quinta-feira, 13 de novembro de 2008

AS MULHERES GOSTAM DE FICAR TRISTES


Você olha para a sua mulher e ela está com a cara amofinada. Hum. Aí tem. Você a conhece, sabe que ela está chateada. Será que é algo que você fez? Ou algo que você não fez? Deve ter sido. Sempre é. Você chega para ela com todo o jeito e:
— Quê que foi?
Ela, ligeiramente impaciente:
— Quê que foi o quê?
— Você parece chateada...
Um pouco menos ligeiramente impaciente:
— Não é nada.
— Como assim, não é nada? Você está estranha.
Depois de um suspiro baixo, definitivamente impaciente:
— Estou triste, só isso.
— Por quê?
Outro suspiro. Levemente irritada:
— Por nada.
— Como assim por nada? Tem que ter alguma coisa!
Mais levemente irritada:
— Por nada, já disse!
— Ninguém fica triste por nada! Tem que ter algo!
Horrivelmente irritada:
— Já disse que não tenho nada!
E, antes que você possa contra-argumentar, ela pronuncia a frase definitiva e irrespondível:
— Tenho o direito de ficar triste!
Essa frase sempre me desconcerta. Porque direito é sempre algo bom, não é? A pessoa tem direito de morar bem, direito de ser feliz, direito de ganhar o décimo-terceiro e tal e coisa. Ninguém reclama ter o direito, por exemplo, de ser atropelado. Ou, sei lá:
— Tenho o direito de ter hemorróidas!
— Tenho o direito de fazer tratamento de canal!
— Tenho o direito de passar a minha vida inteira em Timboteua!
A mesma coisa isso de ficar triste. Por que as mulheres reivindicam o direito de ficar triste? Quem é que gosta de ficar triste?
Bem. Elas gostam. Elas querem ter o direito disso.
Assim, quando a sua mulher disser que não compreende por que você sofre por causa do futebol, responda simplesmente:
— Tenho o direito de sofrer!
Para você isso não significa nada, mas ela entenderá.
Por ter travado esse diálogo inúmeras vezes, sei que, na verdade, tudo não passa de uma cilada. Quando uma mulher está triste, ela quer que você pergunte por que ela está triste, mas, ao mesmo tempo, ficará irritada se você perguntar por que ela está triste.
Ela quer é falar. Falar, falar, falar. Vai dizer que as coisas estão erradas na vida dela, que ela precisa mudar e biribibi, mas não será nada objetivo. Muito irritante, sei, mas você precisa se conter e não perguntar os motivos de tudo aquilo. Não tem motivo, compreendestes? Toda aquela cena é só para falar. Falar, falar, falar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA // A treva branca da globalização


Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness), do brasileiro Fernando Meirelles, em cartaz no “circuito” Moviecom desde a sexta-feira passada, é um filme sobre a ausência do olhar e que, por sua vez, também passa uma sensação curiosa de déjà vu. Mas também deixa uma forte sensação no espectador ao investigar os efeitos da "treva branca" que o prêmio Nobel José Saramago descreve no seu livro - "um mar de leite" que chama a atenção pela luz, e não a escuridão.

A sensação parece marcada por um reconhecimento do esforço de produção, mas também pela já citada sensação de um terreno já muito trilhado.

As idéias aqui traduzidas de Saramago resultam numa obra tão semelhante a tantas outras no repertório do cinema fantástico (o recente Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan, o australiano The Last Wave, de Peter Weir, Extermínio, de Danny Boyle, para citar apenas três), o drama apocalíptico que nos traz um cenário desolador de colapso social e humano. Na verdade, não faz nem um ano que vimos algo do tipo em Eu Sou a Lenda (um desmanche sem vergonha de uma dezena de obras antepassadas), que, diga-se de passagem, também contava com a presença de Alice Braga no elenco.

