sábado, 5 de setembro de 2009

UM ANO DE BLOG DO SALES E O SHOW DO SCORPIONS EM BELÉM


Há um ano este pequeno e humilde blog dava os seus primeiros passos. Para comemorar o primeiro ano desse espaço pessoal no qual publico minhas reminiscências sobre os mais diversos assuntos resolvi republicar aqui uma das primeiras postagens dele.

Como há um ano também a banda alemã Scorpions fazia um grande show em Belém, escolhi o texto no qual falo sobre este espetáculo internacional jamais visto na terra de Nilson Chaves.


HARD ROCK NOSTÁLGICO

Foi só botar os pés no estacionamento do Parque de Exposições, onde está instalado o Cidade Folia, para choverem cambistas por tudo que é lado. "Olha o ingresso, olha o ingresso", "Tô vendendo", "Tô comprando", repetiam a toda hora. Antes do show, estavam vendendo os ingressos de pista a R$ 70. Depois do show começado, bilhetes chegaram a ser vendidos a R$ 50. Ingressos para a área Vip - que, aliás, não era tão Vip assim, já que houve um certo tumulto na entrada - foram vendidos pela metade do preço.

O Cidade Folia estava cheio, mas não lotado. Segundo a Polícia Militar, cerca de 10 mil pessoas assistiram ao show; a produção, no entanto, fala em 13 mil.

A banda alemã de hard rock Scorpions subiu ao palco do Cidade Folia com seis minutos de atraso (o show estava marcado para começar às 22h), mas a curta espera não chegou a incomodar o público, que se empolgou até com as músicas de outras bandas (Nirvana, Led Zeppelin, Deep Purple, Metallica e até Europa) que foram tocadas por um DJ antes da apresentação da atração da noite.

Aos primeiros toques na bateria de James Kottak, os outros integrantes, Klaus Meine (vocal), Rudolf Schenker (guitarra), Matthias Jabs (guitarra) e Pawel Maciwoda (baixo), entraram no palco e a platéia pulou, cantou e aplaudiu.

A primeira parte do show, que foi dividido em três - elétrica, acústica, elétrica - começou com Hour 1, música do mais recente álbum. A batida pesada da canção assustou parte do público, mais acostumado com o som leve e romântico das baladas do DVD Acústica. Aliás, muita gente se sentiu enganada ao final do espetáculo. "Foi muito pesado esse show. Se eu soubesse...", comentou uma garota, aparentando uns 20 aninhos, já no estacionamento interno do Parque de Exposições. Não deu para conter o riso.

Depois da nova canção, tocaram clássicos como Coming Home, No Pain No Gain e a instrumental Coast to Coast, que marcou o início da participação do guitarrista brasileiro Andreas Kisser, do Sepultura. Com quatro guitarras no palco, os Scorpions fizeram bonito e fecharam bem a primeira parte elétrica do show. A esta altura já dava para observar um certo ar de "que show é esse?" nos rostos da garotada da área vip. Mas aí veio o momento que as meninas e até alguns cinquentões tanto esperavam.

O palco foi rapidamente preparado para a seqüência acústica: banquinhos, instrumentos de percussão e as três dançantes backing vocals. A banda, com a companhia de Andreas, mandou mais e mais clássicos. Aliás, foi neste momento que ouvi um coroa, de mais ou menos uns 50 anos, comomerar: "Agora sim, esse é o Scorpions!". Os alemães aproveitaram o momento para mostrar o lado consciente e ambientalmente responsável. No telão, apareciam imagens da Floresta Amazônica e de atividades do Greenpeace. Na mensagem final, um apelo: "Parem com a destruição da Amazônia!"

Foi também na parte acústica que os primeiros assovios anunciaram a balada mor da banda - Wind of Change. A música pode até ser considerada atualmente a maior farofada, mas não dá para negar que canções assim são responsáveis pelas partes mais bonitas do show: luzes de celular foram acesas, milhares de braços foram levantados e a platéia cantou sozinha em alguns momentos. Em Holiday, o vocalista - que jogou aos fãs no mínimo umas 50 baquetas - arriscou algumas palavras em português e agradeceu o carinho do público com o tradicional "Muitóóó obriegaduuu".

Meine também esbanjou simpatia ao dar "bôua noitchê, Beléééiiiiim" e agradecer a empolgação do público, após cada canção. Mais tarde, o vocalista também fez uma média com os paraenses cantarolando uma versão peculiar de Aquarela do Brasil, charme que deve ser mantido para as outras apresentações da banda em solo brasileiro. O baixista Maciwoda fez sua parte para conquistar a simpatia dos belenenses vestindo uma camisa do Círio 2008 e usando ainda um cocar multicolorido atirado ao palco por algum maluco da platéia.

Com o já tradicional solo de bateria, Kottak fez graça e tocou um samba à la carnaval na Sapucaí. Depois, subiu na bateria, tirou a blusa e exibiu a enorme tatuagem "Rock & Roll Forever" (Rock & Roll para sempre) nas costas. Então, a terceira parte começou e Klaus emendou um "are you ready to rock?" antes de Blackout. Mas o show chegava ao final e ainda faltavam dois clássicos: Still Loving You e Rock You Like A Hurricane. A espera terminou no bis da banda. Os dois hits balançaram o público, que parecia dar tudo de si nos últimos momentos. E assim, perto do adeus e com o público em êxtase, a tatuagem clichê de Kottak fez ainda mais sentido.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O POLITICAMENTE (IN)CORRETO NELSON RODRIGUES


O jornalista, escritor e dramaturgo carioca Nelson Rodrigues faz falta nestes tempos de imoralidade política e cultura do politicamente correto. Reacionário para a esquerda e pornográfico para os conservadores, o torcedor nº 1 do Fluminense desdenharia, por exemplo, de um negro que pedisse para ser chamado de afrodescendente e do avanço das leis antitabagistas.

