
O apresentador olha sério para a plateia e, aparentemente despretensioso, comenta: "Ainda bem que estão todos aqui hoje e ainda bem que estão de bom humor, porque tenho uma pequena história para contar. Apetece-lhes ouvir uma história?" O público reage com um "yeah" entusiasmado e aplausos, mas, à medida que o monólogo de Letterman vai avançando, rapidamente se percebe que este não é um daqueles relatos "nem vão acreditar no que me aconteceu ontem", típicos dos talkshows em horário nobre.
David Letterman foi vítima de chantagem - reação do público: "oh" - porque um outro apresentador da CBS (Robert "Joe" Handerman, uma espécie de Datena americano, que já está detido) reuniu provas de que o apresentador teve relações sexuais com mulheres no staff do programa "Late Show with David Letterman" - reação do público: "ah". "Sim, tive sexo com elas e seria muito embaraçoso que isso viesse a público [pausa dramática]. Sobretudo para elas." Reação do público: gargalhada geral.
No final da confissão, David Letterman, 62 anos, apresentador do "Late Show" há 16, o público presente no Ed Sullivan Theater rejubilava e obedecia à luz acima do palco que assinala "aplausos".
Durante dez longos minutos do prime time norte-americano, naquele dia 1º de outubro, perante mais de cinco milhões de espectadores (número que o Youtube se encarregou de multiplicar nas horas e dias seguintes), David Letterman mergulhou num assunto sensível e transformou-o numa piada. Aquele que poderia ser o momento mais constrangedor da sua vida como apresentador de TV passou a piada ligeira graças a um jogo de cintura digno de uma dançarina de axé.
Nos jornais do dia seguinte, a notícia era "David Letterman revela tentativa de extorsão" e não "Apresentador do 'Late Show' admite assédio sexual e adultério". E isto, para Troy Patterson, editor da revista "Slate", é um excelente exemplo de gestão de crise. "A última frase arruma o assunto. É uma maneira brilhante de libertar a tensão", escreveu no blogue "Brow Beat".
Poucas horas depois de Letterman abrir o jogo sobre o escândalo, que até aquele momento mantinha-se oculto para o público, o "New York Times" criou uma página para receber os comentários dos leitores sobre o assunto. As reações são, na sua maioria, bem-humoradas e de admiração pelo gesto do apresentador: "Aquele otário escolheu o tipo errado para fazer chantagem" ou "Podemos esperar agora uma carreira política de Letterman, já que ele mostrou ter todos os requisitos para servir à sociedade civil".
Mas houve quem apontasse para um pormenor que acabou por passar despercebido: "Ele fez-se passar por vítima e nem sequer pediu desculpas. Os aplausos que recebeu depois de admitir que teve sexo com aquelas mulheres foram repugnantes", assinala Roger, um leitor do Texas.
Se Letterman teve sexo com mulheres que trabalham para ele, então ele pode ser acusado de um crime: assédio sexual. A CBS admitiu que vai investigar o caso, mas deverá fazê-lo timidamente.
Executivos da rede de TV norte-americana admitiram ao "New York Times" que não vão incomodar uma das caras mais emblemáticas da estação a não ser que fique provada uma de duas coisas: alguma das mulheres era menor ou o sexo foi usado como forma de manter o emprego.
Quando o assunto é a traição e a situação familiar de Letterman, a opinião pública refugia-se numa espécie de puritanismo burocrático. O apresentador casou-se em março deste ano com a sua namorada de há 23 anos, Regina Lasko. Para muitos comentadores, se as relações agora descobertas aconteceram antes desta data, então Letterman não traiu "oficialmente". Mas se isso é suficiente para ilibar o homem aos olhos do público, em casa ele não deverá se safar apenas com uma piada.

Nenhum comentário:
Postar um comentário