sexta-feira, 21 de novembro de 2008

CAMPEONATO DE PONTOS CORRIDOS


A vida é um campeonato de pontos corridos. Empreendi reflexão dolorosa até chegar a essa sentença filosófica.

Pontos corridos.

Quer ver? A gordura. Digamos que uma pessoa que não era gorda tenha se tornado gorda. Imagine uma linha do tempo: a pessoa não é gorda.

Não é gorda, não é gorda, não é gorda.

Aí fica gorda.

A condição dela muda, entende? De não-gorda para gorda. Há um momento em que isso acontece. Um traço na linha do tempo. Um dia e uma hora precisos. Um instante de passagem em que o não-gordo cruza a aduana, atravessa a fronteira, é alçado à situação gorda.

O que me interessa é o instante em que isso se dá. No caso da gordura, presenciamos esse momento decisivo, certa feita, eu e meus colegas de Redação. Faz tempo, já. Era uma moça que não se tratava de moça gorda, em absoluto. Possante, sim. Gostosa, talvez. Bem fornida, certamente. Gorda, nunca. Mas uma tarde lá estava ela, encostada ao balcão da lanchonete da Redação, olhando com concupiscência para as guloseimas da vitrine. Tomou a decisão, espetou o indicador no ar e ordenou ao balconista:

— Enroladinho de pizza! É isso que quero: enroladinho de pizza!

Foi na segunda dentada no enroladinho de pizza, abundantemente untado com mostarda e ketchup, quiçá maionese, que a transformação ocorreu. As células de glicerídios ou lipídios ou ácidos graxos, sabe-se lá, borbulharam pelo seu corpo, glub, glub, e reuniram-se todas e escorreram-lhe pelas veias e acumularam-se exatamente na região fulcral, o setor que decide se uma mulher é gorda ou não, a grande área do corpo feminino, a zona do agrião. Os flancos. Vulgarmente conhecidos como ancas. E ali, diante dos nossos olhos assombrados, a moça outrora apenas bem fornida tornou-se... gorda.

Foi um privilégio nosso testemunhar um fenômeno da natureza.

A velhice também. Há um dia em que a pessoa se torna velha. Não era, até que acorda, sai para a rua e alguém aponta:

— Olha ali aquele velho.

Se tudo der certo, esse dia chegará para todos nós, inexoravelmente, a despeito de todos os cremes franceses e elixires amazônicos.

Semanas atrás, achei que o meu dia havia chegado. Fui ao cinema e, ao me ver, a Duda, uma amiga do tempo de colégio, antes mesmo de dar boas noites, comentou:

— Tu estás abatido...

Depois, fomos jantar em turma e, volta e meia, ela me olhava e repetia:

— Mas como tu estás abatido...

Ao nos despedirmos, ela pegou nos meus ombros maternalmente e recomendou:

— Vê se dorme bem. Tu estás muito abatido...

Cheguei em casa vergado pelo peso dos anos, sentindo-me... abatido.

Mas, na semana passada, fui dar uma palestra num colégio particular para alunos do ensino médio. A primeira pessoa que me encontrou disse, surpresa:

— Como tu és jovem!

Em seguida, um aluno perguntou:

— Como tu te sentes como jornalista, sendo assim tão jovem?

E, já na sala de aula, a professora ao me apresentar:

— O nosso jovem jornalista...

Ao voltar para casa, olhei-me no espelho e pensei: que belo dia, esse! Será que foi a chicória que comi no almoço?

Chicória tem esse poder rejuvenecedor, como se sabe.

Enfim, se não chegou ainda, meu dia chegará. Com boa sorte, sempre chega a qualquer um. Meu sonho seria deixar registrado na agenda: “22 de maio de 2062: às 14 horas, envelheci”

É como dizia a epígrafe de um livro do Hemingway:

“O discípulo pergunta:

— Como você foi à bancarrota, mestre?

O mestre:

— Primeiro foi aos poucos; depois foi de repente.”

Campeonato de pontos corridos. Cada pequena vitória, cada um a zero parece irrelevante quando acontece, mas, lá no fim, revela-se decisivo. Ah, se o Águia de Marabá tivesse vencido o Campinense em casa; ah, se não tivesse perdido para o Duque de Caxias; ah, se não fosse aquele quindim; ah, as massas depois das dez da noite; ah, o sol tomado antes dos 30 anos... No fim, tudo parece fazer diferença. E, na verdade, não é nem exatamente uma coisa, nem exatamente outra. Nós é que fazemos a tabela. Os times e as pessoas, digo. Vide o Águia: parecia moribundo; com uma remobilização, entrou de novo na disputa e tem alguma chance de subir para a Série B. Vide eu naquele colégio: remoçado, cheio do viço da juventude. Foi a chicória, cara. Só pode ter sido a chicória.

Um comentário:

Anônimo disse...

Caramba, isso é que é sabedoria. Um dia quero escrever assim... Passo sempre aqui e leio o que não havia lido. A do futebol e sexo é boa mas essa dos pontos corridos é TUDO. Adoooooro.
Ailson

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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.