terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O VÍDEO MAIS ENGRAÇADO DO ANO


Você sabe o que significa a sigla do partido DEM? Democratas. Pois bem, vou lembrar-lhe agora qual é a origem desse DEM, e você vai achar que o nome do partido é ironia. Não é. É pior.

É deboche.

Porque o DEM é sucedâneo de nada menos do que o PFL, que por sua vez é sucedâneo de nada menos do que a Arena, que era nada menos do que o partido de sustentação da ditadura militar.

Sei que muitos sentem saudade dos tempos da ditadura militar. Não os julgo, cada um com suas convicções e preferências. Mesmo estes, porém, haverão de admitir que a ditadura é o oposto da democracia. Não por razões ideológicas; por razões conceituais. Desde que os ingleses estabeleceram a monarquia constitucional, no século 17, pode-se ter democracia até havendo um rei. Havendo um ditador, não. Logo, quem defende a ditadura é contra a democracia.

O PFL defendia a ditadura.

E agora o PFL se chama “Democratas”.

Um nome desses para um partido desses só pode ser caso de escárnio cruel. Eles são os “Democratas”... Por favor!

Alguém talvez pergunte os motivos que levaram o PFL a trocar de nome. Afinal, trata-se de uma mudança incomum. Quando o Brizola voltou ao Brasil, em 1979, ele queria desesperadamente retomar o comando de seu velho partido, o PTB.
Seria uma união perigosa para os interesses da ditadura — Brizola tinha prestígio como líder político e o PTB tinha prestígio como defensor dos interesses dos trabalhadores. O governo precisava apartar um de outro, e trabalhou intensamente para que isso acontecesse. Conseguiu. A sigla ficou com a sobrinha-neta de Getúlio Vargas, Ivete Vargas. Brizola chorou quando a Justiça lhe subtraiu os direitos sobre sua antiga legenda. E a ditadura atingiu seu objetivo: nem o PTB de Ivete nem o PDT de Brizola recuperaram o patrimônio trabalhista do PTB de Getúlio e Jango. A herança do velho PTB, de certa forma, foi arrebatada depois pelo PT, mas essa é outra história.

O importante é que o antigo PTB tinha um nome a zelar. Era uma sigla poderosa.

O antigo MDB também se orgulhava de seu nome, tanto que o senador Pedro Simon não chama seu partido de PMDB, chama de MDB. Está certo, o Simon: esse MDB com pê na frente assemelha-se muito ao PFL no quesito fisiologismo — o PFL fazia qualquer negócio para se acochambrar com o poder. Só que o PMDB não sustentava a ditadura. O PFL, sim. Por isso, o PFL teve que trocar de nome — até as pessoas menos esclarecidas já intuíam o que o partido representava.

E agora o PFL se chama “Democratas”...

É por isso que exultei ao assistir aos vídeos daqueles caras do DEM-PFL-Arena recebendo pacotes de dinheiro escuso, não tendo bolsos em número suficiente para meter tanto dinheiro em seus ternos bem cortados, sendo obrigados a enfiar maços de notas de 50 nos carpins. Foi bonito aquilo, porque mostrou a verdadeira cara do DEM.

Que é o PFL.

Que era o pior pedaço da Arena.

É possível que existam homens dignos no DEM. Não devia. Democratas não consentem em conviver com tamanha contradição. Democratas não defendem a ditadura.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

BRAZUCAS MAU-HUMORADOS


Robin Williams é um comediante medíocre. Como ator dramático ele até que já teve seus momentos, como em "Bom Dia, Vietnã" e "Sociedade dos Poetas Mortos", mas contando piada é ridículo. Mas não é que o cara às vezes também dá uma dentro. Uma dessas foi a piadinha sobre o Rio. Segundo ele, a cidade escolhida para sediar os Jogos Olímpicos de 2016 ofereceu cocaína e strippers para levar a disputa. Em contrapartida, Chicago tentou com Michele Obama e Oprah Winfrey.

Sacaram a piada, né? Para ele, a primeira-dama e a apresentadora milionária estão na mesma categoria dos outros produtos de marketing. Só que o Rio foi mais "malandro" e levou a Olimpíada. Nada de anormal, tirando a reação reacionária brasileira, como sempre. Não suportamos que brinquem com nossa imagem. Quando Os Simpsons falaram que tínhamos macacos andando pelas ruas da mesma cidade quase morremos. Mas adoramos tirar um sarro com os outros, certo? George W. Bush que o diga.

O povo por aqui anda muito estressado. Você não pode tirar um sarro do Rio. Muito menos brincar com um torresmo (delícia). Não demora e a patrulha dos ordinários politicamente corretos chega para encher de graça a piada. O brasileiro está ficando este povo chato que vê pelo em qualquer ovo. É o paredão da chatice. Tão chato que faz Robin Williams parecer engraçado.

O Rio é uma cidade maravilhosa, onde até helicópteros caem do céu. Feito de bandidos de uma criatividade ímpar, que sempre descobrem formas inusitadas de usar carrinhos de mercado e pneus usados. Nunca diga, porém, que tem prostitutas e drogas. Isso é coisa de corno.

Existem ainda aqueles que se regozijaram com a piada, contada logo na abertura da entrevista do comediante ao programa Late Show, apresentado por David Letterman, e exibido no Brasil pelo canal fechado GNT. Esses interpretaram o chiste como uma análise profunda da sociedade brasileira. Acreditam que Robin Williams criticou nosso gosto cada vez maior por belas dançarinas, de bundas empinadas e durinhas, pela música de mau-gosto que vem da favela ou das periferias em geral, além de cutucar nossa incapacidade de enfrentar o tráfico de drogas. Sinto dizer, mas estes são ainda mais ingênuos.

O que Robin Williams fez foi apenas uma piada. Aliás, uma das poucas coisas com alguma graça que ele fez na entrevista em questão. Uma piada que teria passado despercebida não fosse a reação desproporcional dos brazucas mau-humorados.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

PORQUE O FLAMENGO É HEXA!!!


Nessa postagem publico um texto produzido pelo jornalista esportivo Paulo Vinícius Coelho, o PVC , no qual ele esclarece a polêmica sobre o Campeonato Brasileiro de 1987 e dá a sua opinião sobre o assunto. Faço minhas, as palavras dele.

"Como prometi no ar, explico tudo o que aconteceu em 1987.

A história começa em 1986.

Até aquele ano, os campeonatos estaduais eram classificatórios para o Brasileiro. Os seis primeiros de São Paulo, os cinco primeiros do Rio, os dois melhores do Mineiro, do Gaúcho, do Pernambucano, os campeões estaduais de outros estados se classificavam.
Assim, entre 1980 e 1986, o Brasileirão teve 40 clubes na primeira divisão (Taça de Ouro, Copa Brasil) e quatro que se classificavam do torneio de acesso (Taça de Prata, Torneio Paralelo, nome oferecido em 1986).

Em 1986, a CBF prometeu mudar o sistema e criar, para 1987, a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro. Os 24 melhores de 1986 formariam a Série A do ano seguinte.

Terminado o campeonato, a CBF mudou de idéia. Primeiro, afirmou que não tinha condição financeira de promover o torneio. Foi quando os grandes se rebelaram e fizeram o movimento que criou o Clube Dos Treze. Os fundadores (Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Grêmio, Internacional, Atlético Mineiro, Cruzeiro e Bahia) anunciaram que disputariam um campeonato próprio, organizado por eles mesmos.

A CBF, então, se mobilizou e anunciou que faria o campeonato com 40 clubes. Os grandes fizeram uma composição com a CBF, mas criaram a Copa União, com a participação, também, de Santa Cruz, Goiás e Coritiba. A CBF criou o regulamento, que previa o cruzamento de campeão e vice do Módulo Verde (Copa União) com campeão e vice do Módulo amarelo (a suposta segunda divisão). O Clube dos 13 dizia que não disputaria o cruzamento, a CBF dizia que haveria o cruzamento. Essa confusão se deu porque o representante do Clube dos 13 na CBF era Eurico Miranda. O Eurico aceitou o acordo com a CBF, mas, quando informou a direção do Clube dos 13, esta recusou veementemente. O campeonato começou com a CBF dizendo que haveria o cruzamento, o Clube dos 13 dizendo que não aceitava e que não disputaria.

Nesse ínterim, o Brasil inteiro assistiu à Copa União como o Campeonato Brasileiro, sem dar muita atenção ao que aconteceria no final do ano. A TV Globo transmitia para o Brasil inteiro, um jogo por rodada sorteado quinze minutos antes da partida começar, às 17h do domingo. Pernambuco também vivia assim, porque acompanhava o Santa Cruz no torneio.

E assim o Flamengo venceu o Brasileirão, a Copa União, em 13 de dezembro de 1987. No mesmo dia, o presidente do Flamengo, Márcio Braga, um dos líderes da criação do Clube dos Treze, reafirmou que não haveria cruzamento.

Enquanto isso, no mesmo dia, Guarani e Sport se classificaram para a decisão do Módulo Amarelo, decidido nos pênaltis. O empate persistiu tanto que ao chegar aos 11 x 11, nas cobranças de pênalti, os dois presidentes decidiram que o torneio terminaria empatado.
Sport e Guarani foram proclamados campeões empatados do Módulo Amarelo pela CBF. Tinham a perspectiva de disputar o cruzamento com Inter e Flamengo.

No início de 1988, a CBF fez a tabela. Sport e Guarani entravam em campo nas partidas marcadas contra Inter e Flamengo. Sem adversário, eram proclamados vencedores por W.O. Na decisão do “Campeonato Brasileiro”, o Sport enfrentou o Guarani, empatou o jogo de ida por 1 x 1, em Campinas, venceu no Recife por 1 x 0, gol do zagueiro Marco Antônio. A CBF proclamou o Sport campeão brasileiro de 1987.

Agora vai minha opinião:

Flamengo campeão legítimo de 1987, porque o Brasil inteiro acompanhou a Copa União como o Campeonato Brasileiro.
O Sport não pode ser descartado, porque é oficial.

E eu preciso contar a história inteira. Por isso, embora eu julgue o Flamengo o campeão legítimo, quando me perguntam, digo: Flamengo e Sport são campeões de 1987. É o único jeito de alimentar a curiosidade e contar a história inteira, como todo mundo merece saber".


Texto de Paulo Vinícius Coelho
(Comentaista dos canais ESPN e ESPN Brasil e colunista da Folha de S.Paulo)

domingo, 6 de dezembro de 2009

LULA, O FILHO DO BRASIL


Desde o pré-lançamento de "Lula, o filho do Brasil", no Festival de Cinema de Brasília, uma chuva de críticas inundou os jornais e revistas. Há entre os detratores do filme os que consideram a obra um disparate por se tratar da história de um presidente que está em pleno mandato. Classificam esse tipo de cinebiografia como propaganda política e acusam o produtor Luiz Carlos Barreto de querer criar um mito vivo.

A jornalista e escritora Denise Paraná, autora da biografia de Lula, diz que o filme é uma cópia fiel de seu livro. A obra da jornalista ficou conhecida em 2003, depois da eleição de Lula para a Presidência da República. Mas bem antes disso, em 1996, eu já conhecia o livro. Se o filme é fiel ao livro, tem tudo para não ser uma propaganda política, como querem muitos críticos.

Pode ser exagero condenar a obra só porque o personagem principal representa o presidente de um país em pleno exercício do mandato. 2 Filhos de Francisco, que narra a história da dupla Zezé di Camargo e Luciano, teve grande sucesso de público e nem por isso foi considerado uma tentativa de transformar os dois músicos de Goiás em mitos vivos.

Assim como a história de Zé di Camargo e Luciano, a biografia de Lula é interessante e ponto final. Aí está o motivo por surgirem livros, filmes, documentários e outras produções. É natural que isso ocorra. Nos Estados Unidos, após a eleição de Obama pipocaram publicações para todos os gostos sobre a vida do primeiro presidente negro do país. E já estão falando em transformar a biografia do menino criado no Havaí em uma megaprodução de Hollywood.

