domingo, 31 de maio de 2009

ANTIMATÉRIA, ASSASSINATOS E UM CONCLAVE


O escritor norte-americano Dan Brown tem fixação na Igreja Católica. Em "O código Da Vinci" criou uma trama rocambolesca desencadeada por uma hipótese intrigante para alguns e blasfema para outros: a união entre Jesus Cristo e Maria Madalena teria gerado uma linhagem de descendentes. Levada ao cinema por Ron Howard (de "Uma mente brilhante"), a história fez tanto sucesso que a adaptação de "Anjos e demônios", romance anterior do autor, foi autorizada pela Sony Pictures e agora chega às salas de exibição brasileiras.

Tanto "O código Da Vinci" (EUA, 2006) quanto "Anjos e demônios" (EUA, 2009), em cartaz no Castanheira 2 (legendado) e 6 (dublado) no Pátio Belém 1 (dublado) e 4 (legendado), são protagonizados pelo simbologista Robert Langdon (Tom Hanks), professor da Universidade de Harvard e especialista em decifração de signos. Numa licença poética, o enredo é deslocado cronologicamente para depois da ação do filme anterior.

Nessa nova aventura, Langdon é chamado a Roma para ajudar na investigação do sequestro, seguido de ameaça de morte, de quatro cardeais considerados favoritos em um conclave que está prestes a se iniciar depois da morte do Papa. O rapto tem caráter teológico e teria sido praticado por uma organização denominada Illuminati, composta, originalmente, por homens de ciência que buscavam se defender do obscurantismo da Igreja Católica durante.

Séculos atrás, durante a Renascença, o secto teria sido vítima de feroz perseguição e de um massacre. Para Langdon, os atentados seriam uma espécie de vingança fermentada há séculos. Esse ponto de partida é até interessante, mas, ao misturar-se a uma sucessão de informações desencontradas, que envolvem desde os rituais dos conclaves até a produção da antimatéria, o filme começa a adentrar o território do absurdo e do inverossímil até nele afundar impiedosamente.

A sequência do helicóptero, que antecede o desfecho da trama, é digna de James Bond, Batman ou Homem-Aranha. Mas em um filme como "Anjos e demônios" as cenas servem apenas para demonstrar o quanto a viagem de Dan Brown foi longe demais.

Logo no início do filme, é apresentada a cientista Vittoria Vetra (Ayelet Zurer), que atuará ao lado de Langdon na busca de uma solução para o sequestro. Ela é a pesquisadora da tal antimatéria que, pelo menos no filme, é capaz de mandar pelos ares o Vaticano e todos os seus tesouros. E é claro que os Illuminati, que parecem vilões saídos dos filmes de James Bond, dela se apossam.

Como a trama se desenrola em Roma, cidade abarrotada de símbolos religiosos por todos os lados, Langdon parece pinto no lixo, orgástico, ainda que às custas de quase ser morto várias vezes, por sufocamento inclusive. O personagem – defendido por um Hanks não mais do que burocrático – se entrega à solução do enigma com entusiasmo colegial. Mas, no Vaticano, ele só tem como aliado o substituto do Papa, dito camerlengo (Ewan McGregor, na melhor atuação do longa).

Mais bem-resolvido e menos tolo do que "O código Da Vinci", "Anjos e demônios" peca (ops!) por misturar fato e ficção, fantasia e realidade de forma um tanto quanto leviana. Como lida com temas que fascinam e interessam muita gente, acaba por prestar um desserviço educativo, fornecendo ao grande público, como se fossem verdades, informações históricas, teológicas e científicas equivocadas, truncadas ou inventadas.

É claro que a alegação de que se trata apenas de um filme ficcional, de entretenimento, e não de um documentário, pode absolver tanto a Brown quanto a Howard desse exercício de má fé. Mas não tira da superprodução, em alguns momentos até envolvente do ponto de vista narrativo, um quase intragável paladar de engodo, cuja missão é fazer com que pessoas mal informadas se sintam cultas.

TEXTO PUBLICADO NA PÁGINA 20 DA EDIÇÃO DE HOJE DO JORNAL AMAZÔNIA

terça-feira, 26 de maio de 2009

O DRAGÃO QUE LUTA COMO UM BEIJA-FLOR


Entrar num ringue contra um lutador profissional que nunca foi batido em suas 14 lutas deixaria qualquer um preocupado. Não adianta amolecer as pernas quando se sabe que Rashad Evans, que está do outro lado do corner, é o campeão da categoria meio-pesado (93kg), a mais disputada do maior evento do esporte mais duro da atualidade. Tem que ter um coração gigantesco para enfrentar um cara que tem o apelido de "Sugar", em homenagem a Sugar Ray Leonard, um dos maiores lutadores que o mundo do boxe já viu. Mas o esporte aqui é outro. Mais traumático, desafiador e exigente.

O público que compareceu ao UFC 98, realizado em Las Vegas, Nevada, na madrugada do último domingo, precisou esperar dois minutos para conhecer o desafiante, que nasceu na Bahia mas luta pela bandeira do Pará. Com a perna esquerda esticada Lyoto "The Dragon" Machida tocou com o peito do pé na orelha de Evans e mostrou o cartão de visita. Foi o bastante para, segundos depois, a luta pela preferência do público estar encerrada com o coro para o brasileiro.

Lyoto luta como um beija-flor. Mantém-se parado na frente de seus adversários esperando o erro. É o rei do contra-golpe. Não importa a experiência do oponente, tocar o rosto do baiano-paraense é tão difícil quanto pegar o pássaro com as mãos. Sempre é uma questão de tempo para o erro acontecer. Neste caso foi no último minuto do primeiro round, quando uma sequência iniciada com um chute esquerdo e finalizada com dois diretos alternados abalou a confiança do americano que foi à lona por instantes.

