
Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness), do brasileiro Fernando Meirelles, em cartaz no “circuito” Moviecom desde a sexta-feira passada, é um filme sobre a ausência do olhar e que, por sua vez, também passa uma sensação curiosa de déjà vu. Mas também deixa uma forte sensação no espectador ao investigar os efeitos da "treva branca" que o prêmio Nobel José Saramago descreve no seu livro - "um mar de leite" que chama a atenção pela luz, e não a escuridão.
A sensação parece marcada por um reconhecimento do esforço de produção, mas também pela já citada sensação de um terreno já muito trilhado.
As idéias aqui traduzidas de Saramago resultam numa obra tão semelhante a tantas outras no repertório do cinema fantástico (o recente Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan, o australiano The Last Wave, de Peter Weir, Extermínio, de Danny Boyle, para citar apenas três), o drama apocalíptico que nos traz um cenário desolador de colapso social e humano. Na verdade, não faz nem um ano que vimos algo do tipo em Eu Sou a Lenda (um desmanche sem vergonha de uma dezena de obras antepassadas), que, diga-se de passagem, também contava com a presença de Alice Braga no elenco.
A diferença aqui é que o apocalipse não é um efeito espetacularmente visual, mas uma deixa para reflexões internas que ganham peso na segunda metade do filme que investe numa claustrofobia que aproxima o filme do teatro filmado com sofisticados efeitos de luz e tonalidades brancas. Meirelles, o montador Daniel Rezende e seu roteirista e ator Don McKellar suam as suas camisas numa primeira metade atropelada, preocupada com a apresentação relâmpago de todos os personagens, alguns deles meros figurantes.
As reflexões ganham peso, na verdade, ou evaporam, dependendo da sua escola de pensamento, pois são parcialmente entregues em pacotes de uma narração em off na voz de Danny Glover que parece desvalorizar o trabalho de imagem que Meirelles, equipe técnica e atores usam para construir o discurso. Uma imagem do filme, em especial, se destaca pela simplicidade. Através de um efeito básico, mas incrível na sua eficácia, um garoto, que está cego esbarra numa mesa invisível que aparece repentinamente ao ser atingida.
E eis que vêm as vozes em off , nesse caso trazendo coisas tipo "pior do que não ver é não ser visto", algo que Meirelles abordou em leituras sociais nos seus Domésticas (1999) e Cidade de Deus (2002). Essa cegueira branca e inicialmente literal assola a população de um país sem face numa cidade grande genérica de algum lugar do mundo, abrindo o campo para o desespero e o flagelo social.
Esse aspecto "lugar nenhum" desta variação de apocalipse me chamou a atenção, sendo brasileiro e vendo um filme internacional feito por um diretor nacional. A transformação de São Paulo, usada como locação urbana perfeitamente travestida de um abandono calculado (excelente trabalho de arte), no espaço mítico e sem nome do filme, diz uma ou duas coisas sobre o trabalho de Meirelles, cineasta paulista que constrói, filme a filme, uma inusitada carreira para si mesmo.
Refaz, nos seus próprios termos, o que realizadores do país raramente fazem, e coloco isso sem juízo de valor, pois além de uma questão de competência para uma aceitação pelo mercado externo, há simplesmente algo de vocação. Curiosamente, da geração de Meirelles, apenas Walter Salles trilha caminho parecido, e talvez não seja coincidência que Salles é o outro diretor brasileiro com penetração no mercado internacional.
Depois de localizar Domésticas e Cidade de Deus em São Paulo e no Rio, Meirelles fez O Jardineiro Fiel na África e na Europa. Agora, passa para o próximo andar, assumindo um estado de abstração nacional e geográfica completa proposta por Saramago.
Assume o caminho tomado por diretores que o mundo externo inclui num mesmo escaninho, o dos "cineastas latinos" como Alejandro Iñarritu (Babel) e Alfonso Cuaron (Filhos da Esperança, outra visão apocalíptica multicultural), que abandonaram temáticas locais para abraçar projetos externos que, na melhor das hipóteses, refletem o mundo globalizado de hoje, na pior, um desinteresse por falar sobre sua própria realidade.
Optam por um discurso global (ou "globalizado") que reduz identidades culturais locais a um mero bip fraco no gigantesco radar do mundo. Isso é bom, ou é ruim? Talvez seja ruim para os cinemas nacionais que criaram esses cineastas, embora Ensaio Sobre a Cegueira não deixe dúvidas sobre seu pedigree: é uma produção brasileira co-realizada (técnica e financeiramente) com parceiros externos, especialmente do Canadá.
Em uma das coletivas de imprensa do filme, o caráter internacional da produção foi visto como algo apenas positivo. "O mundo se encaminha para a globalização real, e a realização desse filme é prova disso, com equipe composta por canadenses, japoneses, brasileiros, mexicanos, e a coisa mais incrível... só três americanos! Que maravilha!"
Alguns dos lugares comuns que compõem o filme também foram reforçados na coletiva. "Me interessei pela fragilidade da idéia que temos de sociedade, na qual patinamos numa fina camada de gelo. No final das contas, somos todos animais", disse Meirelles. Ele também mostrou-se interessado pelo fato de eventos apocalípticos como o furacão Katrina, o 11 de Setembro e a atual crise financeira mundial em pauta.
Uma jornalista britânica enxergou no filme um subtema do "abandono estatal", como o observado durante a tragédia do Katrina, em Nova Orleans, algo, que para o olhar brasileiro, poderia já ter uma leitura nacional em relação às prisões do país.
Na verdade, Ensaio Sobre a Cegueira, que adapta fiel e assustadamente os escritos de Saramago, sugere inúmeras idéias sobre nossa incapacidade de enxergar o que sempre esteve ali, ou de perder a capacidade de reconhecer imagens que nós sempre tivemos. Parece cair como uma luva não só para o filme em questão, mas também para essa sempre inesperada atividade de ver cinema e tentar apreendê-lo.