Se até a ex-governadora Alasca Sarah Palin, candidata republicana derrotada à vice-presidência dos EUA, publicou sua biografia e fez grande sucesso, por que a história de Lula não pode virar filme? Só porque ele é filho de retirantes nordestinos? Quem não gosta do presidente não precisa ir ao cinema.

Em tempo: O Serra, governador de São Paulo, é um bom personagem para filme. Tem uma história de vida interessante: foi líder estudantil, lutou contra a ditadura militar e passou anos no exílio; voltou para o Brasil e deu a volta por cima.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O QUE O GRÊMIO DEVE FAZER?


É mais do que ingenuidade, é tolice pretender que o Grêmio escale titulares e cometa desatinos para ganhar ou empatar o jogo com o Flamengo, no domingo. Pior: isso seria ruim até para o Inter, sobretudo se o Inter se sagrasse campeão.
Seria a negação de tudo o que representa o futebol gaúcho.

O Grêmio é grande devido à grandeza do Inter.
E a premissa contrária também é verdadeira: o Inter é grande devido à grandeza do Grêmio.

Mas isso só acontece porque existe a rivalidade entre os dois clubes. Um inveja a grandeza do outro, mira-se nela e tenta superá-la. Porque eles vivem para essa dualidade, porque as torcidas se provocam e se xingam eternamente, porque um existe para ser melhor do que o outro. No momento em que um ajudar o outro dentro de campo, se extinguirá a essência da dupla Gre-Nal.

Afinal, isso é o futebol. O futebol não é um esporte, em que o atleta luta contra si mesmo, tenta superar os seus próprios limites com movimentos repetidos, com treino, dedicação e concentração. Não. O futebol é um jogo, com todas as nuances de um jogo, onde entram a força, a velocidade e a habilidade, sim, mas também a inteligência, a perspicácia, a malícia.

No futebol, o torcedor de um time anseia pela derrota do rival, mesmo que seja para outros times. Não há nada de mal nisso. Não significa que um queira o mal do outro, não significa a destruição do outro. Para entender melhor é só pensar na nossa dulpla aqui de cima. Remo e Paysandu vivem uma relação idêntica. O remista quer sempre que o Paysandu perca, o bicolor quer sempre que o Remo perca. Mas isso é diferente de o remista desejar o mal ao bicolor ou do bicolor desejar o mal ao remista. Remistas e bicolores convivem todos os dias no Pará, são colegas de trabalho, amigos, alguns até estão casados.

Portanto, não é errado um torcer pelo insucesso do outro. Porque o futebol é um jogo, não é a vida.

O futebol não passa de uma brincadeira. E é bom que assim seja.

Pretender eliminar essa rivalidade em nome de uma demagógica integridade de uma competição é eliminar a lógica do futebol.

É acabar com sua razão de ser.

É óbvio que o Grêmio não vai pisar no campo do Maracanã programado para perder. Nenhum jogador vai marcar gol contra de propósito, o goleiro não deixará de tentar a defesa, o atacante, se tiver oportunidade, fará o gol a favor. O Flamengo que não se desconcentre, se quiser ser campeão.

Mas também é óbvio que nenhum jogador do Grêmio arriscará a tíbia numa dividida temerária, nem correrá mais do que correria numa partida de meados do campeonato. O Grêmio de domingo não jogará de mão no bolso, mas também não jogará de faca entre os dentes. Jogará um amistoso contra um time que jogará uma final de campeonato. Assim como o Corinthians fez contra o Flamengo.

E tem de ser assim.

Pela honra da rivalidade.

Pela honra da Dupla Gre-Nal.

Em nome do espírito do futebol.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

BASTARDOS INGLÓRIOS // A PAIXÃO DE TARANTINO PELO CINEMA


Cineastas como Ingmar Bergman, François Truffaut e Jean-Luc Godard demonstraram mais de uma vez a paixão pelo cinema por meio do próprio cinema. Essa mesma paixão filmada sobre o cinema continua a chegar ao espectador, de forma clara e autêntica, atráves de Quentin Tarantino. Quem conhece sua obra poderá concordar que seu amor pelos movimentos, estéticas e tons do cinema como desenvolvimento histórico não parece ter limites, assim como seu talento. No entanto, é em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, EUA/Alemanha, 2009) que esse amor é mostrado com perfeição.

Em seu sexto filme - o mais autoral de todos e, sem exagero, o melhor deles -, Tarantino surge como um diretor maduro, que se dá o direito de perder totalmente o respeito pelas respostas prontas ou pelas regras da indústria. Ele desmonta e remonta a obra a seu bel prazer, passeia por enquadramentos, por quebras de narrativa, mostra sequências românticas e matanças desenfreadas sem perder a mão em nenhum momento - nem mesmo na escolha da trilha sonora. E tudo isso sustentado por um roteiro que não desperdiça uma única vírgula e cujo discurso falado e filmado é o de uma paixão espetacular pela imagem projetada do cinema.

E ainda assim, surpreendentemente, Tarantino terminou por fazer um dos seus filmes mais populares - resultado de dez anos de trabalho árduo na criação do roteiro e na escolha milimétrica do elenco e das locações.

Temos então uma aventura da 2ª Guerra Mundial, a guerra que Hollywood conseguiu transformar em entretenimento para as massas dado o aspecto vitorioso do conflito e a clareza cristalina dos vilões em quadro, os nazistas. A base utilizada é o "filme de missão", onde um grupo de soldados parte para o território inimigo com um objetivo explicado claramente numa cena obrigatória de briefing.

No caso do grupo titular, todo composto por judeus, a missão é trucidar nazistas, escalpelando-os. O comandante da missão, Aldo Raine (Brad Pitt, presença), exige que cada soldado traga de volta não menos do que 100 escalpos alemães.

Curiosamente, Bastardos Inglórios termina sendo menos sobre isso e mais sobre o prazer de filmar e contar uma história utilizando as ferramentas do cinema como narrativa. Os bastardos aparecem o suficiente para honrar o título do filme, mas imagens da missão são esporádicas e econômicas - porém não menos violentas.

Ciente das excentricidades desse gênero, Tarantino deixa de lado a ação e prefere nos dar momentos intimistas de tensão. A sequência de abertura estabelece esse tom em 20 minutos realmente fascinantes onde o coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz, prêmio de ator no Festival de Cannes pelo papel) intimida lenta e educadamente um fazendeiro francês (Denis Menochet, perfeito). O alemão acredita, com a certeza sádica de um burocrata do inferno, que a fazenda esconde uma família de judeus.

A métrica desse diálogo é assombrosa, a conversa acompanhada por uma articulação de planos riquíssima como linguagem de cinema. O diálogo é inicialmente falado em francês, depois cinicamente trocado para o inglês do cinema americano. É o primeiro ponto de interesse de Tarantino, o falar, que não seria uma novidade na sua obra se ele não tivesse uma nova dimensão para brincar.

Pela primeira vez, trabalha com línguas estrangeiras (francês, alemão e italiano), e o acordo ao qual ele chegou nesse sentido é notável. Nos dá uma releitura do cinema hollywoodiano que impõe o inglês como língua mágica e onipresente para um mundo externo, aqui respeitando e revirando esse conceito como no outro momento importante da alta tensão oral no filme, a sequência na taberna.

Bastardos Inglórios, no entanto, tem o coração batendo forte por um outro elemento, a sala de cinema, um dos personagens do filme. Estamos na década de 2000, a tecnologia muda a cada ano o nosso sentido de exibição, o celulóide morre aos poucos. Realizadores como Tarantino registram o filme (fita, fotograma, carretel) como matéria orgânica do seu filme.

A dona e programadora do cinema parisiense lindamente art-déco para onde Bastardos Inglórios converge é uma judia francesa (Mélanie Laurent, linda e perfeita no papel), Shosanna Dreyfus. "somos franceses, respeitamos os cineastas", responde ao comentário de um soldado alemão impressionado que, mesmo na França ocupada, ainda programe GW Pabst, cineasta alemão.

Shosanna é ainda a dona de um acervo de centenas de cópias em nitrato (susbtância inflamável usada antes dos anos 50 para fazer celulóide), que poderão fazer diferença explosiva no sentido de mudar o rumo da história. No mundo do cinema, claro, o filme (matéria) tem força descomunal para mudar o mundo, mesmo que via sacrifício. Tarantino atinge o clímax ao nos dar uma sequência belíssima de morte na cabine de projeção, uma reflexão sobre morrer no cinema e continuar vivo através das imagens.

NOTAS

Inspiração e participações

Com duas horas e meia de duração, Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, foi inspirado pelo filme italiano Assalto ao Trem Blindado, de 1978. Enzo G. Castellari, diretor do original chegou a atuar no longa de Tarantino, no papel de um oficial nazista. Já Bo Svenson, um dos atores do filme italiano participa de Orgulho de uma Nação, filme exibido dentro de Bastardos Inglórios, que conta com a direção de Eli Roth, cineasta autor de O Albergue. Roth ainda interpreta o papel do Urso Judeu.

Mais uma do Moviecom

É lamentável que o filme tenha recebido classificação 18. Priva o público adolescente de ver algo realmente bom, sendo exibido nos multiplexes, algo que, pelas minhas contas, só acontece umas 3 vezes por ano. Além disso, é muito discutível essa classificação, para um filme que se passa claramente no mundo do cinema. Tão estranho quanto é a decisão do Moviecom/Belém que limitou o filme a uma única sala (a 1 do Pátio Belém) e com direito a somente duas sessões por dia.

Continuação

Em entrevista coletiva antes de inaugurar a sétima edição do Festival de Cinema de Morelia, no México, Quentin Tarantino afirmou que o roteiro de "Bastardos Inglórios" é bastante grande e que lhe permitirá continuar com uma sequência para mostrar todos seus personagens. O cineasta disse estar "muito intrigado em levar os personagens a partir do que acontece antes e depois deste filme".

Exausto

Tarantino, que havia prometido comparecer à estréia de seu filme no Brasil, desistiu uma semana antes por estar exausto das viagens de lançamento.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

MARIA VAI COM AS OUTRAS


Já disse aqui neste blog que um dos grandes males que assolam a humanidade neste século XXI é a moda do "politicamente correto". Mas tem outro comportamento recente que me incomoda tanto quanto. É o "musicalmente correto". Um troço que traduzindo pro vulgar significa simplesmente "tolerância ao mau gosto". É aquela coisa do "é uma merda, mas temos que respeitar a cultura popular". Aí, você que não gosta de tecnobrega - por exemplo - tem que ficar calado para não ganhar fama de reacionário ou ser chamado de elitista pelos amigos.

E a desculpa tá na ponta da língua: "sou eclético". E o pior é que as pessoas aceitam esta bobagem sem pensar ou fazer qualquer questionamento minimamente racional. Não existe mais a tal da "incompatibilidades de gênero". O sujeito bota uma bermuda justa, uma camisa colorida, um tênis da moda e vai pra micareta pular ao som de Ivete Sangalo, depois desce numa boate para sacudir o esqueleto ao som de psytrance e, no final da madrugada, sobra tempo pra ouvir um Bruno & Marrone no som do carro, tomando umas cervas em um posto de gasolina. Tudo na maior harmonia.

Será que estou ficando maluco ou essas coisas são mesmo incompatíveis? Ou será que dá pro sujeito ir no show da Gabi Amarantos e voltar ouvindo Pink Floyd no carro. Tem algo errado em algum lugar dessa história.

E se você não está entendendo nada do que estou tentando dizer, vou te dar um exemplo: o pessoal do Festival Se Rasgum acabou de anunciar que ao lado de Nação Zumbi e Pato Fu também se apresentarão Pinduca e Gabi Amarantos, da banda Thecno Show.

Nada contra o "Rei do Carimbó" - pelo menos é assim que ele é visto por 99,9% do público do festival. Mas Gabi Amarantos? Francamente! É legitimar o mau gosto que fez morada no nosso amado Pará.

