domingo, 8 de março de 2009

O MUNDO É DAS MULHERES (Parte 1)


Já se vão 120 séculos desde que o estilo de vida do ser humano passou a ser o feminino. Doze mil anos de domínio das mulheres, pouco mais, pouco menos.

Não foi sempre assim.

Houve tempo em que o macho da espécie era de fato o senhor da Terra. A maior parte do tempo, aliás.

Há 3,8 milhões de anos, as florestas da África, por algum motivo, se transformaram em savanas. Quer dizer: era uma árvore aqui, outra lá adiante. Ficou complicado pular de galho em galho ou se deslocar de cipó. Desta forma, por estrita necessidade de melhorias no sistema de transporte, alguns macacos saltaram para o chão e passaram a andar sobre dois pés. Surgiu, então, o velho Australopithecus Afarensis, que saudade.

Foi um tempo tranquilo, aquele. Pithecus caçava, pescava, saía com os amigos e se reproduzia sem muitos questionamentos filosóficos ou psicológicos. Não era atacado por dinossauros ou pterodáctilos porque os dinossauros e os pterodáctilos tinham providencialmente desaparecido havia 61 milhões de anos. Claro, as feras que hoje grassam pela África já grassavam, e inclusive o faziam com maior desenvoltura, sem medo das espingardas calibre 12 ou das câmeras da National Geographic. Isso significa que vez em quando surgiam inoportunos bandos de leões ou hienas ou outros predadores famintos, ansiosos para devorar as carnes tenras de Pithecus e sua turma. Mas ele, Pithecus, soube se defender. Tanto que foi em frente, povoou o alegre mundo pré-histórico, até ser sucedido primeiro pelo Homo Erectus, que tinha um nome bastante auspicioso, se for levado em conta o quesito virilidade, e, depois, pelo Homo Heidelbergensis.

Finalmente, há cerca de 200 mil anos, o Heidelbergensis gerou dois primos irmãos, por assim dizer: o Homo Sapiens e o Homo Neanderthalensis. Era chegada a nossa hora. Eu e você somos Sapiens, sabia? Pois é.

Aí está uma história mal contada, a do Neanderthal. Porque ele era grande e forte, bem mais do que o Sapiens. O Neanderthal era musculoso como um Schwarzenegger e peludo como um Tony Ramos. Caminhava dezenas de quilômetros sem se cansar, suportava rindo temperaturas extremas, de até 30 graus abaixo de zero, enfrentava as dificuldades com denodo e, suponho, bom humor.

E ainda assim foi extinto.

Essa a questão fulcral: por que o poderoso Neanderthal foi extinto? Ou, melhor, POR QUEM ele foi extinto? Você, que conhece História, responderá: pelo Homo Sapiens.

ERRADO!

O Neanderthal foi extinto pela FÊMEA do Homo Sapiens. A nossa conhecidíssima mulher, com suas canelas lisas.

Como isso aconteceu?

Assim:

O Sapiens, nós, éramos muito mais frágeis e muito menos resistentes do que o Neanderthal, isso já está sobejamente dito. Existe vasta probabilidade de que as duas espécies tenham passado milênios sem se encontrar. O mundo, masculino em sua totalidade, girava devagar e prazeroso, sem horários e responsabilidades. Nós homens passávamos a vida a atirar flechas em bisontes, a espetar peixes com dardos aguçados e a colher os frutos sumarentos das árvores. Nadávamos nos cursos d'água cristalinos, vadiávamos pelas praias de areia branca e fofa, dormindo quando bem entendêssemos, comendo quando nos desse fome e, lógico, reproduzindo-nos sem culpa, trocando de parceiras com a camaradagem típica do gênero masculino, fazendo sexo a qualquer hora, ninguém era de ninguém. Ninguém era de ninguém!

Até que as duas espécies se cruzaram. Neanderthais e Sapiens começaram a disputar recursos. As probabilidades de vitória dos vigorosos Neanderthais eram amplas, eles eram os favoritos.

Aí as fêmeas dos Sapiens entraram em ação.