Defensores do politicamente correto (praga surgida na década de 70 nos EUA e que, depois de ser discutido nos 80 na Europa, se expandiu para a periferia) pretendem tornar a linguagem mais neutra e menos preconceituosa para certas pessoas ou determinados grupos sociais. Na teoria, tudo bem. Na prática, extingue o humor das relações sociais e tenta transformar todos num bando de escoteiros.

Frasista exímio, o mestre Nelson Rodrigues escreveu: "Invejo a burrice, porque é eterna". Lembro disso toda vez que ouço alguém chamar um velho de "pessoa da melhor idade" e, recentemente, me aconselharam a trocar funcionário público por "servidor público". O argumento é de que ele serve mais ao público do que ao Estado. Dei risada.

Também já me falaram que o termo homossexualismo deve ser evitado, pois possui uma carga pejorativa (o sufixo ismo associaria o homossexual a uma doença). A palavra "homossexualidade" seria a adequada por ser neutra. Como prefiro chamar homossexual de gay... Do jeito que as coisas vão, qualquer dia vão querer me obrigar a chamar anão de sujeito "verticalmente prejudicado". Aliás, adoraria ver a o espetáculo infantil Branca de Neve e os sete verticalmente comprometidos.

A editora Agir vem reeditando a obra de Nelson Rodrigues. Agora, chegou a vez de Memórias - A menina sem estrela (R$69), publicado originalmente em 1967 e cujo título é uma referência ao drama da sua filha Daniela, que nasceu cega. Trata-se de um conjunto de 80 crônicas, publicadas entre 18 de fevereiro e 31 de maio de 1967 no Correio da Manhã, então um dos principais jornais do Rio.

Com um texto coloquial delicioso, no qual acidez e bom humor se misturam o tempo todo, Nelson cria um painel do Brasil da metade do século passado ao falar de sua iniciação sexual, do assassinato do irmão Roberto, da Revolução de 30, do suicídio de Getúlio Vargas, da gripe espanhola, de futebol... O homem era mesmo genial.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

REPÓRTER DE TEVÊ NÃO SUA?!?


O cabra pra ser repórter de tevê tem que ter elegância. Cada vez que vou a uma coletiva de imprensa vejo como é complicado trabalhar em televisão. Enquanto eu e meus colegas de jornalismo impresso chegamos de calça jeans, tênis e camiseta, muitos com a barba por fazer, os repórteres de tevê sempre estão com o terno impecavelmente alinhado, a gravata nem um milímetro fora do lugar, sapatos lustrados e o rosto mais liso do que bolso de pobre com o nome no SPC. Isso quando não estão maquiados - dizem, não sei, que o brilho do rosto atrapalha o não sei o que da imagem na câmera. Questiúnculas técnicas.

E dia de calor? Aquele sol de fritar ovo no asfalto e os caras no maior profissionalismo, sem pingar uma gota de suor. Dentro do terno, uns 200 graus, a sensação de estar vestido numa embalagem a vácuo e os caras ali, firmes, sem uma mancha de suor na roupa.

Mas, acredito eu, que a maior prova que o repórter de tevê dá de elegância é quando não está trabalhando. Porque onde ele vai é reconhecido. No restaurante, no shopping, na praça, no mercado, no estádio, no cinema, na p... (é, lá mesmo) sempre tem um que cutuca o sujeito do lado e larga "aquele ali não é o cara da tevê..." E lá vem o chato puxar assunto ou fazer aquele comentário inédito: "nossa, você é tão diferente fora da televisão". Criatividade é uma coisa incrível...

Nesse ponto, trabalhar em veículo impresso é vantagem. Ninguém nunca vai saber como você é - a menos que você tenha um blog e sua foto com a cara amassada apareça nele. Mas, se ninguém lê teu blog, também não faz diferença.

Lembro de certa vez, quando ainda trabalhava na cobertura da Tuna Luso, fui dar uma olhada nos jornais na banca. Entre as páginas expostas, havia uma matéria minha. Um dos populares do meu lado não gostou muito do que leu sobre o time dele. Virou pra mim e sentenciou: "esses jornalistas são 'soda', não sabem nada do que falam".

Temendo voltar pra casa com um olho roxo, pois com torcedor contrariado e mulher com TPM não se mexe, achei melhor não discordar. E, muito mais prudente, mantive minha identidade preservada.

Já se naquela oportunidade fosse eu um repórter de tevê - o que só seria possível se o grande doutor Ivo Pitanguy tivesse um bisturi de condão, pois com essa carinha não passo nem da portaria da emissora - teria que explicar por que escrevi aquilo, que respeitava a opinião dele, mesmo sendo contrária à minha, que há várias formas de se interpretar um texto e blablabla.

Portanto, fica a dica para você, jovem que pretende se alistar nas trincheiras do jornalismo televisivo: prepare-se para o embate. Afinal, não é só porque suas tias acharam lindo seu discurso na formatura da catequese que você tem postura pra ler o teleprompter na bancada do telejornal. Tem que ter talento, uma boa dose de elegância e, se possível, um bom cirurgião pra retirar suas glândulas sudoríparas. Afinal, não é fácil ser Willian Bonner. Tá gravando? Boa noite! (Sobem os créditos.)
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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.