sexta-feira, 31 de julho de 2009

PITTY USA PALAVRÃO EM MÚSICA POP


Eu não sou fã da Pitty, mas tenho que admitir uma coisa. A garota entende do riscado. Sabe, como poucos de sua geração, criar refrões que grudam na memória e garantem meses e meses de sucesso nas rádios. Algo imprescindível para quem se propõe a ser uma estrela pop em nível nacional - coisa que as bandas paraenses ainda não entenderam.

Uma prova desse talento da roqueira baiana é o single "Me adora", que puxa o seu terceiro álbum de estúdio, "Chiaroscuro" - palavra italiana que significa "claro e escuro" e que também denomina uma técnica de pintura criada por Leonardo Da Vinci.

Apesar de ter lançamento oficial previsto para o dia 11 de agosto, o clip da música em questão já está disponível no Youtube, onde contabiliza mais de 100 mil acessos. Na canção, Pitty adota um estilo bem anos 60. Mas é o refrão que novamente chama a atenção. Lá pelas tantas, ela canta: "Não espere eu ir embora pra perceber/ Que você me adora/ Que me acha foda".

Os puritanos podem estranhar a expressão foda numa canção de sucesso, mas Pitty apenas traduz a realidade de um termo que foi desconstruído do seu sentido original pelo linguajar dos jovens. Esse tipo de desconstrução também ocorreu um dia com porra e caralho, por exemplo (o carioca, aliás, criativamente, transformou caralho em caraca).

Como diria o grande Millôr Fernandes, 85, é o povo fazendo sua língua. Na crônica Foda-se, o escritor diz que "os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos fortes e genuínos sentimentos".

O rock made in Bahia, é verdade, gosta do verbo foder. Na década de 80, o Camisa de Vênus de Marcelo Nova popularizou um grito de guerra que resiste ao tempo: "Bota pra fuder" (e que o Asa de Águia de Durval Lellys adaptou para "bota pra ferver", mais adequado à politicamente correta Axé Music). Naquela distante galáxia pré-Aids, até o nome da banda do pai da VJ Penélope chocava, acredite.

Com Pitty, entretanto, o uso do palavrão ganha uma dimensão maior em termos de abrangência pop. A cantora é o artista de rock’n’roll que melhor traduz o espírito juvenil brasileiro nesta década. Isso não quer dizer que tudo o que ela faça seja original ou espontâneo. Muito pelo contrário. O estilo barbie-punk que ela adotou desde suas primeiras aparições na MTV, lá pelos idos de 2004, sempre me pareceu forçado. Além disso, vamos e convenhamos, a geração da qual ela faz parte é bem fraquinha.

Mas esta observação não tira o mérito da garota. Todo artista pop de sucesso é um produto industrial, manufaturado para vender em larga escala. Por isso, tanto o talento musical quanrto a imagem precisam ser trabalhados, produzidos e estudados.

Além disso, concordo com Nando Reis quando ele diz que: "Ela é poderosa, carismática. Fico feliz pelo sucesso dela e pelo fato de ser uma mulher vencendo num ambiente predominantemente masculino. É bom quebrar as estatísticas. De dez em dez anos é que isso acontece no Brasil".

A essa altura do campeonato, Pitty já se consolidou como o maior nome de sua geração no rock, mesmo que, no meu set list, ela tenha pouco espaço.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE


O cinema de fantasia, que mistura magia, fábula e aventura num único caldeirão, ganhou nova vida com o sucesso retumbante da trilogia "O senhor dos aneis", projeto que viu suas datas anuais de lançamento (2001, 2002, 2003) casarem perfeitamente com um certo clima de realismo extremo que marcava o mundo (ou os EUA) logo após o 11 de Setembro. O sucesso de Peter Jackson parecia algum tipo de antídoto esotérico para a dureza real. A reboque, vieram variações sobre a mesma temática com "As crônicas de Nárnia" e o fascinante "O labirinto do fauno", que até competiu em Cannes, em 2006.

"Harry Potter e o enigma do príncipe" (EUA/Ing, 2009), em cartaz nos Moviecom Castanheira, Pátio Belém e Yamada Castanhal, oferece uma dessas boas oportunidades do que, em inglês, chama-se "escapism", entretenimento que tem como principal função catapultar o espectador para um outro mundo, e lá deixá-lo imerso durante, nesse caso, duas horas e meia.

Mas neste sexto filme da série, o que mais chama a atenção é o realismo embutido na trama. Longe de ser somente mais um arrasa-quarteirão da temporada de férias escolares, este filme de David Yates, assim como os demais da série que conta as aventuras do bruxo inglês e seus amigos, carrega consigo ingrediestes extras que dão ao produto final algo mais do que o rótulo de sucesso comercial.

Basta lembrar que desde 2001, quando teve início a saga do "bruxinho", os filmes baseados nas publicações da escocesa J. K. Rowling parecem estimular a leitura junto aos muitos jovens, um feito e tanto nestas épocas de minimalismo twitteriano - com licença do neologismo.

O duelo entre a palavra escrita e as imagens de cinema sugere uma relação cada vez mais rara hoje em dia e, por isso mesmo, positiva. Se há uma capa espessa de magia nas histórias, a base delas é realista, nas relações de amizade, escolhas éticas e o mundo da escola, com um tom claramente britânico para efeito extra de curiosidade.

Do ponto de vista do mercado, os cinco primeiros filmes arrecadaram uma receita de US$ 4,47 bilhões. Nenhuma outra série na história do cinema rendeu tanto dinheiro, deixando para trás os 22 episódios de James Bond somados, ou os seis capítulos de "Guerra nas estrelas".

