
Lula – O Filho do Brasil (2009) é o nosso filme mais caro. Como geralmente ocorre nesse tipo de produção, o filme não precisa nem prestar, pois o negócio é vê-lo. Muito já foi dito nos últimos meses sobre esse produto, da ruidosa pré-estréia no Festival de Brasília, à controvérsia sobre o caráter eleitoreiro de um filme que seria bajulador, feito para um presidente que ainda está no poder. É notável, no entanto, que pouca coisa tenha sido dita sobre a qualidade do filme em si.
Sei que é um desafio abordar em resenha o filme de um cineasta que passa por um drama pessoal no momento do lançamento nacional do seu mais novo trabalho. O diretor carioca Fábio Barreto, em coma desde o último dia 19 de dezembro, vítima de um acidente grave no Rio, recupera-se enquanto seu filme segue nos cinemas.
O desafio vem da sensação de separarmos o homem, Fábio, que sai de uma situação difícil de saúde, do cineasta e sua obra. Mas a tarefa fica menos difícil a medida que levamos em consideração a natureza mascate de sua carreira - característica jamais negada pelo próprio diretor.
Aos 52 anos, Fábio Barreto tem 13 filmes no currículo, alguns muito precários, como Bela Donna e A Paixão de Jacobina. Seu melhor momento como realizador talvez tenha sido O Quatrilho (1996), recompensado com uma indicação ao Oscar.
Seus pais, Luiz Carlos e Lucy, produtores de enorme prestígio e poder, são responsáveis por grandes momentos do cinema brasileiro, como Terra em Transe e Memórias do Cárcere. Hoje, fazem filmes populares, ou populistas, de estilos mais simples. Mas mesmo com toda esta experiência, eles ainda cometem erros de principiantes.
Não consigo entender porque decidiram mostrar Lula – O Filho do Brasil em Brasília, dois meses antes da estreia? Sendo o filme tão ruim, não teria sido mais importante para o produto lançá-lo em cima do público sob um véu de mistério e sem que ninguém externasse nenhuma das opiniões negativas já tão divulgadas na imprensa e internet?
Mas o problema maior é que o filme parece feito a partir de uma molde genérico do padrão bio-filme, ou especial de TV (do tipo "Por Toda a Minha Vida", da Rede Globo). A comparação com 2 Filhos de Francisco é inevitável. O sucesso de cinco milhões de espectadores de cinco anos atrás é claramente a receita a partir da qual o filme foi montado, como se aquele outro filme fosse alguma maravilha. E foi, só que financeira.
De bebê sertanejo a líder sindicalista no ABC paulista, seguimos com muita paciência momentos da vida de Lula, dramatizados sem muita força, exceto num momento.
Em 1980, Lula, discursando para uma multidão num estádio, sem microfone, pede que o que diz seja passado para os metalúrgicos que estão atrás, e o discurso segue em ondas de gritos. É uma sequência que se destaca do todo.
No restante do filme, no entanto, o tom folhetinesco predomina. O pai (Milhem Cortaz, caracterização infeliz) parece um robô nordestino, com defeito. A mãe, Dona Lindu (Glória Pires), é mais uma mãe coragem, muleta popular e frequente desse cinema comercial brasileiro (Cazuza, Zuzu Angel, Salve Geral). Ela não decola como personagem, pois atua mais como uma figurante com falas.
Se Dona Lindu é uma santa de um jeito só, Lula (Rui Ricardo Dias) é só dignidade e mito, nosso Evito. Cada imagem de Dias, que tem momentos eficazes de caracterização, nos leva à grande questão:
Captar somas gigantescas de dinheiro (orçamento divulgado está em torno de 16 milhões de reais) via patrocínio direto, para enaltecer a trajetória de um presidente ainda no poder é estranho. Nos EUA, W., de Oliver Stone, relato irônico, mas respeitoso, sobre George W. Bush, foi lançado no último mês do mandato. Isso, sem sombra de dúvida, demonstra o caráter oportunista de seus produtores.
E o pior é que ao ser submetido a um olhar técnico de cinema, nossa produção mais cara não aparenta o dinheiro que custou. Há no filme, por exemplo, uma cena dos anos 50, onde o Recife de 2009 é usado como fundo.
A cobrança de ver o que dizem ter gastado na tela é muito mais do que justa. Os Barretos jogam o jogo do cinema industrial, dos filmes que são capazes de conquistar 2 milhões de espectadores. Nesse tipo de cinema, o orçamento vira notícia e o público vai ver o filme esperando ver o tipo de imagem popular que o dinheiro compra.
Avatar, por exemplo, gostando ou não, está tudo lá, para quem quiser cobrar, cada milhão escorrendo da tela. Na nossa maior produção, temos a mesma articulação indigente de planos de sempre, e uma sensação estranha de "onde foi parar a grana?"