
Nas primeiras cenas em que aparecem lado a lado, como os tiras veteranos que protagonizam As Duas Faces da Lei, Robert De Niro e Al Pacino treinam pontaria e se mostram certeiros. Já o filme, em cartaz nos Moviecom Castanheira e Iguatemi desde o final de semana passado, erra feio o alvo e expõe esses dois gigantes do cinema a um trabalho menor em suas carreiras.
Minha expectativa sobre as As Duas Faces da Lei (Righteous Kill, EUA, 2008) era grande, em especial pela escalação de De Niro e Pacino, que até então só haviam contracenado em Fogo Contra Fogo (1995), ótimo policial assinado por Michael Mann - no clássico O Poderoso Chefão 2 os atores vivem pai e filho, mas em épocas diferentes. Aqui, interpretam detetives de Nova York que trabalham em parceria há mais de 30 anos, conhecidos como Turk (Peru), interpretado por De Niro, e Rooster (Frango), vivido por Al Pacino.
Eles investigam assassinatos cometidos por um serial killer que elimina criminosos impunes e deixa como pista poemas justificando por que estes mereceram ser justiçados à bala. Os corpos vão se empilhando à medida que as evidências apontam que: 1) um policial é o autor das execuções; 2) este policial pode ser um dos parceiros.
Se o enredo - tira durão bancando juiz e carrasco - é manjado, o roteiro de Russell Gewirtz e a direção de John Avnet mostram ser possível piorá-lo. Tanto na narrativa frouxa quanto nos cacoetes visuais, As Duas Faces da Lei assume a aparência desses seriados policiais de segunda linha que transbordam nos canais por assinatura. Avnet foi revelado no melodrama Tomates Verdes Fritos (1991) e assinou também dramas como Íntimo e Pessoal (1996). Sua falta de experiência com tramas de suspense e ação já havia sido demonstrado em 88 Minutos (2007), péssimo triller em tempo real estrelada por Pacino (referência clara ao seriado 24 Horas).
Agora, o diretor atira seus dois excelentes atores em uma série de situações desconexas, às quais tenta costurar com as muletas tradicionais dos realizadores pouco inspirados: narração em off, flashbacks e o gran finale com a reviravolta que diz "não era nada disso que você estava pensando" - clichês que, neste caso, não passam de truques óbvios para sacudir o espectador inevitavelmente sonolento.
Afora o prazer que resta das poucas cenas em que Pacino e De Niro justificam a esperada parceria (parece que eles se deram conta durante as filmagens que o negócio ia dar merda), praticamente na reta final do longa, e dos bons momentos que um e outro consegue ter isoladamente, As Duas Faces da Lei, voltando à analogia televisiva, parece um seriado do qual se acompanha um capítulo esporadicamente: sabemos do que se trata, mas o que vemos, sem saber o que se passou entre um episódio e outro, é confuso demais e interessante de menos para garantir a fidelidade da audiência.

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