quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

QUANDO NÃO HAVIA PROTETOR SOLAR


A vida na praia não é tão fácil quanto parece. Já foi pior, verdade. Houve tempo em que não existia protetor solar, sabia? Ou não havia por aqui. Ou lá na Marambaia não tínhamos notícia da descoberta desse milagre da ciência. Então, eu, um branquelo notório, sofria medonhamente com a vida praiana.

O problema é que sempre quis viver a vida praiana. Era guri e via aqueles comerciais de TV. Ondas espumavam em todos os programas de TV. O jornal. Pegava o jornal e a cobertura de praia era uma festa. As mulheres de biquíni, o campeonato praiano, os jornalistas escreviam direto de Salinas. Dava vontade de ir à praia. Era lá que as coisas aconteciam. Lá é que as pessoas estavam vivendo, entre camarões fritos e caipirinhas. Só que nós não tínhamos verba para ir à Orla, permanecíamos aqui, na modorra, na canícula.

O pai da Clarice tinha. A Clarice era a minha namorada, uma morena que usava shortinho branco. Era legal aquele shortinho branco da Clarice. Bem curto e apertado e tudo mais. Pois o pai dela era dono de um Fusca verde. Ainda mora lá na Marambaia, o pai da Clarice. Nos verões, ele pegava a Clarice e a mãe da Clarice e o Beto Zúqui, irmão da Clarice, que era bom meia-direita, ele pegava todo mundo e botava naquele Fusca verde e ia para a praia. Mosqueiro.

Eu ficava aqui. Eu e os moleques que não iam à praia. Curioso: nenhum moleque ia à praia; só as molecas. Os moleques que iam à praia eram os dos conjuntos habitacionais. Os do Médice. Do Mendara. Malditos.

Quando a Clarice voltava, bronzeada e sorridente, ela contava sobre o que havia feito na praia. Ai, como amo Mosqueiro, miava. Ai, que saudade de Mosqueiro. Me dava uma raiva de Mosqueiro. Um verão ela voltou falando de um certo Cléber. Aí eu e o Cléber fomos pegar jacarezinho, aí o Cléber me falou que da areia do mar se faz o vidro das janelas. O Cléber, o Cléber, o Cléber. Somos só amigos, ela alegava.

Amigos.

Sei.

Por tudo isso, por causa dos jornalistas em Mosqueiro, dos comerciais de TV e da Clarice, queria viver a vida praiana. Quando ficamos mais taludos, eu e os guris demos um jeito nisso. Íamos para a Orla de carona. Antes era possível isso, viajar de carona. Ponto para as velhas gerações. Hoje, carona é um perigo. Para quem pega e para quem dá. Na época, que nada. Pendurávamos as mochilas nas costas e tocávamos para o Entroncamento. Vinte, 30 guris. Claro, ninguém dá carona para 20. Tínhamos de nos dividir aos pares. Lá ficávamos nós, dedão em riste. Um carro parava. Outro. Mais outro. Em duas horas, todo mundo ia. A volta, por algum motivo, era mais difícil.

Uma vez, eu e o Pedro só conseguimos carona numa Brasília de um vendedor de churrasquinho. A Brasília estava cheia de panelas e sacos de farinha e troços de fazer churrasquinho. Eu o Pedro e mais o vendedor de churrasquinho tivemos de nos acomodar no banco da frente. A Brasília andava a 60 por hora e tinha um buraco no assoalho. Por Deus. O vento que vinha da estrada queimava o pé da gente. Brabeza.

O fato é que era difícil pegar carona na volta. Mesmo assim, nós íamos e retornávamos de carona todos os fins de semana do verão. Chegando lá, corríamos para a areia da praia, que alegria. Passávamos o dia jogando bola e rondando as molecas e bebendo cerveja. De noite, eu estava todo vermelho, meus ombros e meu nariz ardiam, não entendia como é que os outros não se queimavam e eu sim.

Até que arrumei uma namorada. Não a Clarice. Outra. Marta. Fomos juntos para a praia. Para um camping em Algodoal. Ela disse que ia cuidar de mim para que não me queimasse. Sabe o que a mina fez? Me untou com Óleo Johnson. Óleo Johnson, cara! Fritou-me, a Marta. A vida praiana era dura sem o protetor solar. E por outros motivos, alguns deles futebolísticos, dos quais falarei num futuro post.

Um comentário:

Anônimo disse...

O q aconteceu com a clarice?

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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.