O Brasil seria o país perfeito para fazer filmes como Mera Coincidência (Wag The Dog, EUA, 1997), de Barry Levinson. Se mostrássemos com senso crítico a mecânica dos nossos políticos e a configuração peculiar da sociedade brasileira, seríamos capazes de produzir sátiras mordazes como esta que deixariam o mundo de boca aberta e com azia no estômago. Enquanto não chegamos lá, assistimos aos esforços dos americanos.
Este, na verdade, é o único problema de Mera Coincidência. Embora bem atuado, super bem escrito e dirigido com precisão, é, essencialmente, americano na temática e na ética. De qualquer forma, não é difícil entrar no clima de humor selvagem que guia esta sátira política, que pode ser vista como descendente direta de Dr. Fantástico, de Kubrick (guardando devidas proporções) ou Bob Roberts, de Tim Robbins.

O filme parte do princípio que um cachorro balança o rabo porque tem poder sobre o rabo. Se fosse diferente, o rabo balançaria o cachorro (wag the dog), algo que talvez defina o próprio Brasil.
Robert DeNiro é Conrad Bean, cínico profissional e especialista nos mecanismos que guiam a opinião pública numa sociedade cada vez mais dominada pela mídia. Ele é chamado pela Casa Branca para minimizar os efeitos negativos de um escândalo envolvendo o Presidente e uma adolescente, 10 dias antes de uma possível re-eleição. É bom frisar que o filme foi feito antes do escândalo entre Clinton e a estagiária Monica Lewinski.
Bean, portanto, contrata Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor hollywoodiano que deverá produzir imagens de uma guerra fictícia com a Albânia. Bean explica que é uma estratégia certeira e revela, por exemplo, que a invasão de Granada, nos anos 80, foi parte de um plano para levantar a moral da administração Reagan depois que 243 americanos morreram em Beirute, com um carro bomba, em 1983. "Dois dias depois, ninguém lembrava mais de Beirute!!", diz Bean.
A graça do filme é o seu humor ácido, jogado aos baldes em cima do próprio "USA". Há o ridículo hino estilo We Are the World criado para escorar a farsa, a febre de sapatos velhos jogados em árvores país a fora, a sátira impiedosa do culto americano do herói, além de uma imagem do operador de marionetes de Robert De Niro, numa janela onde é refletida a bandeira americana, colorida e imponente.
Também interessante é o choque entre Bean e Motss, que se acha um artista frustrado ("ninguém reconhece o trabalho de um produtor"), buscando um crédito que não combina com os esquemas políticos ultra-discretos administrados por Bean. Aí, o filme versa rápida, e de forma certeira, sobre Hollywood.
Impossível, como brasileiro, não lembrar da eleição Collor Vs. Lula, de 1989, fato que parece ter sido escrito por alguém como David Mamet. Ele dá ao filme um tom que começa irônico e engraçado (os efeitos especiais empregados na armação) e passa por uma escalada francamente assustadora, ao sentirmos a força dos que vivem e precisam do poder.

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