A diferença aqui é que o apocalipse não é um efeito espetacularmente visual, mas uma deixa para reflexões internas que ganham peso na segunda metade do filme que investe numa claustrofobia que aproxima o filme do teatro filmado com sofisticados efeitos de luz e tonalidades brancas. Meirelles, o montador Daniel Rezende e seu roteirista e ator Don McKellar suam as suas camisas numa primeira metade atropelada, preocupada com a apresentação relâmpago de todos os personagens, alguns deles meros figurantes.

As reflexões ganham peso, na verdade, ou evaporam, dependendo da sua escola de pensamento, pois são parcialmente entregues em pacotes de uma narração em off na voz de Danny Glover que parece desvalorizar o trabalho de imagem que Meirelles, equipe técnica e atores usam para construir o discurso. Uma imagem do filme, em especial, se destaca pela simplicidade. Através de um efeito básico, mas incrível na sua eficácia, um garoto, que está cego esbarra numa mesa invisível que aparece repentinamente ao ser atingida.

E eis que vêm as vozes em off , nesse caso trazendo coisas tipo "pior do que não ver é não ser visto", algo que Meirelles abordou em leituras sociais nos seus Domésticas (1999) e Cidade de Deus (2002). Essa cegueira branca e inicialmente literal assola a população de um país sem face numa cidade grande genérica de algum lugar do mundo, abrindo o campo para o desespero e o flagelo social.

Esse aspecto "lugar nenhum" desta variação de apocalipse me chamou a atenção, sendo brasileiro e vendo um filme internacional feito por um diretor nacional. A transformação de São Paulo, usada como locação urbana perfeitamente travestida de um abandono calculado (excelente trabalho de arte), no espaço mítico e sem nome do filme, diz uma ou duas coisas sobre o trabalho de Meirelles, cineasta paulista que constrói, filme a filme, uma inusitada carreira para si mesmo.

Refaz, nos seus próprios termos, o que realizadores do país raramente fazem, e coloco isso sem juízo de valor, pois além de uma questão de competência para uma aceitação pelo mercado externo, há simplesmente algo de vocação. Curiosamente, da geração de Meirelles, apenas Walter Salles trilha caminho parecido, e talvez não seja coincidência que Salles é o outro diretor brasileiro com penetração no mercado internacional.

Depois de localizar Domésticas e Cidade de Deus em São Paulo e no Rio, Meirelles fez O Jardineiro Fiel na África e na Europa. Agora, passa para o próximo andar, assumindo um estado de abstração nacional e geográfica completa proposta por Saramago.

Assume o caminho tomado por diretores que o mundo externo inclui num mesmo escaninho, o dos "cineastas latinos" como Alejandro Iñarritu (Babel) e Alfonso Cuaron (Filhos da Esperança, outra visão apocalíptica multicultural), que abandonaram temáticas locais para abraçar projetos externos que, na melhor das hipóteses, refletem o mundo globalizado de hoje, na pior, um desinteresse por falar sobre sua própria realidade.

Optam por um discurso global (ou "globalizado") que reduz identidades culturais locais a um mero bip fraco no gigantesco radar do mundo. Isso é bom, ou é ruim? Talvez seja ruim para os cinemas nacionais que criaram esses cineastas, embora Ensaio Sobre a Cegueira não deixe dúvidas sobre seu pedigree: é uma produção brasileira co-realizada (técnica e financeiramente) com parceiros externos, especialmente do Canadá.

Em uma das coletivas de imprensa do filme, o caráter internacional da produção foi visto como algo apenas positivo. "O mundo se encaminha para a globalização real, e a realização desse filme é prova disso, com equipe composta por canadenses, japoneses, brasileiros, mexicanos, e a coisa mais incrível... só três americanos! Que maravilha!"

Alguns dos lugares comuns que compõem o filme também foram reforçados na coletiva. "Me interessei pela fragilidade da idéia que temos de sociedade, na qual patinamos numa fina camada de gelo. No final das contas, somos todos animais", disse Meirelles. Ele também mostrou-se interessado pelo fato de eventos apocalípticos como o furacão Katrina, o 11 de Setembro e a atual crise financeira mundial em pauta.

