O Virgem de 40 Anos (The 40 Year Old Virgin, EUA, 2005) é um dos filmes mais divertidos que eu vi nos últimos anos, um saco de gargalhadas do início ao fim que desafia sua própria (longa) duração. Trata-se de uma overdose de humor masculino que, pelo simples fato de elogiá-lo, poderá pegar mal pra dedéu em alguns círculos mais feministas. Paciência.

O Virgem de 40 Anos não é grosseiro e vulgar como alguns poderão deduzir. Sua intensa grosseria e espetacular vulgaridade nunca realmente perdem a ternura. Há no filme um clima geral de "brodagem" entre amigos que revela o carinho que o próprio filme tem pelos seus personagens, chegando a lembrar o cult e mui apreciado Swingers (1995), de Doug Liman. Valorizo um filme como esse pois a norma nesse tipo de coisa (American Pie, Porky's) é um show de humilhação moral e sexual que, na melhor das hipóteses, revela os recalques puritanos de uma sociedade como a americana. Em O Virgem... também existe material para esse tipo de olhar sobre o puritanismo, mas é preciso tentar parar de rir para entender onde estarás sendo levado.
Andy (Steve Carrell, que co-roteirizou o filme com o diretor Judd Apatow) é o personagem titular. Ele mora só, veste camisa ensacada e trabalha numa loja de eletro-eletrônicos de Los Angeles. Andy desenvolveu um trauma a partir de dois acidentes sexuais do seu passado, mostrados em hilariantes flashbacks.
Se há homens que sentem enorme dificuldade de sair da infância, Andy é um que nunca saiu. Sua casa lembra uma loja de briquedos, sua falta crônica de sexo é suprida por um materialismo que não poderia ser mais americano. Ele vai também de bicicleta para o trabalho, fator que parece chocar os sempre motorizados EUA.
Ao aproximar-se de três colegas da loja - David (Paul Rudd), ainda de luto pelo fim de um relacionamento, Jay (Romany Malco), que se acha Don Juan, e Cal (Seth Rogen), adepto de viagens sexuais a Tijuana, no México, um trio macho gente fina e muito engraçado -, o segredo de Andy é descoberto e caberá aos amigos tentar produzir a primeira vez do tímido Andy.
Cada uma das dicas é de uma malandragem masculina totalmente do mal. Do mal talvez, mas engraçadas, a começar pela associação de sexo + mulher + álcool. Homofobia também entra na roda, sobrando, em especial, para fãs do Coldplay. Entre inúmeros arroubos de inspiração, este filme te dá uma boa dica de como tratar gente que te liga para fazer telemarketing. Ou como, no emprego, é sempre melhor pensar no bem estar do amigo e colega, deixando o trabalho em si no segundo plano. Isso me lembra uma certa confraria da qual participei e que no momento oportuno poderei entrar em detalhes neste mesmo espaço.
Boa parte da estratégia de inclusão sexual para Andy é pensada no excelente cenário que é a loja onde trabalham. Composta por bugigangas digitais e enormes monitores de plasma, temos uma fauna bem observada de personagens secundários que fazem o lugar ganhar vida e graça. Dos dois funcionários paquistaneses ("Quem somos nós? Da Al-Qaeda?") à chefe deles, Paula (Jane Lynch), que revela-se uma das personagens mais bacanas de todo o filme. Essa mulher esguia, nos seus 40, com certeza não é mais virgem. A atriz arrasa numa cena bem escrita sobre um certo personagem do histórico sexual dela.
Curiosamente, O Virgem de 40 Anos acrescenta um segundo desdobramento narrativo que vem na figura de Trish (a maravilhosa e lindamente afetada Catherine Keener, de Quero Ser John Malkovich), uma pequena empresária que desperta a atração de Andy. Mãe de três e já avó ("uma das avós mais gatas do país"), ela tenta conter o libido da filha de 16 anos num mundo que só pensa em sexo, ao mesmo tempo em que tenta estimular o de Andy que, estranhamente, sempre adia o contato sexual entre os dois. Observar que o filme equilibra comédia de costumes sexuais e historinha de amor tão bem é um feito.
O que mais impressiona no filme é a capacidade de nos dar, em média, uma gargalhada a cada 30 segundos com os quatro amigos e Trish. O trio da loja tem enorme senso de amizade e vontade de melhorar Andy, promover seu bem estar emocional e sexual, muitas vezes à base de palavras construtivas, embora bebida, drogas e pequenos atos de desobediência civil não estejam descartados.
Estranhamente, acabei de ver Penetras Bons de Bico em DVD com muita boa vontade e detestei. Lembro que na época em que fui ver esse aqui no cinema não tinha grandes expectativas e gostei muito. Os dois filmes acabam ali mesmo onde já imaginávamos que acabariam, e aí senti uma estranha fisgada que me incomodou em O Virgem..., e vai aqui aviso leve de SPOILER. Se entendi bem, mesmo depois de superada a barreira psicológica, os dois esperam para trepar só depois do casório? Que filosofosia batista é essa? Ah, mas não será um deslize como esse que vai estragar a durabilidade (e longevidade) das minhas gargalhadas.
Logo depois, o filme irá redimir-se numa sequência "Hmm??!!" totalmente inesperada que brinda admiradores relaxados de Hair (1979), de Milos Forman, com uma síntese perfeita das duas horas que acabamos de ver: uma hilariante demonstração de vulgaridade, sem nunca perder a ternura e o humor.

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