quinta-feira, 14 de maio de 2009

CARCAJU DOMESTICADO


Conta o cineasta brasileiro Bruno Barreto que, certa vez, durante seu casamento com a atriz norte-americana Amy Irving, estava lendo uma história para o enteado dormir. Lá pelo meio do conto, o garoto, filho de Amy com Steven Spielberg, perguntou: "afinal, quem é o mocinho e quem é o bandido dessa história?". No que pensou Barreto: "só podia ser filho do Spielberg, mesmo".

Taí. Maniqueísmo. O grosso da produção de Hollywood - onde Spielberg reina há décadas e sintetiza boa parte de sua filosofia - é maniqueísta. Quer dizer, divide diametralmente quem é bom e quem é mau. Não há espaço para meio termo. O meio termo significa dúvida. E filmes não se prestam para tal. O cinema feito em Hollywood é, antes de tudo, feito para divertir. Deixe o cérebro na bilheteria e seja feliz.

Nada de errado numa lobotomia de vez em quando. Afinal de contas, ninguém precisa de profundidade narrativa o tempo todo. O problema é quando grandes estúdios tentam trabalhar com personagens que são justamente esse delicado meio termo com os quais não estão acostumados a lidar. Personagens que não são nem mocinhos nem bandidos. Nem heróis nem vilões. Personagens que são ... Wolverine.

Heróis têm uma moral definida, um código de conduta claro e, por mais propensos que estejam, não fazem nada que não seja heroico. Eles não traem sua natureza. Por isso são heróis. Mas Wolverine não tem nada disso. Sua natureza é a do animal, o ID em estado puro. Quem leu pelo menos uma história do mutante de garras de adamantium sabe que ele não faz nada que não seja de seu interesse. Se, no trajeto, conseguir/ puder ajudar os demais, ótimo. Senão, perdeu. Ele toma uma cerveja e segue adiante sem nenhum peso na consciência.

Mas como colocar isso em película? Não colocar, simples. Pega-se o caracter - e não o personagem - e faz-se dele o que for preciso. É o que acontece nesse "X-Men Origens: Wolverine" (EUA, 2009), direção Gavin Hood, em cartaz no Castanheira 1, 2 e 6, Pátio Belém 4 e 5 e Castanhal 3.

Aquele sujeito com estiletes de metal saltando dos nós dos dedos e de cabelo engraçado é uma criação original dos roteiristas David Benioff e Skip Woods, que Hood tratou de filmar. E só.

O Wolverine (Hugh Jackman) desse "X-Men Origens" é outra pessoa. Não se trata do carcaju sanguinolento e atormentado que conquistou gerações - nos gibis, desenhos animados e videogames - por ser justamente uma brutal contraparte ao bom mocismo dominante em seu grupo (no caso, o universo Marvel inteiro). No filme, Wolverine só falta vestir uma batina e tentar converter seus inimigos com sermões, de tão bunda-mole que aparece. Sequer há hemácias fora do seu habitat natural, para se ter uma ideia.

Nem é preciso também perder muito tempo comentando as bizarras e desnecessárias inserções de outros mutantes, o retrato acabado de que ninguém ali - do diretor à mocinha do café - fazia a menor ideia do que estava tratando. Lembrou até o filme de Street Fighter, tamanha falta de conexão com sua origem - ironia das ironias.

É tanto desencontro de informação, tanta saída absurda para um roteiro que não é mais do que amador, tanta ponta solta enfim, tanto clichê de filme de ação da Sessão da Tarde, que é difícil não pensar que até a excelente performance de Jackman nos primeiros dois filmes dos X-Men foi apenas sorte. Deveria ter ficado por isso mesmo.

TEXTO PUBLICADO NA PÁGINA 20 DO JORNAL AMAZÔNIA DE HOJE

ABAIXO CENA COM O VERDADEIRO WOLVERINE

terça-feira, 12 de maio de 2009

AS TATUAGENS MAIS RIDÍCULAS

Sempre fiquei em dúvida se teria coragem em fazer uma tatuagem. Há uns dez anos, achei que seria hora e fui pesquisar qual seria o melhor desenho para marcar meu corpo. Olhei, olhei e nada me agradou. Pensava: se me visto de forma ridícula hoje posso trocar de roupa amanhã. Mas com tatuagem é um pouco diferente, certo?