No começo do segundo assalto o campeão evitou a tradicional tocada de luvas. Mais comedido ainda que na etapa anterior, Evans sentiu que não consegueria entrar no jogo. Lutava recuado e dentro do raio de ação do brasileiro. Talvez esperando o inevitável, que chegou de forma brutal faltando 1m30 para o fim do round. Foram 25 segundos de uma série impressionante de socos, chutes e empurrões. Lyoto parecia um toureiro brincado com um bezerro. O golpe certeiro foi um cruzado de direita no queixo. As pernas retorcidas, o pescoço deslocado e o olhar vidrado de Evans fizeram o juiz correr para interromper a luta.

Se tivéssemos olhado para o desafiante com atenção antes da luta, teríamos notado que ali também estava um lutador invicto, com 14 lutas em diversas categorias - seis delas pelo UFC. Um lutador que não toma uma gota de álcool há anos e que treina no mínimo 10 horas diárias desde que tinha 15 anos. Centrado e de uma inteligência corporal e reflexos anormais. "Eu chorei, eu treinei e agora sou campeão", disse logo após o confronto com a voz trêmula o lutador que fez parecer brincadeira enfrentar um campeão que nunca havia sido derrotado, na casa do adversário, pela categoria mais difícil do esporte mais exigente do mundo.

domingo, 17 de maio de 2009

NOVO STAR TREK RESPEITA TODOS OS FÃS


Agora é oficial. Foi aposentado de vez o título em português Jornada nas Estrelas, pelo qual o cultuado seriado de ficção científica ficou conhecido no Brasil desde os anos 1960. Em compensação, a franquia Star Trek está mais viva do que nunca. O novo longa-metragem da marca consagrada, que resgata o passado dos protagonistas da série original e teve estreia mundial no fim de semana passado, é espetacular e, desde já, um dos candidatos a blockbuster do ano.

Ao apresentar às novas gerações a história da tripulação original, o filme ressuscita em grande estilo um dos maiores ícones da cultura pop do século 20. E quem duvidava ser possível tornar as aventuras na nave USS Enterprise atraentes para um público com menos de 20 anos, sem desrespeitar os fãs de antigamente, preste atenção: a missão foi cumprida. E brilhantemente. Uma lição para a turma que vem adaptando os herois de histórias em quadrinhos para a telona, vide o equivocado "X-Men - Origens: Wolverine".

A trama de "Star Trek" (EUA, 2009), em cartaz no Castanheira 7 (dublado) e Pátio Belém 2 (legendado), revela a infância do capitão Kirk (Chris Pine, de "Sorte no amor") e de Spock (Zachary Quinto, o Sylar da série "Heroes"). Enquanto o primeiro cresce sem pai, tocando o terror na zona rural do estado de Iowa (EUA), o segundo enfrenta o desafio de ser um estranho no ninho em um planeta regrado pela razão. Os vulcanos, raça de seu pai, prezam o conhecimento e consideram a emoção um sinal de fraqueza. Acontece que a mãe de Spock, vivida por uma quase irreconhecível Winona Ryder, é terráquea e legou ao filho o "defeito" de não conseguir esconder inteiramente seus sentimentos.

As razões que levam tanto Kirk quanto Spock a dar guinadas radicais e embarcar na Frota Estelar, o Exército (ou Marinha, para os mais preciosistas) de paz da Federação, têm suas raízes nessa fase da vida dos personagens. Kirk, órfão de pai e filho carente de mãe ausente, busca a autoafirmação. Spock, por sua vez, padece com o preconceito que sofre tanto por parte de colegas quanto de superiores.

É impossível aqui não fazer analogias entre o personagem, dividido entre duas culturas e etnias, e o presidente Barack Obama. A tese defendida pelo filme, no entanto, é que ser "mestiço" é uma qualidade da qual se orgulhar.

Em "Star Trek", Kirk e Spock embarcam juntos, porém como quase inimigos, na viagem inaugural da Enterprise, onde acabarão conhecendo os demais personagens clássicos da franquia, como o médico McCoy (Karl Urban, de "Desbravadores"), Nyota Uhura (Zoe Saldana, de "Ponto de vista"), Hikaru Sulu (John Cho, da série "Ugly Betty") e o impagável Pavel Chekov (Anton Yelchin, de "Alpha Dog"), responsável por algumas das melhores piadas do longa.

Mas, como não há filme de aventuras (no espaço ou não) sem um bom vilão, era necessário encontrar um antagonista à altura do retorno de Star Trek. E, acreditem, a escolha do australiano Eric Bana (de "Munique" e "Hulk") é mais um dos muitos acertos da produção. Ele brilha como o malévolo Nero, um romulano cujos planos de vingança (não convém explicar quais são) envolvem Spock e a destruição do planeta Vulcano.

Como já era de se esperar, antes de enfrentar Nero, os jovens protagonistas terão de lidar como seus conflitos íntimos e pessoais.
Se o roteiro, apesar de simples, funciona muito bem e os efeitos especiais e direção de arte são brilhantes, a trilha sonora composta pelo criativo Michael Giacchino, responsável pelas trilhas das séries "Lost" e "Alias", além das animações da Pixar, "Os incríveis" e "Ratatouille", dá ao filme o sentido de grandiosidade que a saga merece.

O maior responsável pelo êxito de "Star Trek" é mesmo o diretor J. J. Abrams, o homem por trás do fenômeno televisivo "Lost". Ele consegue vencer o difícil desafio de ser original sem menosprezar a nostalgia (a cena final do filme é de arrepiar) ou diluir a essência do seriado. Portanto, que venha "Star Trek 2".

TEXTO PUBLICADO NA PÁGINA 20 DO JORNAL AMAZÔNIA DE HOJE
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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.