
O maior exemplo da luta antitabagista mundo afora vem de um pequeno território encravado entre a China e a Índia. No reino do Butão, rodeado pelo Himalaia, é proibido qualquer tipo de comércio envolvendo tabaco. O consumo, na encolha, só pode ser feito dentro de casa. O difícil é achar o que consumir. A decisão, inédita em todo o mundo, foi tomada há cinco anos.
"É para o bem-estar do povo, para proteger o meio ambiente e preservar nossa cultura", justificou Lily Wangchuz, porta-voz da embaixada do país em Nova Délhi, à BBC. Confesso que não estou em dia com meus estudos sobre o estilo de vida butanês, por isso não sei dizer se o consumo no país, estimado em 1% da população de 700 mil habitantes na época, caiu. Provavelmente sim.
Proibir o consumo de cigarro parece-me impossível, principalmente quando encontros acontecem pelo mundo discutindo a liberação de outras drogas. A Argentina, nossa vizinha adorável, acaba de aprovar a criação de bares onde o consumo de maconha é permitido. O discurso, portanto, seria, no mínimo, incoerente. Daí volta-se para o comércio, com controle de acesso. É o caso do Butão, controlado por uma monarquia parlamentarista que gosta de proibir as coisas, como a televisão e o turismo. É só ler o único jornal de lá.
Mas os meios justificam os fins? Talvez. Um pouco mais próximas, Londres e Nova York têm leis duríssimas contra o consumo de cigarro. A ideia é dificultar ao máximo a vida de quem fuma para que, espontaneamente, largue o vício. Recentemente, São Paulo proibiu o fumo em qualquer ambiente público fechado, incluindo bares, restaurantes e afins. Hoje, a Câmara Municipal de Belém decretou o fim até dos "fumódromos" a céu aberto. O sujeito não pode fumar nem na parada de ônibus, pois a lei vale para qualquer lugar onde haja aglomeração de pessoas. Era onde queria chegar.
Para mim, é claro que o bem coletivo é maior que o individual, menos em casos em que seja flagrante o desrespeito contra a liberdade do indivíduo. E a proibição destes locais pode ser boa e ruim. Explico. Proibir "fumódromos" em empresas é valido. Não acho que os patrões tenham que pagar pela sua hora de fumo. Do outro lado, proibir espaços reservados em ambientes de lazer, como bares, já é demais.
O comércio de cigarros é gigantesco no Brasil e uma grande fonte de renda para o governo. Um cigarro que custa R$ 4,50 rende aproximadamente R$ 3 em impostos. É um grande negócio e proibir a venda no Brasil, como fez Butão, parece algo impossível. Agora veja o lado do fumante que paga impostos e também quer se divertir. Vai num bar e sente vontade de pitar. Dirige-se a um ambiente reservado para isso e pronto. No que interfere na vida dos outros clientes? Por que acabar com estes espaços? De algum modo, penso, é cercear certas liberdades de alguém que escolheu, por vontade própria, puxar um fumo.
O leitor poderia argumentar que os fumantes geram um custo ao estado que é pago por todos, o que tornaria um caso de saúde pública. Concordo em partes. A afirmação seria verdadeira se o governo comparasse a receita dos impostos do cigarro versus gastos com doenças provocadas pelo tabaco. Se o primeiro valor for maior, a premissa é falsa. Só números oficiais poderiam clarear esta questão.
Talvez a proibição venha de um certo temor dos governos que os "fumódromos" se transformem em locais mais divertidos que os bares. E isso acontece. Em Tallin, capital da Estônia, os locais destinados recebem mais movimento que os locais proibidos. E não é só fumante que aparece por lá. Ou seja, há uma gama de não-fumantes que suporta o vício alheio para não perderem a companhia. É uma questão de escolha preservando um ambiente limpo para os que não suportam baforadas de fumaça.
Mas tudo isso é conversa entre amigos. Vamos ser práticos. Se você é fumante e quer dar umas baforadas entre um copo e outro, não tem outra saída. O negócio é pegar a BR-316 e ir tomar umas cervas em Ananindeua. Lá, pelo menos até o momento, não existe lei antifumo.