Uma jornalista britânica enxergou no filme um subtema do "abandono estatal", como o observado durante a tragédia do Katrina, em Nova Orleans, algo, que para o olhar brasileiro, poderia já ter uma leitura nacional em relação às prisões do país.

Na verdade, Ensaio Sobre a Cegueira, que adapta fiel e assustadamente os escritos de Saramago, sugere inúmeras idéias sobre nossa incapacidade de enxergar o que sempre esteve ali, ou de perder a capacidade de reconhecer imagens que nós sempre tivemos. Parece cair como uma luva não só para o filme em questão, mas também para essa sempre inesperada atividade de ver cinema e tentar apreendê-lo.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

CONVERSA COM UMA VEGETARIANA PSICÓTICA


- O que você está fazendo? (pergunta ela em tom visivelmente apreensivo).
- Abrindo uma caixinha de leite (respondi com a famosa expressão "já vai começar").
- Isso não é leite!! (diz com o conhecido tom de desprezo)
- ÉÉÉÉÉ.. malditas redes de supermercado nos alienando e nos fazendo acreditar que dentro de caixinhas de leite tem leite.
- Você sabe que isso não é leite de verdade, isso aí é conservante puro.
- Na verdade eu ADOOOORO mesmo é o gosto de conservante, se eu pudesse compraria só o conservante, mas o leite vem junto, o que eu posso fazer?
- Você está se matando! Não vê isso?
- Eu sei.. era tomar leite ou me enforcar, fui pelo caminho menos doloroso, admito!
- Você não dá valor a nada mesmo… (diz enquanto abre a geladeira). Ai! M-e-u D-e-u-s!!! (diz como quem não acredita no que vê).
- O que? O que? O QUE?
- Carne?!?!? Como você pode apoiar o assassinato de animais?
- Não é assassinato, é cadeia alimentar.
- Ahn?
- Veja bem, estou só cumprindo meu papel social. Como representante da espécie homo sapiens é meu dever comer carne. Comer a comida da comida é que seria errado.
- Oi??
- Você prega tanto a defesa dos animais e o que faz? Desequilibra o mundo comendo alface. Como predador natural das vacas é seu dever cívico comer um bife diariamente. Se o ecossistema está assim é por culpa de pessoas como você, que são incapazes de pensar no bem-estar dos animais.
- Eu desregulo o ecossistema??? Eu não respeito os animais? E-U?
- Obviamente. Temos os vegetais (produtores) na base da pirâmide, depois temos os animais herbívoros, acima os predadores, divididos em grupos, e no topo do grupo dos predadores, temos a espécie humana e você está desregulando a pirâmide! Você não se aceita e tenta ocupar o segundo nível trófico, você é um ser humano e se vê como uma vaca. Tem medo de assumir suas responsabilidades no mundo.
- Maaa-aa-s-ss… ahn.. eu faço isso pelos animais!
- Não, você finge que seus motivos são puros, finge que faz isso para salvar o mundo, mas na verdade está comendo a comida da comida e provocando desequilíbrios ambientais, não se envergonha? Não duvido que o mico leão dourado esteja ameaçado de extinção por sua culpa. Não duvido que os leões estejam desaparecendo das savanas porque as pessoas estão comendo a comida da comida deles. Detesto essas pessoas sem consciência ecológica. Cenoura free!!! Parem com o desequilíbrio ambiental.. comam carne!!!
- Ma-a-a.. - sss
- Nada de "mimimimi.. mas, mas", senta aí que eu vou te fritar um bife.


OS TIPOS DE VEGETARIANOS

Eu como o que estiver disponível, com uma única restrição: se ainda estiver se mexendo, convém matar antes…Mas sei que existem pessoas que teimam em não aceitar sua condição de predadores. Vejamos os tipos de vegetarianos que existem:

Ovolactovegetarianos não comem carne, mas comem ovos e bebem leite.

Lactovegetarianos não comem carne nem ovos, mas bebem leite.

Ovovegetarianos não comem carne nem bebem leite, mas comem ovos.

Vegans não comem carne, nem ovos, nem bebem leite.
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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.