O cinema de fantasia, que mistura magia, fábula e aventura num único caldeirão, ganhou nova vida com o sucesso retumbante da trilogia "O senhor dos aneis", projeto que viu suas datas anuais de lançamento (2001, 2002, 2003) casarem perfeitamente com um certo clima de realismo extremo que marcava o mundo (ou os EUA) logo após o 11 de Setembro. O sucesso de Peter Jackson parecia algum tipo de antídoto esotérico para a dureza real. A reboque, vieram variações sobre a mesma temática com "As crônicas de Nárnia" e o fascinante "O labirinto do fauno", que até competiu em Cannes, em 2006.
"Harry Potter e o enigma do príncipe" (EUA/Ing, 2009), em cartaz nos Moviecom Castanheira, Pátio Belém e Yamada Castanhal, oferece uma dessas boas oportunidades do que, em inglês, chama-se "escapism", entretenimento que tem como principal função catapultar o espectador para um outro mundo, e lá deixá-lo imerso durante, nesse caso, duas horas e meia.
Mas neste sexto filme da série, o que mais chama a atenção é o realismo embutido na trama. Longe de ser somente mais um arrasa-quarteirão da temporada de férias escolares, este filme de David Yates, assim como os demais da série que conta as aventuras do bruxo inglês e seus amigos, carrega consigo ingrediestes extras que dão ao produto final algo mais do que o rótulo de sucesso comercial.
Basta lembrar que desde 2001, quando teve início a saga do "bruxinho", os filmes baseados nas publicações da escocesa J. K. Rowling parecem estimular a leitura junto aos muitos jovens, um feito e tanto nestas épocas de minimalismo twitteriano - com licença do neologismo.
O duelo entre a palavra escrita e as imagens de cinema sugere uma relação cada vez mais rara hoje em dia e, por isso mesmo, positiva. Se há uma capa espessa de magia nas histórias, a base delas é realista, nas relações de amizade, escolhas éticas e o mundo da escola, com um tom claramente britânico para efeito extra de curiosidade.
Do ponto de vista do mercado, os cinco primeiros filmes arrecadaram uma receita de US$ 4,47 bilhões. Nenhuma outra série na história do cinema rendeu tanto dinheiro, deixando para trás os 22 episódios de James Bond somados, ou os seis capítulos de "Guerra nas estrelas".

Em "Harry potter e o enigma do princípe", observa-se que o crescimento natural dos atores (ou dos personagens) foi registrado filme a filme. É algo raro no cinema e que lembra o caso também particular dos cinco filmes de François Truffaut com o menino/ homem Antoine Doinel.
E isso é muito bem aproveitado pelo diretor David Yates, que já havia dirigido "A ordem do Fênix". O roteiro de Steve Kloves, apesar de se tratar de uma adaptação, merece todos os louvores. Ele conseguiu equilibrar duas partes bem distintas e que, em alguns pontos, sugerem água e vinho, um pouco como se dois filmes diferentes corressem paralelos.
De um lado, que dá ao filme profundidade narrativa, nos divertimos com Harry (Daniel Radcliffe), Ron (Rupert Grint), Hermione (Emma Watson) e seus amigos da escola Hogwarts lidando com as primeiras complicações do amor.
Poções mágicas variadas entram para atiçar e/ou podar sentimentos, o que sugere algo não muito distante de uma pequena galeria de drogas ilícitas que talvez nos ajudem a enxergar o tom mais realista desse capítulo e seu ambiente escolar.
A outra metade do filme, cheia de mistério e pequenos terrores, reside na relação aluno/professor de Potter e Dumbledore (Michael Gambon). A curiosidade quase mórbida de Potter para desvendar mistérios no passado do grande vilão Voldemort (Ralph Fiennes) é administrada pelo mestre com cuidado.
As influências do mal surtem efeito não apenas na escola, num aluno com inclinação para o mal e num professor com a mesma vocação, mas também na realidade de Londres. A cidade aparece em destaque, desta vez, o que apenas aumenta o nível de interesse pela aventura.
TEXTO PUBLICADO NA PÁGINA 20 DO JORNAL AMAZÔNIA(CADERNO SHOW) DESTE DOMINGO (19/07/2009)

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