terça-feira, 28 de abril de 2009

A ALEGRIA DO POVO


Pelé era o Rei; Garrincha, a Alegria do Povo. Até os anos 70, pelo menos, foi assim. Ninguém jamais foi tão admirado quanto Pelé, no futebol brasileiro. Pelé era perfeito. Goleador imbatível, jogava em qualquer posição, até de goleiro. Como atleta, era irrepreensível: não fumava, não bebia, não se atrasava para treino, nunca foi personagem de escândalo público.

Garrincha residia no outro hemisfério da imaginação popular. Garrincha jogava numa única posição, uma que nem existe mais, a ponta-direita. Garrincha tinha as pernas e a vida tortas. Meio índio, meio matuto, começou a jogar aos 19 anos de idade. Bebia, espalhou filhos entre o Velho e o Novo Mundo, desenvolveu um caso extraconjugal público com a cantora Elza Soares e nem sequer sabia a identidade dos laterais que o marcariam. Mas que jogador foi mais adorado do que Garrincha?

O povo amava Garrincha pelos mesmos motivos que ama Ronaldo Nazário. Em primeiro lugar, pela sua excelência como jogador. Garrincha era mais do que craque; era supercraque. Em segundo lugar, porque o povo via Garrincha como um igual. Pelé nunca foi humano; foi um semideus. Garrincha errava, pecava e se enganava como qualquer um. E se erguia como poucos.

Ronaldo é assim. O homem que engorda, que às vezes bebe e fuma, que já traiu a mulher, que se engana e deixa-se enganar, que cai, chora e sofre. O homem comum, enfim, olha para Ronaldo e se identifica com ele. Por se identificar, o homem comum se alegra. Se um Ronaldo erra, por que ele não pode errar? E se um torto como Ronaldo pode ser grande, por que um torto como ele não pode um dia ser grande também? Eis de onde vem o amor que o povo sente por Ronaldo: Ronaldo falha como um homem. E reage como um herói.

Nenhum comentário:

Powered By Blogger

Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.