Enquanto os machos saíam pelas savanas e pelas florestas para buscar comida, para se meter em alguma eventual escaramuça sem maiores consequências ou para contar piadas, como fazem sempre os machos, as fêmeas se quedavam nas cavernas ou nas ocas ou nas clareiras, seja lá onde for, cuidando dos filhotes, como fazem sempre as fêmeas. Então, num desses dias imemoriais, uma das mulheres notou que, caindo no solo, a semente germinava, crescia, tornava-se uma planta adulta e depois gerava frutos. Só uma mulher poderia ter feito essa averiguação. Por dois motivos:

1. Porque a mulher teria tempo e paciência para ficar observando uma semente crescer, ao contrário do homem, que só pensava em se divertir com os amigos. E:

2. Porque o que acontece com a semente é exatamente o que acontece com ela, mulher, que, depois de amadurecer, é fecundada e gera um fruto. Ou dois. Ou mais, conheço gente que tem trigêmeos.

Isto é: a mulher inventou a agricultura e, inventando a agricultura, inventou a Civilização. Aos poucos, ela convenceu o homem, o Sapiens, a se fixar no solo. Mostrou que era muito mais vantajoso e muito menos perigoso plantar, colher e comer do que sair pela floresta, dando lançaços em javali. Foi a mulher, também, a primeira a domesticar um animal para que ele vivesse junto à aldeia primitiva e, depois, servisse de fornecedor de alimento. O primeiro animal domesticado pela mulher não se sabe qual foi. Talvez a cabra, o cachorro ou a galinha. O último, isso é certo, foi o homem.

Esta obra máxima do instinto feminino, a Civilização, ela serviu perfeitamente aos interesses da mulher. Porque a mulher precisava de um homem que ficasse em casa e ajudasse na proteção aos filhotes. A vida nômade, tipicamente masculina, não é adequada à criação de filhos. A mortalidade infantil devia ser altíssima, na época. O que incomodava sobretudo às mães, já que, todos sabemos, filho é coisa de mulher; sexo é coisa de homem - um conceito que vamos abordar alguns parágrafos adiante.
A mulher, portanto, necessitava da vida sedentária. Muito mais cômodo para ela. Mas por que razão o homem foi topar um arranjo desses depois de três milhões setecentos e oitenta e oito mil anos de vida fácil? (Sim, porque a Civilização só surgiu há 12 mil anos) Por quê?"

"Voltamos ao nosso amigo Neanderthal.

O Homo Sapiens, frágil, pequeno e pelado, estava perdendo a concorrência para o Neanderthal, másculo, poderoso e cabeludo. Porém, e eis o porém decisivo, com a agricultura e a domesticação dos animais, o Sapiens poderia se fixar na terra, poderia planejar defesas mais eficientes, poderia agrupar-se em bandos maiores e poderia se reproduzir em quantidades impensáveis para o seu adversário nômade. Desta forma, por deficiências estruturais e logísticas, o Neanderthal foi eliminado. Sumiu da face do planeta. Perdemos uma estirpe de zagueirões centrais. E a Civilização, a Era da Mulher, começou.

Reunidos assim em grupos, bem protegidos, os seres humanos começaram a se reproduzir como jamais tinham se reproduzido nos milhões de anos anteriores. Só que aquela festa da Idade da Pedra (Ninguém é de ninguém! Ninguém é de ninguém! Oba!) havia acabado. Porque a mulher, sempre ela, convenceu o homem de que aquilo de viver sedentariamente, amanhando o solo, só funcionaria se eles estabelecessem um núcleo, uma sociedade, com gente trabalhando para que o empreendimento desse certo. Esta sociedade é, evidentemente, a família, outra ardilosa e funcional invenção feminina. O homem, a mulher e seus descendentes formariam um núcleo que daria vantagens a ambos: segurança à mulher para a criação dos filhos e, supostamente, poder ao homem, que seria o líder da sociedade.

Supostamente. Eis uma palavra fundamental. Supostamente.

Um comentário:

Anônimo disse...

melhor texto que já vi em toda minha vida (de 30 e poucos anos)sobre a mulher. agora entendi porque somos tão fascinantes....as mulhers, ok.

bjsss, querido.

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Quem sou eu

Belém, Pará
Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.