
Eu não sou fã da Pitty, mas tenho que admitir uma coisa. A garota entende do riscado. Sabe, como poucos de sua geração, criar refrões que grudam na memória e garantem meses e meses de sucesso nas rádios. Algo imprescindível para quem se propõe a ser uma estrela pop em nível nacional - coisa que as bandas paraenses ainda não entenderam.
Uma prova desse talento da roqueira baiana é o single "Me adora", que puxa o seu terceiro álbum de estúdio, "Chiaroscuro" - palavra italiana que significa "claro e escuro" e que também denomina uma técnica de pintura criada por Leonardo Da Vinci.
Apesar de ter lançamento oficial previsto para o dia 11 de agosto, o clip da música em questão já está disponível no Youtube, onde contabiliza mais de 100 mil acessos. Na canção, Pitty adota um estilo bem anos 60. Mas é o refrão que novamente chama a atenção. Lá pelas tantas, ela canta: "Não espere eu ir embora pra perceber/ Que você me adora/ Que me acha foda".
Os puritanos podem estranhar a expressão foda numa canção de sucesso, mas Pitty apenas traduz a realidade de um termo que foi desconstruído do seu sentido original pelo linguajar dos jovens. Esse tipo de desconstrução também ocorreu um dia com porra e caralho, por exemplo (o carioca, aliás, criativamente, transformou caralho em caraca).
Como diria o grande Millôr Fernandes, 85, é o povo fazendo sua língua. Na crônica Foda-se, o escritor diz que "os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos fortes e genuínos sentimentos".
O rock made in Bahia, é verdade, gosta do verbo foder. Na década de 80, o Camisa de Vênus de Marcelo Nova popularizou um grito de guerra que resiste ao tempo: "Bota pra fuder" (e que o Asa de Águia de Durval Lellys adaptou para "bota pra ferver", mais adequado à politicamente correta Axé Music). Naquela distante galáxia pré-Aids, até o nome da banda do pai da VJ Penélope chocava, acredite.
Com Pitty, entretanto, o uso do palavrão ganha uma dimensão maior em termos de abrangência pop. A cantora é o artista de rock’n’roll que melhor traduz o espírito juvenil brasileiro nesta década. Isso não quer dizer que tudo o que ela faça seja original ou espontâneo. Muito pelo contrário. O estilo barbie-punk que ela adotou desde suas primeiras aparições na MTV, lá pelos idos de 2004, sempre me pareceu forçado. Além disso, vamos e convenhamos, a geração da qual ela faz parte é bem fraquinha.
Mas esta observação não tira o mérito da garota. Todo artista pop de sucesso é um produto industrial, manufaturado para vender em larga escala. Por isso, tanto o talento musical quanrto a imagem precisam ser trabalhados, produzidos e estudados.
Além disso, concordo com Nando Reis quando ele diz que: "Ela é poderosa, carismática. Fico feliz pelo sucesso dela e pelo fato de ser uma mulher vencendo num ambiente predominantemente masculino. É bom quebrar as estatísticas. De dez em dez anos é que isso acontece no Brasil".
A essa altura do campeonato, Pitty já se consolidou como o maior nome de sua geração no rock, mesmo que, no meu set list, ela tenha pouco espaço.


