra tempo pra ouvir um Bruno & Marrone no som do carro, tomando umas cervas em um posto de gasolina. Tudo na maior harmonia.
Será que estou ficando maluco ou essas coisas são mesmo incompatíveis? Ou será que dá pro sujeito ir no show da Gabi Amarantos e voltar ouvindo Pink Floyd no carro. Tem algo errado em algum lugar dessa história.
E se você não está entendendo nada do que estou tentando dizer, vou te dar um exemplo: o pessoal do Festival Se Rasgum acabou de anunciar que ao lado de Nação Zumbi e Pato Fu também se apresentarão Pinduca e Gabi Amarantos, da banda Thecno Show.
Nada contra o "Rei do Carimbó" - pelo menos é assim que ele é visto por 99,9% do público do festival. Mas Gabi Amarantos? Francamente! É legitimar o mau gosto que fez morada no nosso amado Pará.
Eu sei que tem quem goste. Ou que pelo menos que diga que goste só pra ficar em dia com a moda ou, simplesmente, para ser "politicamente correto". Apesar de achar o som dela uma bosta, o cara não quer ser "injusto" com o estilo nascido na periferia e que ganhou o mundo através da internet e da pirataria.
Mas não me entendam mal. Não vejo nada errado em ser eclético. Eu costumo ouvir várias coisas diferentes. Mas tudo tem um limite. E o que ultrapassa esse limite é mau gosto.
Uma vez eu perguntei pra uma pessoa se ela gostava de música. Ela me respondeu ‘e quem não gosta’?
Ué, até onde eu sei, a maioria das pessoas não gosta de música. A maioria das pessoas senta lá e escuta o que tá tocando. Baixa o que tocou na festa de sábado. É o gado musical. É a "Maria Vai Com As Outras". Pior do que um fundamentalista pra um lado ou pro outro é não saber pra que lado ir.
Ser eclético, então, adquiriu essa maldita conotação pejorativa. Porque na nossa era, dizer que é eclético se traduz em não gostar de música. Num niilismo ligeiramente subvertido, a nossa sociedade transformou o gostar de tudo em gostar de nada. E a gente aceita isso como se fosse algo legal.

