

Acima as duas capas da Revista Veja sobre o mesmo assunto: Che Guevara. Passaram-se 10 anos entre a publicação de uma e de outra. A primeira, publicada em 1997, foi feita a partir de uma matéria escrita por Dorrit Harazim, talvez a repórter de maior prestígio no Brasil. Dorrit viajou à Bolívia, onde foi assassinado o Che, e voltou com um texto descritivo, sustentado por carradas de documentos e pelo menos uma dezena de entrevistas. O título: O Triunfo final de Che.
Na reportagem, Dorrit não faz uma apologia do guerrilheiro. Limita-se a investigar as ocorrências de seus últimos dias e tenta explicar como ele se transformou em mito. “Che Guevara tinha tudo para se tornar imortal”, escreveu. “Era bonito, destemido e morreu jovem, defendendo conceitos igualmente jovens, como a solidariedade e a justiça social”.
O texto de 2007 tem como título “Che: Há 40 anos morria o homem e nascia a farsa”. Não é uma reportagem; é um grande artigo disfarçado de reportagem. Os autores não saíram para fazer a matéria e retornaram com a convicção de que Che foi um monstro. Não. Eles partiram da convicção de que Che foi um monstro para escrever a matéria. O texto se propõe a convencer o leitor da tese da revista. A Veja de2007 descreveu o Che desta forma: “Com suas fraquezas, sua maníaca necessidade de matar pessoas, sua crença inabalável na violência política e a busca incessante da morte gloriosa, foi um ser desprezível”.
E agora? Em qual Veja devo acreditar? Sei a resposta: na de há 10 anos. Não porque a atual desmoraliza Che Guevara. Pouco me importa Che Guevara. Importa-me a Veja. Criei-me lendo essa revista, leio-a desde o tempo em que ela balizava o jornalismo brasileiro. Acontecia algo grave durante a semana, como, sei lá, uma crise no Senado, e eu ia entender na Veja. Mas, por algum motivo, a Veja mudou. Não falo de Diogo Mainardi ou qualquer outro de seus colunistas. Esses estão emitindo opinião. E fazem-no com competência e talento. Posso até não concordar com o que escrevem, mas não preciso concordar com um colunista para gostar dele. Falo do jornalismo da Veja.
Alguém dirá que nada na imprensa brasileira é confiável. Não é assim. Há veículos que tentam exercer um jornalismo honesto, sobretudo os grandes jornais. A Folha de S. Paulo, com sua independência feroz, chega a se tornar mal-humorada e injusta, como tem sido com Dilma nestas eleições presidenciais. O Estadão é tão comedido, que volta e meia vira empedernido. O Globo procura com tal ânsia a qualidade, que não raro acaba se tornando fútil. Nenhum desses jornais aparenta certezas ideológicas tão arraigadas que os levem a qualificar alguém como “desprezível”. Contam o que está acontecendo de acordo com sua forma peculiar de contar, fiéis inclusive aos seus defeitos. A Veja, não.
A Veja parece preocupada mais em provar seu ponto de vista do que em contar o que está acontecendo. Como, então, posso ter certeza de que a cobertura da crise no Senado, das eleições presidenciais ou de qualquer outro fato relevante não acabe eivada por alguma segunda intenção, como dá a entender a edição reservada ao Che? Um problema que eu, antigo leitor da Veja, resolvi em 2007.
Logo depois de ler o tal artigo disfarçado sobre Che, parei de comprar e de ler a revista. E o pior é que, nos últimos anos, a certeza de que a Veja é totalmente dispensável só se fortaleceu em mim. Basta ver a vexatória cobertura que ela vem fazendo das eleições presidenciais. Parece mais um panfleto de campanha, com sua redação transformadas em comitê tucano, do que um órgão de imoprensa independente. É triste!

Um comentário:
Muito bom Sales. Ótimo artigo. Assim como vc tmb me acostumei a ler a Veja de uma outra época e não entendo essa mudança absurda da revista. Espero que mais pessoas andem considerando ela dispensável, como nós.
Bj,
Ana.
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