Em "Harry potter e o enigma do princípe", observa-se que o crescimento natural dos atores (ou dos personagens) foi registrado filme a filme. É algo raro no cinema e que lembra o caso também particular dos cinco filmes de François Truffaut com o menino/ homem Antoine Doinel.

E isso é muito bem aproveitado pelo diretor David Yates, que já havia dirigido "A ordem do Fênix". O roteiro de Steve Kloves, apesar de se tratar de uma adaptação, merece todos os louvores. Ele conseguiu equilibrar duas partes bem distintas e que, em alguns pontos, sugerem água e vinho, um pouco como se dois filmes diferentes corressem paralelos.

De um lado, que dá ao filme profundidade narrativa, nos divertimos com Harry (Daniel Radcliffe), Ron (Rupert Grint), Hermione (Emma Watson) e seus amigos da escola Hogwarts lidando com as primeiras complicações do amor.

Poções mágicas variadas entram para atiçar e/ou podar sentimentos, o que sugere algo não muito distante de uma pequena galeria de drogas ilícitas que talvez nos ajudem a enxergar o tom mais realista desse capítulo e seu ambiente escolar.

A outra metade do filme, cheia de mistério e pequenos terrores, reside na relação aluno/professor de Potter e Dumbledore (Michael Gambon). A curiosidade quase mórbida de Potter para desvendar mistérios no passado do grande vilão Voldemort (Ralph Fiennes) é administrada pelo mestre com cuidado.

As influências do mal surtem efeito não apenas na escola, num aluno com inclinação para o mal e num professor com a mesma vocação, mas também na realidade de Londres. A cidade aparece em destaque, desta vez, o que apenas aumenta o nível de interesse pela aventura.


TEXTO PUBLICADO NA PÁGINA 20 DO JORNAL AMAZÔNIA(CADERNO SHOW) DESTE DOMINGO (19/07/2009)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

VINHO BARATO, MULHER FEIA E PUNK ROCK


Funcionava assim. Você encontrava os amigos na rua durante as tardes de sábado para combinar como seria a noitada, mesmo que o local fosse sempre o mesmo. Com todo vigor que seus 14, 15 ou 16 anos lhe injetavam nas veias seguia o caminho a pé. Quando o local da farra era no Centro, você pegava um ônibus para "dar o goelo", saltando por trás quando estivesse próximo do Ver-O-Peso. Depois era subir pela Presidente Vargas. O bando contava as moedas, normalmente roubadas do troco do pão, para rachar garrafões de Vinho Gallioto ou mesmo o ruim e velho Dom Bosco. Os mais medrosos, tinham que salvar ainda a passagem de volta.

Na época os comerciantes não se importavam se era prudente autorizar que três adolescentes, na média, dessem uma beiçada em cinco litros de vinho. Não havia copos. Para controlar a dose certa do gole num garrafão era necessário treino, que estava sendo religiosamente cumprido há pelo menos um ano. Do contrário, entrava até pelas narinas.

Éramos centenas, só que sem crack. O máximo de violência era voltar para casa sem os sapatos. A meia jogava-se fora para não passar ridículo. As gangues normalmente tinham o nome da rua onde morávamos ou da praça usada para confabular o melhor ataque aos inimigos, os meninos das outras ruas ou praças. Em algumas regiões, como a Marambaia, até padaria podia dar origem ao nome de um "temido grupo". Assistiu “The Warriors - Os Selvagens da Noite”? Era mais ou menos assim, só que sem revólveres, facas, bastões de beisebol e metrô.

As ruas escolhidas para chegar até a Praça da República eram as que tivessem relação com o meretrício. Não para consumir. Mas a paisagem era mais interessante e sempre rendia uma boa história no dia seguinte. Talvez ainda não fosse politicamente incorreto esvaziar a bexiga numa árvore. E sempre dava vontade nas proximidades da Praça.

Na chegada os dentes já estavam roxos de tanto vinho barato. Encontrava os outros, com camisetas do Pantera, Ratos de Porão, Dead Kenneds, Ramones, Garotos Podres e... Sepultura!!! As meninas se fantasiavam de Mortícia Adams. Roupa comprada na Mesbla. Era óbvio que ninguém que estava ali iria para um barzinho ou boate da moda, coisa de playboy. Só existia um lugar que poderia abrigar tanta gente diferentemente igual: o Teatro Experimental Waldemar Henrique.

Primeiro problema: não podia entrar com bebida. Garrafão vazio no lixo então. A vantagem é que já se entrava com a mira calibrada. Digamos que o local não era reconhecido pelas lindas mulheres que lá aportavam. Só que era preciso se manter em pé. Caso caísse uma saraivada de botinadas lhe acertava até o âmago. Pura diversão.

Uma coisa não tinha explicação: você simplesmente não podia se encostar nas paredes. E não era tinta fresca. A teoria mais aceita é que a combinação engolir vinho rapidamente, mulher feia e mais pontapés no estômago causavam um vômito imediato e forte que o golfo acertava as paredes antes de encontrar o solo. Uma noite perfeita naqueles tempos.

Hoje é difícil você encontrar um belenense legal que não tenha passado bons fins de semana no Waldemar Henrique entre o final dos anos 80 e início dos 90. Que não tenha escutado Delinquentes e dezenas de outras bandas de “punk rock”.

Pois bem. Já se passaram mais de 18 anos e tudo aquilo ficou registrado na memória de muitos. A dúvida que fica é se hoje ainda há espaço para esse tipo de experiência inocente inconsequentemente divertida. Que não começa e termina dentro da balada. Não se vê mais pessoas passeando a pé na madrugada. Os motivos são óbvios. Temos violência, Lei Seca, mulheres mais bonitas (as feinhas têm muito mais recursos hoje, vai) e internet. Ou seria apenas o que chamamos de nostalgia?
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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.