Eu sei que tem quem goste. Ou que pelo menos que diga que goste só pra ficar em dia com a moda ou, simplesmente, para ser "politicamente correto". Apesar de achar o som dela uma bosta, o cara não quer ser "injusto" com o estilo nascido na periferia e que ganhou o mundo através da internet e da pirataria.

Mas não me entendam mal. Não vejo nada errado em ser eclético. Eu costumo ouvir várias coisas diferentes. Mas tudo tem um limite. E o que ultrapassa esse limite é mau gosto.

Uma vez eu perguntei pra uma pessoa se ela gostava de música. Ela me respondeu ‘e quem não gosta’?

Ué, até onde eu sei, a maioria das pessoas não gosta de música. A maioria das pessoas senta lá e escuta o que tá tocando. Baixa o que tocou na festa de sábado. É o gado musical. É a "Maria Vai Com As Outras". Pior do que um fundamentalista pra um lado ou pro outro é não saber pra que lado ir.

Ser eclético, então, adquiriu essa maldita conotação pejorativa. Porque na nossa era, dizer que é eclético se traduz em não gostar de música. Num niilismo ligeiramente subvertido, a nossa sociedade transformou o gostar de tudo em gostar de nada. E a gente aceita isso como se fosse algo legal.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

JOGO DE CINTURA


O apresentador olha sério para a plateia e, aparentemente despretensioso, comenta: "Ainda bem que estão todos aqui hoje e ainda bem que estão de bom humor, porque tenho uma pequena história para contar. Apetece-lhes ouvir uma história?" O público reage com um "yeah" entusiasmado e aplausos, mas, à medida que o monólogo de Letterman vai avançando, rapidamente se percebe que este não é um daqueles relatos "nem vão acreditar no que me aconteceu ontem", típicos dos talkshows em horário nobre.

David Letterman foi vítima de chantagem - reação do público: "oh" - porque um outro apresentador da CBS (Robert "Joe" Handerman, uma espécie de Datena americano, que já está detido) reuniu provas de que o apresentador teve relações sexuais com mulheres no staff do programa "Late Show with David Letterman" - reação do público: "ah". "Sim, tive sexo com elas e seria muito embaraçoso que isso viesse a público [pausa dramática]. Sobretudo para elas." Reação do público: gargalhada geral.

No final da confissão, David Letterman, 62 anos, apresentador do "Late Show" há 16, o público presente no Ed Sullivan Theater rejubilava e obedecia à luz acima do palco que assinala "aplausos".

Durante dez longos minutos do prime time norte-americano, naquele dia 1º de outubro, perante mais de cinco milhões de espectadores (número que o Youtube se encarregou de multiplicar nas horas e dias seguintes), David Letterman mergulhou num assunto sensível e transformou-o numa piada. Aquele que poderia ser o momento mais constrangedor da sua vida como apresentador de TV passou a piada ligeira graças a um jogo de cintura digno de uma dançarina de axé.

Nos jornais do dia seguinte, a notícia era "David Letterman revela tentativa de extorsão" e não "Apresentador do 'Late Show' admite assédio sexual e adultério". E isto, para Troy Patterson, editor da revista "Slate", é um excelente exemplo de gestão de crise. "A última frase arruma o assunto. É uma maneira brilhante de libertar a tensão", escreveu no blogue "Brow Beat".

Poucas horas depois de Letterman abrir o jogo sobre o escândalo, que até aquele momento mantinha-se oculto para o público, o "New York Times" criou uma página para receber os comentários dos leitores sobre o assunto. As reações são, na sua maioria, bem-humoradas e de admiração pelo gesto do apresentador: "Aquele otário escolheu o tipo errado para fazer chantagem" ou "Podemos esperar agora uma carreira política de Letterman, já que ele mostrou ter todos os requisitos para servir à sociedade civil".

Mas houve quem apontasse para um pormenor que acabou por passar despercebido: "Ele fez-se passar por vítima e nem sequer pediu desculpas. Os aplausos que recebeu depois de admitir que teve sexo com aquelas mulheres foram repugnantes", assinala Roger, um leitor do Texas.

Se Letterman teve sexo com mulheres que trabalham para ele, então ele pode ser acusado de um crime: assédio sexual. A CBS admitiu que vai investigar o caso, mas deverá fazê-lo timidamente.

Executivos da rede de TV norte-americana admitiram ao "New York Times" que não vão incomodar uma das caras mais emblemáticas da estação a não ser que fique provada uma de duas coisas: alguma das mulheres era menor ou o sexo foi usado como forma de manter o emprego.

Quando o assunto é a traição e a situação familiar de Letterman, a opinião pública refugia-se numa espécie de puritanismo burocrático. O apresentador casou-se em março deste ano com a sua namorada de há 23 anos, Regina Lasko. Para muitos comentadores, se as relações agora descobertas aconteceram antes desta data, então Letterman não traiu "oficialmente". Mas se isso é suficiente para ilibar o homem aos olhos do público, em casa ele não deverá se safar apenas com uma piada.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

É PROIBIDO FUMAR EM BELÉM// Mas não em Ananindeua


O maior exemplo da luta antitabagista mundo afora vem de um pequeno território encravado entre a China e a Índia. No reino do Butão, rodeado pelo Himalaia, é proibido qualquer tipo de comércio envolvendo tabaco. O consumo, na encolha, só pode ser feito dentro de casa. O difícil é achar o que consumir. A decisão, inédita em todo o mundo, foi tomada há cinco anos.

"É para o bem-estar do povo, para proteger o meio ambiente e preservar nossa cultura", justificou Lily Wangchuz, porta-voz da embaixada do país em Nova Délhi, à BBC. Confesso que não estou em dia com meus estudos sobre o estilo de vida butanês, por isso não sei dizer se o consumo no país, estimado em 1% da população de 700 mil habitantes na época, caiu. Provavelmente sim.

Proibir o consumo de cigarro parece-me impossível, principalmente quando encontros acontecem pelo mundo discutindo a liberação de outras drogas. A Argentina, nossa vizinha adorável, acaba de aprovar a criação de bares onde o consumo de maconha é permitido. O discurso, portanto, seria, no mínimo, incoerente. Daí volta-se para o comércio, com controle de acesso. É o caso do Butão, controlado por uma monarquia parlamentarista que gosta de proibir as coisas, como a televisão e o turismo. É só ler o único jornal de lá.

Mas os meios justificam os fins? Talvez. Um pouco mais próximas, Londres e Nova York têm leis duríssimas contra o consumo de cigarro. A ideia é dificultar ao máximo a vida de quem fuma para que, espontaneamente, largue o vício. Recentemente, São Paulo proibiu o fumo em qualquer ambiente público fechado, incluindo bares, restaurantes e afins. Hoje, a Câmara Municipal de Belém decretou o fim até dos "fumódromos" a céu aberto. O sujeito não pode fumar nem na parada de ônibus, pois a lei vale para qualquer lugar onde haja aglomeração de pessoas. Era onde queria chegar.

Para mim, é claro que o bem coletivo é maior que o individual, menos em casos em que seja flagrante o desrespeito contra a liberdade do indivíduo. E a proibição destes locais pode ser boa e ruim. Explico. Proibir "fumódromos" em empresas é valido. Não acho que os patrões tenham que pagar pela sua hora de fumo. Do outro lado, proibir espaços reservados em ambientes de lazer, como bares, já é demais.

O comércio de cigarros é gigantesco no Brasil e uma grande fonte de renda para o governo. Um cigarro que custa R$ 4,50 rende aproximadamente R$ 3 em impostos. É um grande negócio e proibir a venda no Brasil, como fez Butão, parece algo impossível. Agora veja o lado do fumante que paga impostos e também quer se divertir. Vai num bar e sente vontade de pitar. Dirige-se a um ambiente reservado para isso e pronto. No que interfere na vida dos outros clientes? Por que acabar com estes espaços? De algum modo, penso, é cercear certas liberdades de alguém que escolheu, por vontade própria, puxar um fumo.

O leitor poderia argumentar que os fumantes geram um custo ao estado que é pago por todos, o que tornaria um caso de saúde pública. Concordo em partes. A afirmação seria verdadeira se o governo comparasse a receita dos impostos do cigarro versus gastos com doenças provocadas pelo tabaco. Se o primeiro valor for maior, a premissa é falsa. Só números oficiais poderiam clarear esta questão.

Talvez a proibição venha de um certo temor dos governos que os "fumódromos" se transformem em locais mais divertidos que os bares. E isso acontece. Em Tallin, capital da Estônia, os locais destinados recebem mais movimento que os locais proibidos. E não é só fumante que aparece por lá. Ou seja, há uma gama de não-fumantes que suporta o vício alheio para não perderem a companhia. É uma questão de escolha preservando um ambiente limpo para os que não suportam baforadas de fumaça.

Mas tudo isso é conversa entre amigos. Vamos ser práticos. Se você é fumante e quer dar umas baforadas entre um copo e outro, não tem outra saída. O negócio é pegar a BR-316 e ir tomar umas cervas em Ananindeua. Lá, pelo menos até o momento, não existe lei antifumo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

PAYSANDU QUER TER DIRETOR REMUNERADO


Com o futebol exigindo cada vez mais profissionalização dos clubes, a contratação de diretores remunerados virou fato corriqueiro em centros mais desenvolvidos. O vitorioso Palmeiras dos anos 90 foi o precursor. Quando firmou parceria com a Parmalat, em 91, contratou José Carlos Brunoro, dando início à arrancada que culminou nos bicampeonatos brasileiro e paulista (93/94).

Mas é preciso que o profissional contratado conheça a fundo a realidade que vai enfrentar. E que o clube esteja preparado para suportar a fase de implantação do trabalho, quando os resultados ainda estiverem em maturação. No Palmeiras, Brunoro encontrou este clima. A diretoria do clube e a multinacional souberam esperar e os títulos vieram, além de dinheiro com consequente valorização dos jogadores.

Há alguns anos, Corinthians-SP e Atlético-MG também contrataram profissionais para dirigir o futebol. José Roberto Guimarães e Bebeto de Freitas, respectivamente, ambos técnicos de vôlei, assim como Brunoro e Paulo Russo, este atuou na área administrativa do Santa Cruz-PE e do Corinthians.

Agora, o Paysandu também investe na profissionalização do seu Departamento de Futebol. Anuncia que em breve terá o administrador de empresas Alberto Maculan, ex-diretor do Atlético-PR,coordenando seu Departamento de Futebol. A mudança vem no bojo de uma crise política que provocou o afastamento de vários dirigentes, insatisfeitos com o centralismo de Luiz Omar. Vamos torcer para que a mudança não venha prejudicar o time, ainda abatido com mais um fracasso na tentativa de retornar à Série B.

Mas é bom lembrar que as diferenças são grandes em relação aos clubes do Sul e Sudeste. Não há uma multinacional por trás e o dinheiro na Curuzu não anda fácil. Às vezes falta até para a regularização de jogadores. Além disso, é bom que os dirigentes do clube estejam cientes de que diretor remunerado não pode ser sócio ou empresário de jogador. É impossível servir a dois senhores ao mesmo tempo.

De certo, o presidente Luiz Omar Pinheiro vai ficar mesmo com a missão de fazer a equipe ter uma campanha bem melhor do que a desse ano. No mínimo. Caso contrário, vai enfrentar uma pesada oposição nas próximas eleições do clube bicolor.

sábado, 5 de setembro de 2009

UM ANO DE BLOG DO SALES E O SHOW DO SCORPIONS EM BELÉM


Há um ano este pequeno e humilde blog dava os seus primeiros passos. Para comemorar o primeiro ano desse espaço pessoal no qual publico minhas reminiscências sobre os mais diversos assuntos resolvi republicar aqui uma das primeiras postagens dele.

Como há um ano também a banda alemã Scorpions fazia um grande show em Belém, escolhi o texto no qual falo sobre este espetáculo internacional jamais visto na terra de Nilson Chaves.


