
Vi uma velhinha sentada numa cadeira na calçada, segunda-feira. Juro que vi. Foi numa rua da Pedreira. O dia estava quente e ensolarado, e resolvi fazer a pé um trajeto que tinha de percorrer. A Pedreira é o melhor bairro para se caminhar na cidade, a vida suburbana escorre por suas ruas planas, as pessoas circulam entre o pequeno comércio bem fornido de fruteiras, açougues, sapatarias, padarias. As coisas realmente importantes da vida estão naquelas ruas. As miudezas que constroem o dia das pessoas, o pacote de Bolacha Maria do armazém, o Melhoral da farmácia da esquina, a dúzia de tachinhas da ferragem.
Então, gastava as solas dos tênis debaixo dos plátanos da Pedreira, quando a vi. Usava os cabelos brancos presos na nuca e equilibrava os óculos na ponta do nariz. Estava sentada numa cadeira de madeira, provavelmente em frente à própria casa. Fazia tricô. Nem me viu passar, concentrada que estava na peça que se formava a partir das agulhas que trançava com os dedos finos.
A princípio, temi por ela, tão sozinha, à mercê de algum mal-intencionado que por ali passasse e tencionasse subjugá-la. Depois, assimilei aquela cena como se bebesse de um tônico, como se fosse besuntado por um bálsamo. Ali estava uma réstia de civilização.
Porque a civilização tem sofrido derrotas por aqui. O Re-Pa um dia já foi o mais belo dos clássicos, com os estádios repartidos em azul marinho e azul celeste, metade para cada um - agora é, na prática, um jogo de uma torcida só. Triste... E, dias atrás, torcedores do Corinthians e do Vasco se enfrentaram numa batalha campal que terminou com um ônibus incendiado e um rapaz morto por causa do futebol. Por causa do futebol... Golpes duros na civilização.
Lembro de um tempo em que a cena da velhinha na calçada era usual. Morávamos na Marambaia, meus pais, meus irmãos e eu. À noitinha, depois do trabalho, eles e os vizinhos da Passagem Samaritana arrastavam as cadeiras da sala de casa para a calçada e se aboletavam numa roda, olhando as crianças que brincavam ali perto, contando histórias.
A maioria, histórias de terror. Um homem era ladrão de sepulturas. Um dia, sua velha mãe, descobrindo que ele exercia essa pérfida atividade, o censurou e o advertiu:
— Cuidado, os mortos vingativos podem querer te arrastar para dentro da terra, para junto deles...
O ladrão deu de ombros, mas ficou com o aviso materno latejando no fundo do cérebro, como, aliás, soem ficar os avisos maternos.
Uma noite chuvosa de inverno lá se foi ele, abrir cavoucos nos túmulos, aviltar o descanso dos espíritos. Era uma noite lúgubre, e o ladrão tremeu, lembrando-se do que a mãe lhe dissera. Prometeu a si mesmo que aquela seria a última vez que cometeria ação tão medonha. Depois daquela noite, nunca mais!
Caminhou rezando baixo pelo cemitério, o coração aos saltos, ziguezagueando por entre as cruzes. Vestia um sobretudo que esvoaçava com o vento cortante que vinha da baía do Guajará. Sentia frio. Depois de pilhar o morto, já estava se retirando, cheio de temor, quando a ponta de sua capa prendeu-se na cruz. Quis correr, não conseguiu. Parecia que estava sendo sugado para o seio da terra. Para a sepultura! Acreditou que fosse um defunto que despertara em busca de vendeta e caiu no chão do campo santo, fulminado por um ataque cardíaco.
Assim eram as histórias de terror daquela época. O máximo de medo que se podia sentir sentado numa cadeira na calçada. Hoje, uma velhinha tomando sol na calçada, fazendo tricô, é razão de espanto e, ao mesmo tempo, de júbilo. Sinal de que ainda existe civilização. Um pequeno pedaço dela, mas ainda assim civilização.

Nenhum comentário:
Postar um comentário