segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O PREFEITO DOS RICOS // Nesse eu votaria

Queria um candidato a prefeito que defendesse os mais favorecidos. Um que pensasse nos aquinhoados, nos bem de vida. Na classe A. Sem descuidar da saúde e da educação, óbvio, mas com o olhar direcionado para o luxo e as amenidades da vida. Seria o meu candidato.

Por quê? Por causa, por exemplo, de um naco de Belém que descobri, dia desses. Uma prainha do Outeiro. Nem desconfiava da sua existência. Normal - nós, que moramos do outro lado da cidade, nos diziam que nesta cidade tem praia, mas certeza certeza só tivemos depois de, sei lá, passar dos 18 anos.

Então, lá estava eu, na pequena praia. Que lugar lindo e nojento. Lindo por natureza, nojento por abandono. Ainda que sua praça pareça atendida pela prefeitura, a grama cortada e tudo mais, o lixo se acumula na areia e, como não há nenhum comércio nas imediações, o local torna-se ermo e inseguro.

Fiquei imaginando se Paris possuísse um recanto bucólico como aquele. No que a prefeitura de Paris faria com o lugar. Como o embelezaria, como chamaria a iniciativa privada para erguer por perto um café, um restaurante, e as pessoas almoçariam olhando embevecidas para o rio. Paris faria daquela curva da cidade um lugar atraente para os mais favorecidos, que trariam segurança e empregos. E beneficiariam os menos favorecidos.

Algum gaiato argumentaria que não se pode comparar Belém com Paris. Por que não? Eu aqui, como os menos favorecidos, quero o melhor. Não quero o feio, o sujo, o precário. Eu e os menos favorecidos, e os mais favorecidos também, todos queremos o belo, o limpo, o bem-arrumado. Mas alguém disse para os candidatos a prefeito, e para alguns ex-prefeitos, que o pobre gosta de conviver com a pobreza. E eles acreditaram.

Quando a prefeitura discute um projeto, digamos o Janelas Para o Rio, logo vem um defendendo que o lugar seja "para toda a população". Isso significa a instalação de troços como "shoppings populares", o mesmo que um monte de camelôs juntos. Nada contra os camelôs, eles têm de ter o seu espaço. Não na orla da cidade. A beira do rio há que ser da nata, da classe A. Os ricos, viva eles!

Se tudo ali for bonito e arrumado, ali estará o dinheiro. E os menos favorecidos terão onde trabalhar e onde flanar, que eles flanam. Os pobres de Paris decerto não freqüentam os restaurantes de três estrelas do Guia Michelin do Boulevard Saint-Germain, mas eles usufruem das belezas do Boulevard Saint-Germain, e de graça. Difícil crer, mas os pobres também gostam de coisas boas. Por isso, queria um candidato que não tivesse preconceito contra o dinheiro. Um candidato que defendesse o luxo. A nata. Os ricos. Viva eles!

Um comentário:

Lázaro Araújo disse...

Sales Coimbra,

Que satisfação meu caro! Comungo da idéia, com reservas. Um prefeito para fazer isso e não vender os espaços não existe. A saída é ter um povo politicamente consciente. É bom adequar os espaços públicos para o público, às vendas e consumos do público. O nó dessa questão é quando o público é apropriado, transformado em propriedade privada. Esse é o mau do capital elevado ao seu paroxismo, do tudo impor com violência. O vil metal e a mais valia destruindo o belo e as almas. Tem muita gente que acha que o dinheiro é tudo e tudo compra. O pior, nesse amálgama chamado sociedade capitalista, liberalista, é que tem muita gente para vender e se vender. Tudo vira mercadoria. Esse papo vai longe... O dinheiro é tão vulgar, que tem até hoje um cara na televisão gritando: "quem quer dinheiro?" E um bando de humanos, demasiadamente humanos, gritando "eu".

O que quero dizer é que tem gente pra fazer do público um espaço privado. Defendo a melhoria dos espaços, seguros, onde se possa consumir o necessário, ou seja, aquilo que se quer. Onde convivam tranquilamente pessoas de diferentes níveis sociais, trabalhando e se divertindo. Um respeitando o outro. Um povo que se queira rico, e aí não falo somente de dinheiro, tornaria-se rico por outros meios, com outras ferramentas e energias. Eu tenho esse grande defeito, só gosta de coisa boa, a melhor bebida, a melhor comida, os melhores confortos, que podem estar em lugares inimagináveis para quem só tem como foco de conforto aquilo que o dinheiro pode comprar. Viva a dignidade, viva o amor, a amizade, abstrações embotadas de fé que ainda nos faz felizes na medida em que mantemos as esperanças. Se dinheiro fosse a solução, rico não se matava. Dinheiro, somente o necessário, para flanar e consumir os néctares da dignidade humana, que não está nem com pobres e nem com ricos. Está aí na frente de nossos narizes. Um grande abraço e viva a dignidade.

abs,

lázaro araújo

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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.