HARD ROCK NOSTÁLGICO

Foi só botar os pés no estacionamento do Parque de Exposições, onde está instalado o Cidade Folia, para choverem cambistas por tudo que é lado. "Olha o ingresso, olha o ingresso", "Tô vendendo", "Tô comprando", repetiam a toda hora. Antes do show, estavam vendendo os ingressos de pista a R$ 70. Depois do show começado, bilhetes chegaram a ser vendidos a R$ 50. Ingressos para a área Vip - que, aliás, não era tão Vip assim, já que houve um certo tumulto na entrada - foram vendidos pela metade do preço.

O Cidade Folia estava cheio, mas não lotado. Segundo a Polícia Militar, cerca de 10 mil pessoas assistiram ao show; a produção, no entanto, fala em 13 mil.

A banda alemã de hard rock Scorpions subiu ao palco do Cidade Folia com seis minutos de atraso (o show estava marcado para começar às 22h), mas a curta espera não chegou a incomodar o público, que se empolgou até com as músicas de outras bandas (Nirvana, Led Zeppelin, Deep Purple, Metallica e até Europa) que foram tocadas por um DJ antes da apresentação da atração da noite.

Aos primeiros toques na bateria de James Kottak, os outros integrantes, Klaus Meine (vocal), Rudolf Schenker (guitarra), Matthias Jabs (guitarra) e Pawel Maciwoda (baixo), entraram no palco e a platéia pulou, cantou e aplaudiu.

A primeira parte do show, que foi dividido em três - elétrica, acústica, elétrica - começou com Hour 1, música do mais recente álbum. A batida pesada da canção assustou parte do público, mais acostumado com o som leve e romântico das baladas do DVD Acústica. Aliás, muita gente se sentiu enganada ao final do espetáculo. "Foi muito pesado esse show. Se eu soubesse...", comentou uma garota, aparentando uns 20 aninhos, já no estacionamento interno do Parque de Exposições. Não deu para conter o riso.

Depois da nova canção, tocaram clássicos como Coming Home, No Pain No Gain e a instrumental Coast to Coast, que marcou o início da participação do guitarrista brasileiro Andreas Kisser, do Sepultura. Com quatro guitarras no palco, os Scorpions fizeram bonito e fecharam bem a primeira parte elétrica do show. A esta altura já dava para observar um certo ar de "que show é esse?" nos rostos da garotada da área vip. Mas aí veio o momento que as meninas e até alguns cinquentões tanto esperavam.

O palco foi rapidamente preparado para a seqüência acústica: banquinhos, instrumentos de percussão e as três dançantes backing vocals. A banda, com a companhia de Andreas, mandou mais e mais clássicos. Aliás, foi neste momento que ouvi um coroa, de mais ou menos uns 50 anos, comomerar: "Agora sim, esse é o Scorpions!". Os alemães aproveitaram o momento para mostrar o lado consciente e ambientalmente responsável. No telão, apareciam imagens da Floresta Amazônica e de atividades do Greenpeace. Na mensagem final, um apelo: "Parem com a destruição da Amazônia!"

Foi também na parte acústica que os primeiros assovios anunciaram a balada mor da banda - Wind of Change. A música pode até ser considerada atualmente a maior farofada, mas não dá para negar que canções assim são responsáveis pelas partes mais bonitas do show: luzes de celular foram acesas, milhares de braços foram levantados e a platéia cantou sozinha em alguns momentos. Em Holiday, o vocalista - que jogou aos fãs no mínimo umas 50 baquetas - arriscou algumas palavras em português e agradeceu o carinho do público com o tradicional "Muitóóó obriegaduuu".

Meine também esbanjou simpatia ao dar "bôua noitchê, Beléééiiiiim" e agradecer a empolgação do público, após cada canção. Mais tarde, o vocalista também fez uma média com os paraenses cantarolando uma versão peculiar de Aquarela do Brasil, charme que deve ser mantido para as outras apresentações da banda em solo brasileiro. O baixista Maciwoda fez sua parte para conquistar a simpatia dos belenenses vestindo uma camisa do Círio 2008 e usando ainda um cocar multicolorido atirado ao palco por algum maluco da platéia.

Com o já tradicional solo de bateria, Kottak fez graça e tocou um samba à la carnaval na Sapucaí. Depois, subiu na bateria, tirou a blusa e exibiu a enorme tatuagem "Rock & Roll Forever" (Rock & Roll para sempre) nas costas. Então, a terceira parte começou e Klaus emendou um "are you ready to rock?" antes de Blackout. Mas o show chegava ao final e ainda faltavam dois clássicos: Still Loving You e Rock You Like A Hurricane. A espera terminou no bis da banda. Os dois hits balançaram o público, que parecia dar tudo de si nos últimos momentos. E assim, perto do adeus e com o público em êxtase, a tatuagem clichê de Kottak fez ainda mais sentido.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O POLITICAMENTE (IN)CORRETO NELSON RODRIGUES


O jornalista, escritor e dramaturgo carioca Nelson Rodrigues faz falta nestes tempos de imoralidade política e cultura do politicamente correto. Reacionário para a esquerda e pornográfico para os conservadores, o torcedor nº 1 do Fluminense desdenharia, por exemplo, de um negro que pedisse para ser chamado de afrodescendente e do avanço das leis antitabagistas.

Defensores do politicamente correto (praga surgida na década de 70 nos EUA e que, depois de ser discutido nos 80 na Europa, se expandiu para a periferia) pretendem tornar a linguagem mais neutra e menos preconceituosa para certas pessoas ou determinados grupos sociais. Na teoria, tudo bem. Na prática, extingue o humor das relações sociais e tenta transformar todos num bando de escoteiros.

Frasista exímio, o mestre Nelson Rodrigues escreveu: "Invejo a burrice, porque é eterna". Lembro disso toda vez que ouço alguém chamar um velho de "pessoa da melhor idade" e, recentemente, me aconselharam a trocar funcionário público por "servidor público". O argumento é de que ele serve mais ao público do que ao Estado. Dei risada.

Também já me falaram que o termo homossexualismo deve ser evitado, pois possui uma carga pejorativa (o sufixo ismo associaria o homossexual a uma doença). A palavra "homossexualidade" seria a adequada por ser neutra. Como prefiro chamar homossexual de gay... Do jeito que as coisas vão, qualquer dia vão querer me obrigar a chamar anão de sujeito "verticalmente prejudicado". Aliás, adoraria ver a o espetáculo infantil Branca de Neve e os sete verticalmente comprometidos.

A editora Agir vem reeditando a obra de Nelson Rodrigues. Agora, chegou a vez de Memórias - A menina sem estrela (R$69), publicado originalmente em 1967 e cujo título é uma referência ao drama da sua filha Daniela, que nasceu cega. Trata-se de um conjunto de 80 crônicas, publicadas entre 18 de fevereiro e 31 de maio de 1967 no Correio da Manhã, então um dos principais jornais do Rio.

Com um texto coloquial delicioso, no qual acidez e bom humor se misturam o tempo todo, Nelson cria um painel do Brasil da metade do século passado ao falar de sua iniciação sexual, do assassinato do irmão Roberto, da Revolução de 30, do suicídio de Getúlio Vargas, da gripe espanhola, de futebol... O homem era mesmo genial.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

REPÓRTER DE TEVÊ NÃO SUA?!?


O cabra pra ser repórter de tevê tem que ter elegância. Cada vez que vou a uma coletiva de imprensa vejo como é complicado trabalhar em televisão. Enquanto eu e meus colegas de jornalismo impresso chegamos de calça jeans, tênis e camiseta, muitos com a barba por fazer, os repórteres de tevê sempre estão com o terno impecavelmente alinhado, a gravata nem um milímetro fora do lugar, sapatos lustrados e o rosto mais liso do que bolso de pobre com o nome no SPC. Isso quando não estão maquiados - dizem, não sei, que o brilho do rosto atrapalha o não sei o que da imagem na câmera. Questiúnculas técnicas.

E dia de calor? Aquele sol de fritar ovo no asfalto e os caras no maior profissionalismo, sem pingar uma gota de suor. Dentro do terno, uns 200 graus, a sensação de estar vestido numa embalagem a vácuo e os caras ali, firmes, sem uma mancha de suor na roupa.

Mas, acredito eu, que a maior prova que o repórter de tevê dá de elegância é quando não está trabalhando. Porque onde ele vai é reconhecido. No restaurante, no shopping, na praça, no mercado, no estádio, no cinema, na p... (é, lá mesmo) sempre tem um que cutuca o sujeito do lado e larga "aquele ali não é o cara da tevê..." E lá vem o chato puxar assunto ou fazer aquele comentário inédito: "nossa, você é tão diferente fora da televisão". Criatividade é uma coisa incrível...

Nesse ponto, trabalhar em veículo impresso é vantagem. Ninguém nunca vai saber como você é - a menos que você tenha um blog e sua foto com a cara amassada apareça nele. Mas, se ninguém lê teu blog, também não faz diferença.

Lembro de certa vez, quando ainda trabalhava na cobertura da Tuna Luso, fui dar uma olhada nos jornais na banca. Entre as páginas expostas, havia uma matéria minha. Um dos populares do meu lado não gostou muito do que leu sobre o time dele. Virou pra mim e sentenciou: "esses jornalistas são 'soda', não sabem nada do que falam".

Temendo voltar pra casa com um olho roxo, pois com torcedor contrariado e mulher com TPM não se mexe, achei melhor não discordar. E, muito mais prudente, mantive minha identidade preservada.

Já se naquela oportunidade fosse eu um repórter de tevê - o que só seria possível se o grande doutor Ivo Pitanguy tivesse um bisturi de condão, pois com essa carinha não passo nem da portaria da emissora - teria que explicar por que escrevi aquilo, que respeitava a opinião dele, mesmo sendo contrária à minha, que há várias formas de se interpretar um texto e blablabla.

Portanto, fica a dica para você, jovem que pretende se alistar nas trincheiras do jornalismo televisivo: prepare-se para o embate. Afinal, não é só porque suas tias acharam lindo seu discurso na formatura da catequese que você tem postura pra ler o teleprompter na bancada do telejornal. Tem que ter talento, uma boa dose de elegância e, se possível, um bom cirurgião pra retirar suas glândulas sudoríparas. Afinal, não é fácil ser Willian Bonner. Tá gravando? Boa noite! (Sobem os créditos.)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

PITTY USA PALAVRÃO EM MÚSICA POP


Eu não sou fã da Pitty, mas tenho que admitir uma coisa. A garota entende do riscado. Sabe, como poucos de sua geração, criar refrões que grudam na memória e garantem meses e meses de sucesso nas rádios. Algo imprescindível para quem se propõe a ser uma estrela pop em nível nacional - coisa que as bandas paraenses ainda não entenderam.

Uma prova desse talento da roqueira baiana é o single "Me adora", que puxa o seu terceiro álbum de estúdio, "Chiaroscuro" - palavra italiana que significa "claro e escuro" e que também denomina uma técnica de pintura criada por Leonardo Da Vinci.

Apesar de ter lançamento oficial previsto para o dia 11 de agosto, o clip da música em questão já está disponível no Youtube, onde contabiliza mais de 100 mil acessos. Na canção, Pitty adota um estilo bem anos 60. Mas é o refrão que novamente chama a atenção. Lá pelas tantas, ela canta: "Não espere eu ir embora pra perceber/ Que você me adora/ Que me acha foda".

Os puritanos podem estranhar a expressão foda numa canção de sucesso, mas Pitty apenas traduz a realidade de um termo que foi desconstruído do seu sentido original pelo linguajar dos jovens. Esse tipo de desconstrução também ocorreu um dia com porra e caralho, por exemplo (o carioca, aliás, criativamente, transformou caralho em caraca).

Como diria o grande Millôr Fernandes, 85, é o povo fazendo sua língua. Na crônica Foda-se, o escritor diz que "os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos fortes e genuínos sentimentos".

