
Conta o cineasta brasileiro Bruno Barreto que, certa vez, durante seu casamento com a atriz norte-americana Amy Irving, estava lendo uma história para o enteado dormir. Lá pelo meio do conto, o garoto, filho de Amy com Steven Spielberg, perguntou: "afinal, quem é o mocinho e quem é o bandido dessa história?". No que pensou Barreto: "só podia ser filho do Spielberg, mesmo".
Taí. Maniqueísmo. O grosso da produção de Hollywood - onde Spielberg reina há décadas e sintetiza boa parte de sua filosofia - é maniqueísta. Quer dizer, divide diametralmente quem é bom e quem é mau. Não há espaço para meio termo. O meio termo significa dúvida. E filmes não se prestam para tal. O cinema feito em Hollywood é, antes de tudo, feito para divertir. Deixe o cérebro na bilheteria e seja feliz.
Nada de errado numa lobotomia de vez em quando. Afinal de contas, ninguém precisa de profundidade narrativa o tempo todo. O problema é quando grandes estúdios tentam trabalhar com personagens que são justamente esse delicado meio termo com os quais não estão acostumados a lidar. Personagens que não são nem mocinhos nem bandidos. Nem heróis nem vilões. Personagens que são ... Wolverine.
Heróis têm uma moral definida, um código de conduta claro e, por mais propensos que estejam, não fazem nada que não seja heroico. Eles não traem sua natureza. Por isso são heróis. Mas Wolverine não tem nada disso. Sua natureza é a do animal, o ID em estado puro. Quem leu pelo menos uma história do mutante de garras de adamantium sabe que ele não faz nada que não seja de seu interesse. Se, no trajeto, conseguir/ puder ajudar os demais, ótimo. Senão, perdeu. Ele toma uma cerveja e segue adiante sem nenhum peso na consciência.
Mas como colocar isso em película? Não colocar, simples. Pega-se o caracter - e não o personagem - e faz-se dele o que for preciso. É o que acontece nesse "X-Men Origens: Wolverine" (EUA, 2009), direção Gavin Hood, em cartaz no Castanheira 1, 2 e 6, Pátio Belém 4 e 5 e Castanhal 3.
Aquele sujeito com estiletes de metal saltando dos nós dos dedos e de cabelo engraçado é uma criação original dos roteiristas David Benioff e Skip Woods, que Hood tratou de filmar. E só.
O Wolverine (Hugh Jackman) desse "X-Men Origens" é outra pessoa. Não se trata do carcaju sanguinolento e atormentado que conquistou gerações - nos gibis, desenhos animados e videogames - por ser justamente uma brutal contraparte ao bom mocismo dominante em seu grupo (no caso, o universo Marvel inteiro). No filme, Wolverine só falta vestir uma batina e tentar converter seus inimigos com sermões, de tão bunda-mole que aparece. Sequer há hemácias fora do seu habitat natural, para se ter uma ideia.
Nem é preciso também perder muito tempo comentando as bizarras e desnecessárias inserções de outros mutantes, o retrato acabado de que ninguém ali - do diretor à mocinha do café - fazia a menor ideia do que estava tratando. Lembrou até o filme de Street Fighter, tamanha falta de conexão com sua origem - ironia das ironias.
É tanto desencontro de informação, tanta saída absurda para um roteiro que não é mais do que amador, tanta ponta solta enfim, tanto clichê de filme de ação da Sessão da Tarde, que é difícil não pensar que até a excelente performance de Jackman nos primeiros dois filmes dos X-Men foi apenas sorte. Deveria ter ficado por isso mesmo.
TEXTO PUBLICADO NA PÁGINA 20 DO JORNAL AMAZÔNIA DE HOJE
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