quarta-feira, 28 de outubro de 2009

MARIA VAI COM AS OUTRAS


Já disse aqui neste blog que um dos grandes males que assolam a humanidade neste século XXI é a moda do "politicamente correto". Mas tem outro comportamento recente que me incomoda tanto quanto. É o "musicalmente correto". Um troço que traduzindo pro vulgar significa simplesmente "tolerância ao mau gosto". É aquela coisa do "é uma merda, mas temos que respeitar a cultura popular". Aí, você que não gosta de tecnobrega - por exemplo - tem que ficar calado para não ganhar fama de reacionário ou ser chamado de elitista pelos amigos.

E a desculpa tá na ponta da língua: "sou eclético". E o pior é que as pessoas aceitam esta bobagem sem pensar ou fazer qualquer questionamento minimamente racional. Não existe mais a tal da "incompatibilidades de gênero". O sujeito bota uma bermuda justa, uma camisa colorida, um tênis da moda e vai pra micareta pular ao som de Ivete Sangalo, depois desce numa boate para sacudir o esqueleto ao som de psytrance e, no final da madrugada, sobra tempo pra ouvir um Bruno & Marrone no som do carro, tomando umas cervas em um posto de gasolina. Tudo na maior harmonia.

Será que estou ficando maluco ou essas coisas são mesmo incompatíveis? Ou será que dá pro sujeito ir no show da Gabi Amarantos e voltar ouvindo Pink Floyd no carro. Tem algo errado em algum lugar dessa história.

E se você não está entendendo nada do que estou tentando dizer, vou te dar um exemplo: o pessoal do Festival Se Rasgum acabou de anunciar que ao lado de Nação Zumbi e Pato Fu também se apresentarão Pinduca e Gabi Amarantos, da banda Thecno Show.

Nada contra o "Rei do Carimbó" - pelo menos é assim que ele é visto por 99,9% do público do festival. Mas Gabi Amarantos? Francamente! É legitimar o mau gosto que fez morada no nosso amado Pará.

Eu sei que tem quem goste. Ou que pelo menos que diga que goste só pra ficar em dia com a moda ou, simplesmente, para ser "politicamente correto". Apesar de achar o som dela uma bosta, o cara não quer ser "injusto" com o estilo nascido na periferia e que ganhou o mundo através da internet e da pirataria.

Mas não me entendam mal. Não vejo nada errado em ser eclético. Eu costumo ouvir várias coisas diferentes. Mas tudo tem um limite. E o que ultrapassa esse limite é mau gosto.

Uma vez eu perguntei pra uma pessoa se ela gostava de música. Ela me respondeu ‘e quem não gosta’?

Ué, até onde eu sei, a maioria das pessoas não gosta de música. A maioria das pessoas senta lá e escuta o que tá tocando. Baixa o que tocou na festa de sábado. É o gado musical. É a "Maria Vai Com As Outras". Pior do que um fundamentalista pra um lado ou pro outro é não saber pra que lado ir.

Ser eclético, então, adquiriu essa maldita conotação pejorativa. Porque na nossa era, dizer que é eclético se traduz em não gostar de música. Num niilismo ligeiramente subvertido, a nossa sociedade transformou o gostar de tudo em gostar de nada. E a gente aceita isso como se fosse algo legal.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

JOGO DE CINTURA


O apresentador olha sério para a plateia e, aparentemente despretensioso, comenta: "Ainda bem que estão todos aqui hoje e ainda bem que estão de bom humor, porque tenho uma pequena história para contar. Apetece-lhes ouvir uma história?" O público reage com um "yeah" entusiasmado e aplausos, mas, à medida que o monólogo de Letterman vai avançando, rapidamente se percebe que este não é um daqueles relatos "nem vão acreditar no que me aconteceu ontem", típicos dos talkshows em horário nobre.

David Letterman foi vítima de chantagem - reação do público: "oh" - porque um outro apresentador da CBS (Robert "Joe" Handerman, uma espécie de Datena americano, que já está detido) reuniu provas de que o apresentador teve relações sexuais com mulheres no staff do programa "Late Show with David Letterman" - reação do público: "ah". "Sim, tive sexo com elas e seria muito embaraçoso que isso viesse a público [pausa dramática]. Sobretudo para elas." Reação do público: gargalhada geral.

No final da confissão, David Letterman, 62 anos, apresentador do "Late Show" há 16, o público presente no Ed Sullivan Theater rejubilava e obedecia à luz acima do palco que assinala "aplausos".

Durante dez longos minutos do prime time norte-americano, naquele dia 1º de outubro, perante mais de cinco milhões de espectadores (número que o Youtube se encarregou de multiplicar nas horas e dias seguintes), David Letterman mergulhou num assunto sensível e transformou-o numa piada. Aquele que poderia ser o momento mais constrangedor da sua vida como apresentador de TV passou a piada ligeira graças a um jogo de cintura digno de uma dançarina de axé.

Nos jornais do dia seguinte, a notícia era "David Letterman revela tentativa de extorsão" e não "Apresentador do 'Late Show' admite assédio sexual e adultério". E isto, para Troy Patterson, editor da revista "Slate", é um excelente exemplo de gestão de crise. "A última frase arruma o assunto. É uma maneira brilhante de libertar a tensão", escreveu no blogue "Brow Beat".

Poucas horas depois de Letterman abrir o jogo sobre o escândalo, que até aquele momento mantinha-se oculto para o público, o "New York Times" criou uma página para receber os comentários dos leitores sobre o assunto. As reações são, na sua maioria, bem-humoradas e de admiração pelo gesto do apresentador: "Aquele otário escolheu o tipo errado para fazer chantagem" ou "Podemos esperar agora uma carreira política de Letterman, já que ele mostrou ter todos os requisitos para servir à sociedade civil".

Mas houve quem apontasse para um pormenor que acabou por passar despercebido: "Ele fez-se passar por vítima e nem sequer pediu desculpas. Os aplausos que recebeu depois de admitir que teve sexo com aquelas mulheres foram repugnantes", assinala Roger, um leitor do Texas.

Se Letterman teve sexo com mulheres que trabalham para ele, então ele pode ser acusado de um crime: assédio sexual. A CBS admitiu que vai investigar o caso, mas deverá fazê-lo timidamente.

Executivos da rede de TV norte-americana admitiram ao "New York Times" que não vão incomodar uma das caras mais emblemáticas da estação a não ser que fique provada uma de duas coisas: alguma das mulheres era menor ou o sexo foi usado como forma de manter o emprego.

Quando o assunto é a traição e a situação familiar de Letterman, a opinião pública refugia-se numa espécie de puritanismo burocrático. O apresentador casou-se em março deste ano com a sua namorada de há 23 anos, Regina Lasko. Para muitos comentadores, se as relações agora descobertas aconteceram antes desta data, então Letterman não traiu "oficialmente". Mas se isso é suficiente para ilibar o homem aos olhos do público, em casa ele não deverá se safar apenas com uma piada.
Powered By Blogger

Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.