O rock made in Bahia, é verdade, gosta do verbo foder. Na década de 80, o Camisa de Vênus de Marcelo Nova popularizou um grito de guerra que resiste ao tempo: "Bota pra fuder" (e que o Asa de Águia de Durval Lellys adaptou para "bota pra ferver", mais adequado à politicamente correta Axé Music). Naquela distante galáxia pré-Aids, até o nome da banda do pai da VJ Penélope chocava, acredite.

Com Pitty, entretanto, o uso do palavrão ganha uma dimensão maior em termos de abrangência pop. A cantora é o artista de rock’n’roll que melhor traduz o espírito juvenil brasileiro nesta década. Isso não quer dizer que tudo o que ela faça seja original ou espontâneo. Muito pelo contrário. O estilo barbie-punk que ela adotou desde suas primeiras aparições na MTV, lá pelos idos de 2004, sempre me pareceu forçado. Além disso, vamos e convenhamos, a geração da qual ela faz parte é bem fraquinha.

Mas esta observação não tira o mérito da garota. Todo artista pop de sucesso é um produto industrial, manufaturado para vender em larga escala. Por isso, tanto o talento musical quanrto a imagem precisam ser trabalhados, produzidos e estudados.

Além disso, concordo com Nando Reis quando ele diz que: "Ela é poderosa, carismática. Fico feliz pelo sucesso dela e pelo fato de ser uma mulher vencendo num ambiente predominantemente masculino. É bom quebrar as estatísticas. De dez em dez anos é que isso acontece no Brasil".

A essa altura do campeonato, Pitty já se consolidou como o maior nome de sua geração no rock, mesmo que, no meu set list, ela tenha pouco espaço.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE


O cinema de fantasia, que mistura magia, fábula e aventura num único caldeirão, ganhou nova vida com o sucesso retumbante da trilogia "O senhor dos aneis", projeto que viu suas datas anuais de lançamento (2001, 2002, 2003) casarem perfeitamente com um certo clima de realismo extremo que marcava o mundo (ou os EUA) logo após o 11 de Setembro. O sucesso de Peter Jackson parecia algum tipo de antídoto esotérico para a dureza real. A reboque, vieram variações sobre a mesma temática com "As crônicas de Nárnia" e o fascinante "O labirinto do fauno", que até competiu em Cannes, em 2006.

"Harry Potter e o enigma do príncipe" (EUA/Ing, 2009), em cartaz nos Moviecom Castanheira, Pátio Belém e Yamada Castanhal, oferece uma dessas boas oportunidades do que, em inglês, chama-se "escapism", entretenimento que tem como principal função catapultar o espectador para um outro mundo, e lá deixá-lo imerso durante, nesse caso, duas horas e meia.

Mas neste sexto filme da série, o que mais chama a atenção é o realismo embutido na trama. Longe de ser somente mais um arrasa-quarteirão da temporada de férias escolares, este filme de David Yates, assim como os demais da série que conta as aventuras do bruxo inglês e seus amigos, carrega consigo ingrediestes extras que dão ao produto final algo mais do que o rótulo de sucesso comercial.

Basta lembrar que desde 2001, quando teve início a saga do "bruxinho", os filmes baseados nas publicações da escocesa J. K. Rowling parecem estimular a leitura junto aos muitos jovens, um feito e tanto nestas épocas de minimalismo twitteriano - com licença do neologismo.

O duelo entre a palavra escrita e as imagens de cinema sugere uma relação cada vez mais rara hoje em dia e, por isso mesmo, positiva. Se há uma capa espessa de magia nas histórias, a base delas é realista, nas relações de amizade, escolhas éticas e o mundo da escola, com um tom claramente britânico para efeito extra de curiosidade.

Do ponto de vista do mercado, os cinco primeiros filmes arrecadaram uma receita de US$ 4,47 bilhões. Nenhuma outra série na história do cinema rendeu tanto dinheiro, deixando para trás os 22 episódios de James Bond somados, ou os seis capítulos de "Guerra nas estrelas".

Em "Harry potter e o enigma do princípe", observa-se que o crescimento natural dos atores (ou dos personagens) foi registrado filme a filme. É algo raro no cinema e que lembra o caso também particular dos cinco filmes de François Truffaut com o menino/ homem Antoine Doinel.

E isso é muito bem aproveitado pelo diretor David Yates, que já havia dirigido "A ordem do Fênix". O roteiro de Steve Kloves, apesar de se tratar de uma adaptação, merece todos os louvores. Ele conseguiu equilibrar duas partes bem distintas e que, em alguns pontos, sugerem água e vinho, um pouco como se dois filmes diferentes corressem paralelos.

De um lado, que dá ao filme profundidade narrativa, nos divertimos com Harry (Daniel Radcliffe), Ron (Rupert Grint), Hermione (Emma Watson) e seus amigos da escola Hogwarts lidando com as primeiras complicações do amor.

Poções mágicas variadas entram para atiçar e/ou podar sentimentos, o que sugere algo não muito distante de uma pequena galeria de drogas ilícitas que talvez nos ajudem a enxergar o tom mais realista desse capítulo e seu ambiente escolar.

A outra metade do filme, cheia de mistério e pequenos terrores, reside na relação aluno/professor de Potter e Dumbledore (Michael Gambon). A curiosidade quase mórbida de Potter para desvendar mistérios no passado do grande vilão Voldemort (Ralph Fiennes) é administrada pelo mestre com cuidado.

As influências do mal surtem efeito não apenas na escola, num aluno com inclinação para o mal e num professor com a mesma vocação, mas também na realidade de Londres. A cidade aparece em destaque, desta vez, o que apenas aumenta o nível de interesse pela aventura.


TEXTO PUBLICADO NA PÁGINA 20 DO JORNAL AMAZÔNIA(CADERNO SHOW) DESTE DOMINGO (19/07/2009)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

VINHO BARATO, MULHER FEIA E PUNK ROCK


Funcionava assim. Você encontrava os amigos na rua durante as tardes de sábado para combinar como seria a noitada, mesmo que o local fosse sempre o mesmo. Com todo vigor que seus 14, 15 ou 16 anos lhe injetavam nas veias seguia o caminho a pé. Quando o local da farra era no Centro, você pegava um ônibus para "dar o goelo", saltando por trás quando estivesse próximo do Ver-O-Peso. Depois era subir pela Presidente Vargas. O bando contava as moedas, normalmente roubadas do troco do pão, para rachar garrafões de Vinho Gallioto ou mesmo o ruim e velho Dom Bosco. Os mais medrosos, tinham que salvar ainda a passagem de volta.

Na época os comerciantes não se importavam se era prudente autorizar que três adolescentes, na média, dessem uma beiçada em cinco litros de vinho. Não havia copos. Para controlar a dose certa do gole num garrafão era necessário treino, que estava sendo religiosamente cumprido há pelo menos um ano. Do contrário, entrava até pelas narinas.

Éramos centenas, só que sem crack. O máximo de violência era voltar para casa sem os sapatos. A meia jogava-se fora para não passar ridículo. As gangues normalmente tinham o nome da rua onde morávamos ou da praça usada para confabular o melhor ataque aos inimigos, os meninos das outras ruas ou praças. Em algumas regiões, como a Marambaia, até padaria podia dar origem ao nome de um "temido grupo". Assistiu “The Warriors - Os Selvagens da Noite”? Era mais ou menos assim, só que sem revólveres, facas, bastões de beisebol e metrô.

As ruas escolhidas para chegar até a Praça da República eram as que tivessem relação com o meretrício. Não para consumir. Mas a paisagem era mais interessante e sempre rendia uma boa história no dia seguinte. Talvez ainda não fosse politicamente incorreto esvaziar a bexiga numa árvore. E sempre dava vontade nas proximidades da Praça.

Na chegada os dentes já estavam roxos de tanto vinho barato. Encontrava os outros, com camisetas do Pantera, Ratos de Porão, Dead Kenneds, Ramones, Garotos Podres e... Sepultura!!! As meninas se fantasiavam de Mortícia Adams. Roupa comprada na Mesbla. Era óbvio que ninguém que estava ali iria para um barzinho ou boate da moda, coisa de playboy. Só existia um lugar que poderia abrigar tanta gente diferentemente igual: o Teatro Experimental Waldemar Henrique.

Primeiro problema: não podia entrar com bebida. Garrafão vazio no lixo então. A vantagem é que já se entrava com a mira calibrada. Digamos que o local não era reconhecido pelas lindas mulheres que lá aportavam. Só que era preciso se manter em pé. Caso caísse uma saraivada de botinadas lhe acertava até o âmago. Pura diversão.

Uma coisa não tinha explicação: você simplesmente não podia se encostar nas paredes. E não era tinta fresca. A teoria mais aceita é que a combinação engolir vinho rapidamente, mulher feia e mais pontapés no estômago causavam um vômito imediato e forte que o golfo acertava as paredes antes de encontrar o solo. Uma noite perfeita naqueles tempos.

Hoje é difícil você encontrar um belenense legal que não tenha passado bons fins de semana no Waldemar Henrique entre o final dos anos 80 e início dos 90. Que não tenha escutado Delinquentes e dezenas de outras bandas de “punk rock”.

Pois bem. Já se passaram mais de 18 anos e tudo aquilo ficou registrado na memória de muitos. A dúvida que fica é se hoje ainda há espaço para esse tipo de experiência inocente inconsequentemente divertida. Que não começa e termina dentro da balada. Não se vê mais pessoas passeando a pé na madrugada. Os motivos são óbvios. Temos violência, Lei Seca, mulheres mais bonitas (as feinhas têm muito mais recursos hoje, vai) e internet. Ou seria apenas o que chamamos de nostalgia?

terça-feira, 30 de junho de 2009

DIPLOMA DE JORNALISMO É PERFUMARIA


Todo mundo já sabe da minha posição sobre a queda da obrigatoriedade do diploma de jornalista. Mas como recebi do amigo Nildo Lima o excelente texto que reproduzo abaixo, achei por bem voltar ao tema mais polêmico do ano entre os colegas. O artigo foi publicado na quarta-feira passada, no jornal Correio do Brasil, de Porto Alegre. Apreciem:

Diploma de jornalismo é perfumaria - Manifesto contra a hipocrisia

Por Wladymir Ungaretti - BdF - de Porto Alegre

O diploma não está ameaçado porra nenhuma. Acabou. Não é por acaso que a Rede Globo garante que continuará prestigiando as escolas de “comunicologia” e que, por outro lado, irá abrir espaço a especialistas de outras áreas. O PRBS, também, promete que vai continuar valorizando os cursinhos da perfumaria. É só uma flexibilização. A ditadura midiática ganha “ares de diversidade”. A medida não altera porra nenhuma em termos da produção das atuais ”informações ficcionais”, dos releases das assessorias de imprensa. Associar “qualidade da informação” com diploma é deboche. Até mesmo na história recente de Zerolândia* esta associação é piada. Uma redação com hegemonia de profissionais sem diploma era dirigida pelo Lauro Schirmer. Dava para ler. Uma redação hegemonizada pelos com diploma e direção de Marcelo Rech vai para história do lixo.

Ninguém diz nada sobre a conjuntura em que o diploma foi criado. Assim, como ninguém diz nada sobre a conjuntura atual, a do fim do diploma. É preciso, no entanto, assinalar a característica básica dos dois momentos: ditadura militar e ditadura midiática. Absoluta falta de democracia. Ditabrandas. O MST pode dizer algumas coisas interessantes sobre o tema. Na militar, as redações eram “controladas” por intelectuais de esquerda. A ditadura precisava de “profissionais” com outro perfil. No começo foi quase impossível. A meninada (com o diploma) mandava “bala” contra a ditadura. E os “velhos” jornalistas prestigiavam. No mínimo faziam vistas grossas. Na atualidade, o fim do diploma “flexibiliza” e reforça os cursinhos técnicos de comunicologia. Uma adequação ao Deus Mercado. A grande novidade - e a mídia corporativa precisa - é a formação de showrnalistas especializados na transmissão de infográficos online. Ou de “especialistas” em segurar microfone. Isso tudo é uma grande piada.