Nunca achei uma tatuagem que eu realmente quisesse que estive presente em todos os meus dias. Já tenho defeitos demais com os quais preciso conviver. Talvez seja só o medo da agulha. Não sei. Até gostava daquela tatuagem clássica da ave no por do sol. Estilo Vereda Tropical. A novela em que Mario Gomes viveu o jogador de futebol Luca, que jogava no Cantareira e acabou indo parar no Corinthians no último capítulo do folhetim eletrônico.

No fim, nunca fiz. E fico imaginando quantos caras não deveriam ter feito o mesmo. Para aqueles como eu, um livro que serve de consolo para a, digamos assim, atitude acertada: "Sem arrependimentos".

O livro promete mostrar as mais bizarras tatuagens já feitas em um ser humano. E tem coisa realmente ridícula lá. Um amputado que desenhou uma unha no braço, o rosto de bin Laden, uma marca de tapa no traseiro e algumas das minhas preferidas:









quarta-feira, 6 de maio de 2009

LER OU NÃO LER...


Por vezes me pego a pensar sobre coisas que não interessam a ninguém. Muito menos a mim. Coisas que não farão a menor diferença na vida dos outros. Mesmo assim não sai da minha cabeça até conversar com alguém. Duro é achar um desocupado que entre na conversa. Duro é achar alguém que tope discutir a crítica. Mais duro ainda é criticar a crítica quando não se é crítico. Captou como a coisa é dura?

Na era pré-internet a crítica exercia uma papel fundamental na indicação dos filmes que estavam entrando em cartaz. Era basicamente por ali que se consultava o que assistir nos cinemas. Claro que muitos nem sempre concordavam com o que liam. Só que era muito difícil achar uma segunda opinião. Tudo era concentrado nas edições de quinta e sexta-feira dos suplementos culturais dos jornais e na revistas mensais de cinema, que traziam a programação mais focada no eixo Rio-São Paulo.

Você se dirigia ao cinema e pronto. Se tivesse amigos interessados sobre filmes trocava uma conversa num bar. Hoje está tudo mais complicado e simples. Pode-se saber a programação dos cinemas diretamente nos sites das distribuidoras, dos shoppings, dos portais e afins. Separou-se a crítica do serviço. Mas a crítica continua aí firme e forte, sinal que muitas pessoas estão querendo saber o que os especialistas acham de determinada obra. Por mais que a maioria sempre discorde deles. Este é ponto que queria chegar.

O que seria melhor, ler uma análise antes ou depois de ver um filme? Eu, por exemplo, costumo sempre ver antes de ler. A leitura é mais para fechar lacunas, detalhes que perdi, informações de bastidores que completam a obra. Ou ter pontos de vistas sobre a relevância do que foi visto. Então saio do cinema e caio na internet, levo muito mais tempo lendo sobre do que o tempo perdido nas salas de exibição. E os melhores textos são justamente os que foram publicados depois das estreias.

Os críticos podem falar de detalhes de passagens, do final, de como um personagem se desenvolve sem o medo de “estragar a surpresa” para o público. Você pode procurar autores que tenham uma visão cultural próxima da sua, ou o oposto. E ainda tem as análises acadêmicas que precisam de 10 mil caracteres para explicar por que um maldito vaso é vermelho. A vantagem é que há a possibilidade de comparação entre o que está escrito com o que vi. Posso julgar a qualidade da crítica.

Por outro lado, seria extremamente frustrante não encontrar as tradicionais críticas nos jornais no dia das estreias. Quem me ajudaria a escolher como gastar meus parcos trocados? Também poderia parecer falta de vontade dos editores ou coisa pior. Talvez seja apenas uma questão de costume. Minha cruel dúvida é justamente esta. A crítica deveria se preocupar em escrever primeiro ou esperar o leitor assistir (ler, ouvir...) para poder “conversar” com o texto?
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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.