Está aberta, no entanto, a possibilidade de implodirmos com os cursos de “comunicologia”, pela esquerda. Está aberta a possibilidade de formação de JORNALISTAS marginais, subversivos e da periferia. Estes cursos populares darão prioridade à formação do caráter. Não esquecendo, é claro, que a esquerda sabonete é um zero à esquerda. Uma idéia anarquista. Em 20 anos de Fabico (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS) nunca tive um aluno negro que não fosse africano. Não tive em aula um estudante de JORNALISMO morador da Lomba do Pinheiro (periferia de Porto Alegre). Estamos de olho na possibilidade de construção de ESCOLAS DE JORNALISMO na periferia. Currículo de AgiProp (agitação e propaganda). Contra o sistema. Luta de classes existe, sim. O “showrnalismo” que a mídia corporativa faz ficará “melhor”. Zerolândia ficará melhor “qualificada”. Especialistas (não diplomados) poderão brilhar.

Comecei na profissão com Marcos Faerman (Marcão), trabalhei com Pilla Vares, João Aveline e José Onofre; tive aulas de marxismo e de jornalismo com Marco Aurélio Garcia, criador do primeiro Caderno de Cultura de ZH; também tive algumas lições de jornalismo com Jefferson de Barros. JORNALISTAS eram intelectuais e de esquerda. O diploma que predominava era o de advogado. Nenhum jornalista da República de Livramento (Bicudo e outros) tem diploma. Acho que o Trindade e o Vieira também não. Boa parte da redação da Folha da Manhã, da Caldas Junior, não tinha diploma. O decreto que cria a habilitação em Relações Públicas, dentro dos cursos de “comunicologia”, foi assinado pelo Jarbas Passarinho e o Delfim Neto. Não consegui o registro por ter passado uma temporada na cadeia. Fui obrigado a fazer a faculdade. Tenho o tal do diploma. Sou professor por um descuido do sistema.

Os atuais cursinhos técnicos de “comunicologia” continuarão formando o pessoal que é treinado para escrever 30 linhas. (ponto) Bons de telefone. (ponto) Ou então com qualificação para buscar release na Secretária de Segurança Pública. (ponto). Para os que possuem o DNA da profissão o diploma é um detalhe. E quando não existia Internet o cara “cascateava” e não tinha como denunciar. A informação ficava restrita ao meio profissional. Agora, o cara “cascateia” e um blogueiro (não showrnalista) denuncia e é processado. A rede de conivências corporativas é silenciosa. Só faz estardalhaço na defesa da “liberdade de imprensa”, deles.

Os atuais showrnalistas, todos diplomados, são e continuarão sendo cartógrafos do sistema. Mapeadores serviçais das elites. Nenhum dos 30 melhores alunos que tive em 20 anos de Fabico trabalhou em Zerolândia, poucos andaram (passagens rapidíssimas) por outros veículos da mídia corporativa e todos, literalmente todos, exercem a profissão comprometidos com a vida. Acho que dei minha contribuição na formação destes JORNALISTAS. Para todos eles o diploma foi um detalhe. Uma imposição burocrática e autoritária. Quase sempre de professores que não deram certo na profissão. Ou de acadêmicos que nunca passaram nas proximidades de uma redação.

O que vai acontecer? Não sei. A todos os piratas, hackers e anaquistas e loucos, de um modo geral, desejo sucesso na multiplicação dos espaços de liberdade. A clandestinidade exige atenção, humildade, intuição e pode ser o caminho para o exercício do JORNALISMO com o velho sentido da profissão. Propomos a multiplicação de panfletos eletrônicos. A realização de bacanais. De orgias eletrônicas panfletárias contra o sistema. Pela realização dos prazeres criminosos e ilegais. Abandonamos a idéia dos piquetes. O melhor é vandalizar. Não significa porra nenhuma protestar. Queremos atos de desfiguramento. Não aceitamos os estúpidos desperdícios como, por exemplo, a imensa quantidade de papel gasto em jornais de merda. Lutamos pela destruição dos símbolos dos impérios da “comunicologia”. Zerolância é criminosa. Aliena. O diploma não está ameaçado porra nenhuma. Nunca esteve. Acabou. (ponto) Fotografem a miséria conversando com os miseráveis. Aprendendo com eles. Pela ação dos marginais, dos que estão à margem, avançamos contra a barbárie.

Jornalistas, como agentes da subversão, nunca se inscrevem para concorrer a prêmios. E muito menos ainda para o Prêmio Ari-Gó. Não são os “showrnalistas” que são premiados, mas as empresas para quais vendem a alma. É tudo matéria 500. É parte da política de relações públicas. A Esso criou o Repórter Esso para combater a campanha do Petróleo é Nosso. E o “camarada” Lula poderá ser presidente do Banco Mundial.

Viva Hélio Oticica e os parangolés!!! Queremos tudo Zensentido. Glauber Rocha não tinha diploma de porra nenhuma. E, assim, ameaçava a burguesia. Como dizia o velho guerreiro Chacrinha: “quem não se comunica se trumbica”.

Mil desculpas se às vezes perco o ímpeto radical da raiz

PALAVRAS como estiletes
CORTANTES.

Wladymir Ungaretti é jornalista e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
*Obs.: o autor se refere ao jornal Zero Hora.

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL CORREIO DO BRASIL, DE PORTO ALEGRE, EM 24/06/2009

domingo, 28 de junho de 2009

NÓS MATAMOS MICHAEL JACKSON



ESTE É O MELHOR TEXTO QUE LI SOBRE A VIDA E MORTE DE MICHAEL JACKSON

Vai soar hipócrita e oportunista. Mas eu vou escrever assim mesmo: nós matamos Michael Jackson. Nós e o pai dele, Joseph, que o obrigava – junto com os quatro irmãos mais velhos – a ficar ensaiando horas a fio na volta da escola. Que os dirigia com uma cinta na mão. Que repetia o tempo todo que o pequeno Michael era “feio como um macaco” e o espancava, ao ponto de o garoto vomitar só de vê-lo. Nós, com nosso apetite sádico pelo seu show de horrores, Joseph e ele próprio, Michael, que era egocêntrico demais para perceber que precisava de ajuda – da família, dos amigos e ainda psicológica ou psiquiátrica.

Ele não tinha maturidade para enxergar isso. E nem para perceber o reverso da moeda do método de Joseph Jackson: se por um lado a disciplina espartana e a ambição desenfreada do pai lhe roubaram a infância, por outro aperfeiçoaram e deram visibilidade ao seu enorme talento – o que ajudou a forjar o mito que Michael se tornaria.

Com a hecatombe de Thriller – embora Off the Wall, seu primeiro álbum solo na idade adulta, também tenha feito enorme sucesso –, Michael Jackson arrombou a porta da MTV e pulverizou a fronteira entre a música negra e a música branca nos Estados Unidos. Foi o primeiro artista negro a aparecer na MTV e o primeiro representante da black music a ter suas músicas tocadas nas rádios de rock – ao mesmo tempo em que levava o rock às rádios de black music. E assim – além de um raro senso estético e um talento assombroso para a dança –, Michael pôs a crítica e o público de joelhos.

Se tivesse paz de espírito, tudo o que ele precisava fazer dali em diante era saborear os louros da vitória – além de manter abertos os canais da sua inspiração. Depois de Thriller, Michael estava milionário, famoso no mundo inteiro, liberto dos irmãos e com autonomia artística e moral para mandar o velho Joseph para onde quisesse.

Não era o caso. Michael era todo mágoa, ressentimento, carência e... ego. E a montanha de dinheiro só fez piorar essa receita: tinham lhe roubado a infância? Pois agora ele iria comprá-la de volta, muito mais grandiosa e cintilante. Por isso Neverland e a necessidade de se cercar de crianças. Estava crescendo, sofrera com as espinhas, era narigudo e “feio como um macaco”? Pois agora ia ter o rosto que quisesse, o nariz que bem entendesse, o cabelo e a pele perfeitos. E faria tudo o que estivesse ao seu alcance para “não crescer”, ficar o mais distante possível da sua tenebrosa referência de homem adulto, o velho Joseph.

Foi o que ele tentou: comprar de volta a sua infância, com direito a amiguinhos para brincar no seu parque de diversões – e sem qualquer malícia, na minha opinião. Para mim, Michael Jackson nunca foi pedófilo. Ele sempre se sentiu uma criança, e se cercava delas por identificação, por sentir-se seguro e protegido. Só que o mesmo dinheiro que proporcionou esse mundo de fantasia, despertou a cobiça dos pais dessas crianças – que perceberam na fragilidade emocional do Rei do Pop a oportunidade para esfolá-lo, inventando as denúncias de abuso sexual que acabaram destruindo a sua carreira. E assim, dolorosamente, ele foi confrontado com a sua condição de adulto – e aprendeu que nem nas crianças podia confiar.

Eu não sei de onde eu tinha tanta convicção da inocência dele, talvez por nunca ter detectado em seu olhar, palavras ou ações qualquer vestígio da malícia e da tensão sexual de um pedófilo. Mas hoje, vasculhando a biografia de Michael, dei de cara com uma informação que, embora não possa ser encarada como verdade absoluta por sua procedência, merece ser levada em consideração: “Durante a investigação [da acusação de pedofilia por parte do garoto Gavin Arvizo, em 2005], o perfil de Jackson foi examinado por um profissional da saúde mental chamado Dr. Stan Katz; o médico também passou várias horas com o acusador. A avaliação feita por Katz dizia que Jackson tinha a mente de um garoto e não se encaixava no perfil de um pedófilo”.

Ah, e achei outra informação, que teria entrado no Guinness Book do ano 2000: “Michael Jackson foi o artista que mais ajudou pessoas no mundo, tendo contribuído com mais de 39 organizações”. Pena não ter conseguido ajudar a si mesmo... por tudo isso, eu lamento profundamente a morte de Michael Jackson.



TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA GAZETA DO POVO POR
Luigi Poniwass (anoitetoda@gazetadopovo.com.br)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

FOTOGRAFAR É QUE É CRIME


Afinal, comete crime ou não o adulto que mantém relações sexuais com crianças e adolescentes?

De acordo com recente decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) - que, dias atrás, absolveu dois acusados de usar os serviços de duas garotas de programa menores de idade - o ilícito penal deixa de existir quando a suposta vítima já atue como prostituta e o suspeito seja um cliente eventual.

A história que vem dando panos pra mangas começou em Mato Grosso do Sul. Conforme os autos, os réus teriam contratado o programa com as três garotas num ponto de ônibus. Pagaram R$ 80 a duas delas, justamente as menores, e R$ 60 à terceira, que tinha mais de 18 anos.

Em tese, o ato estaria ferindo o artigo 244-A do Estatuto da Criança e do Adolescente, segundo o qual, submeter criança ou adolescente à prostituição ou exploração sexual é crime, sujeito a pena de reclusão de quatro a dez anos, além do pagamento de multa.

Mas não foi este o entendimento do Tribunal de Justiça do MS. Para os desembargadores, o fato de as garotas já atuarem como prostitutas isentava os réus do crime de exploração sexual – isso porque eles não as havia iniciado no ofício nem obtinham qualquer lucro com a atividade por elas desempenhada. Irresignado, o Ministério Público recorreu ao STJ, mas o resultado foi mantido na instância superior.

Em seu parecer, o relator, ministro Arnaldo Esteves, justifica que o crime previsto no artigo 244 do ECA não se aplicaria a clientes ocasionais. A Procuradoria Geral do Estado do Mato Grosso do Sul promete recorrer da decisão.

Mas aí agora é que vem a graça. Embora absolvidos da acusação de exploração sexual, os réus não saíram totalmente impunes: como fotografaram as garotas em poses pornográficas, foram condenados com base no artigo 241-B do ECA ("adquirir, possuir ou armazenar, por qualquer meio, fotografia, vídeo ou outra forma de registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente"). Quer dizer, dependendo das circunstâncias, manter relações sexuais com adolescente até que pode. Fotografar é que é crime...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

INTRIGAS DE ESTADO // libelo em louvor ao jornalismo impresso


Quando o escândalo Watergate veio à tona, os jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, do The Washington Post, viraram super-heróis da mídia. Reeditaram o mito bíblico do pequeno Davi que derruba o gigante Golias, levando o presidente republicano Richard Nixon a renunciar o cargo, em 1974.

O caso gerou o longa-metragem "Todos os homens do presidente" (1976) e desencadeou um “surto” de filmes sobre a imprensa, como o clássico "Rede de intrigas" (1976), de Sidney Lumet, e "Ausência de malícia" (1981), de Sidney Pollack.

Produções sobre os bastidores da notícia, contudo, há muito deixaram de ser um filão rentável para o cinema e para a televisão. Talvez porque histórias como a do repórter Jayson Blair, do The New York Times, que plagiou e inventou centenas de reportagens nas fuças dos editores do mais importante jornal do mundo, deixem a opinião pública meio ressabiada quanto aos padrões éticos praticados no meio.

O fato é que um filme como "Intrigas de estado" (EUA, 2009), embora não seja uma obra-prima, é muito bem-vindo – e pertinente. Ainda mais num momento em que os jornais impressos ao redor do mundo, sobretudo nos Eua, parecem enfrentar uma crise sem precedentes, com o desaparecimento de diários importantes, como o Seattle Post-Intelligencer, cuja versão impressa deixou de circular e hoje só pode ser lido na internet. Esse thriller político dirigido por Kevin McDonald (de "O último rei da Escócia") é uma espécie de libelo em louvor ao jornalismo impresso. O filme fica em cartaz até hoje na sala Catasnheira 1 e irá para a Castanhal 1, na cidade vizinha.

O ator Brad Pitt ("Tróia") chegou a estar envolvido no projeto, mas acabou sendo substituído por Russell Crowe. Além de Pitt, Edward Norton ("Clube da luta") também desistiu de participar do filme. Além de Russell Crowe, o elenco também conta com a participação de Ben Affleck ("Demolidor"), Rachel Adams ("Voo noturno"), Jason Bateman ("Juno"), Helen Mirren ("A rainha") e Jeff Daniels ("Boa noite e boa sorte").

Mesmo não tendo um desempenho tão satisfatório nas bilheterias americanas, onde arrecadou pouco mais de US$ 36 milhões, a produção é sucesso entre os críticos brasileiros. E deve ganhar um impulso com toda essa agitação em torno do fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão.

Baseado na minissérie britânica "State of play" (2003), produzida pela BBC, "Intrigas de estado" tem como grande mérito mostrar as engrenagens de um jornal em crise, o fictício The Washington Globe. O veículo, com circulação em queda, acaba de ser vendido para um grande grupo e sua diretora de redação (Helen Mirren) cobra aumento nas vendas, resultados.

É nesse momento nevrálgico que duas notícias, uma aparentemente desimportante e outra bombástica, vêm à tona: um ladrão (e talvez traficante) e um ciclista são assassinados à queima-roupa e a assessora do jovem e promissor deputado Stephen Collins (Affleck) morre nos trilhos de uma estação de metrô da capital federal, num aparente suicídio.

Mais interressado em cobrir e desvendar os misteriosos assassinatos, o repórter investigativo Cal McAffrey (Crowe, ótimo como sempre) é atropelado pela outra ocorrência: Collins é um de seus melhores amigos de juventude e a suposta suicida era amante do deputado.

Apesar de ter reviravoltas um tanto rocambolescas (e até inverossímeis), a trama de "Intrigas de estado" retrata com fidelidade as entranhas do processo de produção da notícia – e num momento histórico particularmente intrigante.

O repórter à moda antiga, McAffrey, dividido entre cumprir seu papel e ajudar seu amigo, entra em confronto com a novata e ambiciosa Della Frye (Adams), que mantém na versão on-line do The Washington Globe um popular blog político. De um lado do ringue, a experiência do profissional que acredita na apuração, no cruzamento de fontes e, sobretudo, no cheiro da tinta no papel. Do outro, o poder da instantaneidade, da interatividade, das notícias que se fazem (e desfazem) em tempo real na tela do computador. Quem ganha é o espectador.

TEXTO PUBLICADO NA PÁGINA 20 DA EDIÇÃO DE HOJE (22/06) DO JORNAL AMAZÔNIA

sexta-feira, 19 de junho de 2009

MENSAGEM DE APOIO


O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Pará está preparando uma manifestação para a próxima semana em repúdio à decisão do STF, que derrubou a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo em território nacional. O protesto, segundo a presidente Sheila Faro, deve ser feito em forma de panelaço - em referência ao "cozinheiro" do Gilmar Mendes.

Eu, que lá não estarei no dia, deixo aqui minha mensagem de apoio aos colegas que também não estarão lá. Não acho que o diploma de jornalista qualifique alguém para escrever. A maioria dos formandos que conheci, inclusive eu, não tinha preparo para cair de cabeça na reportagem e, em muitas vezes, não sabia sequer fazer um lead. Não estou falando de todos, só da maioria.

Do mesmo modo, não há por que não contratar um profissional de outra área e que escreva bem só pela falta de diploma. Aposto que existem médicos, economistas, cientistas e historiadores que escrevem muito melhor que a maioria dos jornalistas formados. Se há uma vaga para repórter em um veículo, por exemplo, ela deveria ser preenchida pelo mais habilitado, independente de sua formação. Jornalismo não é medicina. A “abertura do mercado” só elevará o nível da imprensa e acabará com muitos cursos falcatruas por aí.

“Derrubar a exigência de formação superior específica em Jornalismo é algo que só interessa aos donos de veículos de comunicação, que, sem ela, teriam um poder ainda maior de controle dos jornalistas e de manipulação da mídia”, afirmou Dr. Rosinha.

Hein? Sério, é o tipo de argumento que não consegue convencer ninguém. De que maneira o diploma me protege do “controle” e da “manipulação”? Confesso que acompanho há alguns anos este tipo de discussão e, até hoje, não consegui encontrar algum argumento que me faça acreditar na necessidade do diploma. Curso de jornalismo deveria ter, no máximo, seis meses de duração. O resto é enrolação.

Para pensar: diploma não é obrigatório na Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Chile, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Japão, Luxemburgo, Polônia, Reino Unido, Suécia, Suíça e tantos mais.

PARA QUEM ACHA QUE ESTOU LEGISLANDO EM CAUSA PRÓPRIA, VISITEM OS SITES LISTADOS ABAIXO:

Blog do Barata

Observatório da Imprensa

Denis Russo

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A ÉTICA DOS BACHARÉIS


Ao contrário da maioria dos colegas de redação, não me parece óbvia a necessidade da obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão. Entendo e concordo em parte com os que alegam que a formação de um profissional é muito mais que saber escrever bem, mesmo que sem essa qualidade seja muito difícil que alguém adentre ao mercado.

Mas será que os objetivos estão sendo alcançados? Eu acredito piamente que não. E meu argumento é baseado justamente nesta discussão. Vejam vocês, que tipo de jornalista está sendo formado que se preocupava mais em discutir se deve ser exigido ou não o diploma ao mesmo tempo que o Supremo Tribunal Federal discutia sobre toda a Lei de Imprensa?

O que interessa mais para a sociedade? Pelo que se viu nos últimos dias, deve-se concluir que o jornalista acredita que os leitores e afins estão mais preocupados em saber se quem escreve saiu de uma das 50 faculdades de jornalismo de Belém e não se esse mesmo profissional é consciente do seu meio. Escolhemos focalizar a discussão em nossos umbigos, que é uma parte quase insignificante do todo.

Não comentei antes para não "queimar a língua", já que aqui ficaria registrado. Esperei para ver. Não deu outra. Quem acompanhou as manifestações da classe realizadas nos últimos dois meses em todo o país deve ter ficado muito preocupado. Os sindicatos e jornalistas em marcha pela obrigatoriedade do diploma e nem uma linha sobre a reforma ou extinção da Lei de Imprensa.

Por várias vezes procurei algo no site da Fenaj que aprofundasse a discussão e que não tivesse ligação com a obrigatoriedade. Nada nas últimas semanas. E o STF encerrou as duas questões. Primeiro decidiu pela extinção da Lei de Imprensa e, ontem (17), acabou com a exigência do diploma.

O recado dado à sociedade ficou bem claro. O jornalista está mais preocupado com seu emprego que com o jornalismo. Essa é a ética dos nossos bacharéis?

sexta-feira, 12 de junho de 2009

TERROR NA CALÇADA


Vi uma velhinha sentada numa cadeira na calçada, segunda-feira. Juro que vi. Foi numa rua da Pedreira. O dia estava quente e ensolarado, e resolvi fazer a pé um trajeto que tinha de percorrer. A Pedreira é o melhor bairro para se caminhar na cidade, a vida suburbana escorre por suas ruas planas, as pessoas circulam entre o pequeno comércio bem fornido de fruteiras, açougues, sapatarias, padarias. As coisas realmente importantes da vida estão naquelas ruas. As miudezas que constroem o dia das pessoas, o pacote de Bolacha Maria do armazém, o Melhoral da farmácia da esquina, a dúzia de tachinhas da ferragem.

Então, gastava as solas dos tênis debaixo dos plátanos da Pedreira, quando a vi. Usava os cabelos brancos presos na nuca e equilibrava os óculos na ponta do nariz. Estava sentada numa cadeira de madeira, provavelmente em frente à própria casa. Fazia tricô. Nem me viu passar, concentrada que estava na peça que se formava a partir das agulhas que trançava com os dedos finos.

A princípio, temi por ela, tão sozinha, à mercê de algum mal-intencionado que por ali passasse e tencionasse subjugá-la. Depois, assimilei aquela cena como se bebesse de um tônico, como se fosse besuntado por um bálsamo. Ali estava uma réstia de civilização.

Porque a civilização tem sofrido derrotas por aqui. O Re-Pa um dia já foi o mais belo dos clássicos, com os estádios repartidos em azul marinho e azul celeste, metade para cada um - agora é, na prática, um jogo de uma torcida só. Triste... E, dias atrás, torcedores do Corinthians e do Vasco se enfrentaram numa batalha campal que terminou com um ônibus incendiado e um rapaz morto por causa do futebol. Por causa do futebol... Golpes duros na civilização.

Lembro de um tempo em que a cena da velhinha na calçada era usual. Morávamos na Marambaia, meus pais, meus irmãos e eu. À noitinha, depois do trabalho, eles e os vizinhos da Passagem Samaritana arrastavam as cadeiras da sala de casa para a calçada e se aboletavam numa roda, olhando as crianças que brincavam ali perto, contando histórias.

A maioria, histórias de terror. Um homem era ladrão de sepulturas. Um dia, sua velha mãe, descobrindo que ele exercia essa pérfida atividade, o censurou e o advertiu:

— Cuidado, os mortos vingativos podem querer te arrastar para dentro da terra, para junto deles...

O ladrão deu de ombros, mas ficou com o aviso materno latejando no fundo do cérebro, como, aliás, soem ficar os avisos maternos.

Uma noite chuvosa de inverno lá se foi ele, abrir cavoucos nos túmulos, aviltar o descanso dos espíritos. Era uma noite lúgubre, e o ladrão tremeu, lembrando-se do que a mãe lhe dissera. Prometeu a si mesmo que aquela seria a última vez que cometeria ação tão medonha. Depois daquela noite, nunca mais!

Caminhou rezando baixo pelo cemitério, o coração aos saltos, ziguezagueando por entre as cruzes. Vestia um sobretudo que esvoaçava com o vento cortante que vinha da baía do Guajará. Sentia frio. Depois de pilhar o morto, já estava se retirando, cheio de temor, quando a ponta de sua capa prendeu-se na cruz. Quis correr, não conseguiu. Parecia que estava sendo sugado para o seio da terra. Para a sepultura! Acreditou que fosse um defunto que despertara em busca de vendeta e caiu no chão do campo santo, fulminado por um ataque cardíaco.

Assim eram as histórias de terror daquela época. O máximo de medo que se podia sentir sentado numa cadeira na calçada. Hoje, uma velhinha tomando sol na calçada, fazendo tricô, é razão de espanto e, ao mesmo tempo, de júbilo. Sinal de que ainda existe civilização. Um pequeno pedaço dela, mas ainda assim civilização.

domingo, 31 de maio de 2009

ANTIMATÉRIA, ASSASSINATOS E UM CONCLAVE


O escritor norte-americano Dan Brown tem fixação na Igreja Católica. Em "O código Da Vinci" criou uma trama rocambolesca desencadeada por uma hipótese intrigante para alguns e blasfema para outros: a união entre Jesus Cristo e Maria Madalena teria gerado uma linhagem de descendentes. Levada ao cinema por Ron Howard (de "Uma mente brilhante"), a história fez tanto sucesso que a adaptação de "Anjos e demônios", romance anterior do autor, foi autorizada pela Sony Pictures e agora chega às salas de exibição brasileiras.

Tanto "O código Da Vinci" (EUA, 2006) quanto "Anjos e demônios" (EUA, 2009), em cartaz no Castanheira 2 (legendado) e 6 (dublado) no Pátio Belém 1 (dublado) e 4 (legendado), são protagonizados pelo simbologista Robert Langdon (Tom Hanks), professor da Universidade de Harvard e especialista em decifração de signos. Numa licença poética, o enredo é deslocado cronologicamente para depois da ação do filme anterior.

Nessa nova aventura, Langdon é chamado a Roma para ajudar na investigação do sequestro, seguido de ameaça de morte, de quatro cardeais considerados favoritos em um conclave que está prestes a se iniciar depois da morte do Papa. O rapto tem caráter teológico e teria sido praticado por uma organização denominada Illuminati, composta, originalmente, por homens de ciência que buscavam se defender do obscurantismo da Igreja Católica durante.

Séculos atrás, durante a Renascença, o secto teria sido vítima de feroz perseguição e de um massacre. Para Langdon, os atentados seriam uma espécie de vingança fermentada há séculos. Esse ponto de partida é até interessante, mas, ao misturar-se a uma sucessão de informações desencontradas, que envolvem desde os rituais dos conclaves até a produção da antimatéria, o filme começa a adentrar o território do absurdo e do inverossímil até nele afundar impiedosamente.

A sequência do helicóptero, que antecede o desfecho da trama, é digna de James Bond, Batman ou Homem-Aranha. Mas em um filme como "Anjos e demônios" as cenas servem apenas para demonstrar o quanto a viagem de Dan Brown foi longe demais.

Logo no início do filme, é apresentada a cientista Vittoria Vetra (Ayelet Zurer), que atuará ao lado de Langdon na busca de uma solução para o sequestro. Ela é a pesquisadora da tal antimatéria que, pelo menos no filme, é capaz de mandar pelos ares o Vaticano e todos os seus tesouros. E é claro que os Illuminati, que parecem vilões saídos dos filmes de James Bond, dela se apossam.

Como a trama se desenrola em Roma, cidade abarrotada de símbolos religiosos por todos os lados, Langdon parece pinto no lixo, orgástico, ainda que às custas de quase ser morto várias vezes, por sufocamento inclusive. O personagem – defendido por um Hanks não mais do que burocrático – se entrega à solução do enigma com entusiasmo colegial. Mas, no Vaticano, ele só tem como aliado o substituto do Papa, dito camerlengo (Ewan McGregor, na melhor atuação do longa).

Mais bem-resolvido e menos tolo do que "O código Da Vinci", "Anjos e demônios" peca (ops!) por misturar fato e ficção, fantasia e realidade de forma um tanto quanto leviana. Como lida com temas que fascinam e interessam muita gente, acaba por prestar um desserviço educativo, fornecendo ao grande público, como se fossem verdades, informações históricas, teológicas e científicas equivocadas, truncadas ou inventadas.

É claro que a alegação de que se trata apenas de um filme ficcional, de entretenimento, e não de um documentário, pode absolver tanto a Brown quanto a Howard desse exercício de má fé. Mas não tira da superprodução, em alguns momentos até envolvente do ponto de vista narrativo, um quase intragável paladar de engodo, cuja missão é fazer com que pessoas mal informadas se sintam cultas.

TEXTO PUBLICADO NA PÁGINA 20 DA EDIÇÃO DE HOJE DO JORNAL AMAZÔNIA

terça-feira, 26 de maio de 2009

O DRAGÃO QUE LUTA COMO UM BEIJA-FLOR


Entrar num ringue contra um lutador profissional que nunca foi batido em suas 14 lutas deixaria qualquer um preocupado. Não adianta amolecer as pernas quando se sabe que Rashad Evans, que está do outro lado do corner, é o campeão da categoria meio-pesado (93kg), a mais disputada do maior evento do esporte mais duro da atualidade. Tem que ter um coração gigantesco para enfrentar um cara que tem o apelido de "Sugar", em homenagem a Sugar Ray Leonard, um dos maiores lutadores que o mundo do boxe já viu. Mas o esporte aqui é outro. Mais traumático, desafiador e exigente.

O público que compareceu ao UFC 98, realizado em Las Vegas, Nevada, na madrugada do último domingo, precisou esperar dois minutos para conhecer o desafiante, que nasceu na Bahia mas luta pela bandeira do Pará. Com a perna esquerda esticada Lyoto "The Dragon" Machida tocou com o peito do pé na orelha de Evans e mostrou o cartão de visita. Foi o bastante para, segundos depois, a luta pela preferência do público estar encerrada com o coro para o brasileiro.

Lyoto luta como um beija-flor. Mantém-se parado na frente de seus adversários esperando o erro. É o rei do contra-golpe. Não importa a experiência do oponente, tocar o rosto do baiano-paraense é tão difícil quanto pegar o pássaro com as mãos. Sempre é uma questão de tempo para o erro acontecer. Neste caso foi no último minuto do primeiro round, quando uma sequência iniciada com um chute esquerdo e finalizada com dois diretos alternados abalou a confiança do americano que foi à lona por instantes.

No começo do segundo assalto o campeão evitou a tradicional tocada de luvas. Mais comedido ainda que na etapa anterior, Evans sentiu que não consegueria entrar no jogo. Lutava recuado e dentro do raio de ação do brasileiro. Talvez esperando o inevitável, que chegou de forma brutal faltando 1m30 para o fim do round. Foram 25 segundos de uma série impressionante de socos, chutes e empurrões. Lyoto parecia um toureiro brincado com um bezerro. O golpe certeiro foi um cruzado de direita no queixo. As pernas retorcidas, o pescoço deslocado e o olhar vidrado de Evans fizeram o juiz correr para interromper a luta.

Se tivéssemos olhado para o desafiante com atenção antes da luta, teríamos notado que ali também estava um lutador invicto, com 14 lutas em diversas categorias - seis delas pelo UFC. Um lutador que não toma uma gota de álcool há anos e que treina no mínimo 10 horas diárias desde que tinha 15 anos. Centrado e de uma inteligência corporal e reflexos anormais. "Eu chorei, eu treinei e agora sou campeão", disse logo após o confronto com a voz trêmula o lutador que fez parecer brincadeira enfrentar um campeão que nunca havia sido derrotado, na casa do adversário, pela categoria mais difícil do esporte mais exigente do mundo.

domingo, 17 de maio de 2009

NOVO STAR TREK RESPEITA TODOS OS FÃS


Agora é oficial. Foi aposentado de vez o título em português Jornada nas Estrelas, pelo qual o cultuado seriado de ficção científica ficou conhecido no Brasil desde os anos 1960. Em compensação, a franquia Star Trek está mais viva do que nunca. O novo longa-metragem da marca consagrada, que resgata o passado dos protagonistas da série original e teve estreia mundial no fim de semana passado, é espetacular e, desde já, um dos candidatos a blockbuster do ano.

Ao apresentar às novas gerações a história da tripulação original, o filme ressuscita em grande estilo um dos maiores ícones da cultura pop do século 20. E quem duvidava ser possível tornar as aventuras na nave USS Enterprise atraentes para um público com menos de 20 anos, sem desrespeitar os fãs de antigamente, preste atenção: a missão foi cumprida. E brilhantemente. Uma lição para a turma que vem adaptando os herois de histórias em quadrinhos para a telona, vide o equivocado "X-Men - Origens: Wolverine".

A trama de "Star Trek" (EUA, 2009), em cartaz no Castanheira 7 (dublado) e Pátio Belém 2 (legendado), revela a infância do capitão Kirk (Chris Pine, de "Sorte no amor") e de Spock (Zachary Quinto, o Sylar da série "Heroes"). Enquanto o primeiro cresce sem pai, tocando o terror na zona rural do estado de Iowa (EUA), o segundo enfrenta o desafio de ser um estranho no ninho em um planeta regrado pela razão. Os vulcanos, raça de seu pai, prezam o conhecimento e consideram a emoção um sinal de fraqueza. Acontece que a mãe de Spock, vivida por uma quase irreconhecível Winona Ryder, é terráquea e legou ao filho o "defeito" de não conseguir esconder inteiramente seus sentimentos.

As razões que levam tanto Kirk quanto Spock a dar guinadas radicais e embarcar na Frota Estelar, o Exército (ou Marinha, para os mais preciosistas) de paz da Federação, têm suas raízes nessa fase da vida dos personagens. Kirk, órfão de pai e filho carente de mãe ausente, busca a autoafirmação. Spock, por sua vez, padece com o preconceito que sofre tanto por parte de colegas quanto de superiores.

É impossível aqui não fazer analogias entre o personagem, dividido entre duas culturas e etnias, e o presidente Barack Obama. A tese defendida pelo filme, no entanto, é que ser "mestiço" é uma qualidade da qual se orgulhar.

Em "Star Trek", Kirk e Spock embarcam juntos, porém como quase inimigos, na viagem inaugural da Enterprise, onde acabarão conhecendo os demais personagens clássicos da franquia, como o médico McCoy (Karl Urban, de "Desbravadores"), Nyota Uhura (Zoe Saldana, de "Ponto de vista"), Hikaru Sulu (John Cho, da série "Ugly Betty") e o impagável Pavel Chekov (Anton Yelchin, de "Alpha Dog"), responsável por algumas das melhores piadas do longa.

Mas, como não há filme de aventuras (no espaço ou não) sem um bom vilão, era necessário encontrar um antagonista à altura do retorno de Star Trek. E, acreditem, a escolha do australiano Eric Bana (de "Munique" e "Hulk") é mais um dos muitos acertos da produção. Ele brilha como o malévolo Nero, um romulano cujos planos de vingança (não convém explicar quais são) envolvem Spock e a destruição do planeta Vulcano.

Como já era de se esperar, antes de enfrentar Nero, os jovens protagonistas terão de lidar como seus conflitos íntimos e pessoais.
Se o roteiro, apesar de simples, funciona muito bem e os efeitos especiais e direção de arte são brilhantes, a trilha sonora composta pelo criativo Michael Giacchino, responsável pelas trilhas das séries "Lost" e "Alias", além das animações da Pixar, "Os incríveis" e "Ratatouille", dá ao filme o sentido de grandiosidade que a saga merece.

O maior responsável pelo êxito de "Star Trek" é mesmo o diretor J. J. Abrams, o homem por trás do fenômeno televisivo "Lost". Ele consegue vencer o difícil desafio de ser original sem menosprezar a nostalgia (a cena final do filme é de arrepiar) ou diluir a essência do seriado. Portanto, que venha "Star Trek 2".

TEXTO PUBLICADO NA PÁGINA 20 DO JORNAL AMAZÔNIA DE HOJE
Powered By Blogger

Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.