Normalmente não perco meu tempo assistindo ao Horário Eleitoral Gratuito. Prefiro ver o que está passando na TV por assinatura ou alugar um bom DVD para ocupar aquela meia-hora perdida na programação. Mas para não me sentir totalmente alienado do processo eleitoral, acabei fazendo uma lista de filmes com algum enfoque político para estes últimos dias da campanha. Foi aí que veio a idéia de compartilhar algumas impressões sobre estas produções – em sua maioria norte-americanas – com os leitores do blog. Pra começar, um dos meus preferidos.
Eleição (Election, EUA), de Alexander Payne, pode ser considerado um dos grandes filmes americanos de 1999. Ajuda o fato de ser uma obra de temática tão fortemente americana, ambientada no coração dos EUA (Nebraska), onde Payne cria uma espécie de maquete realista dos que fazem a sociedade “USA” ao enfocar uma eleição estudantil, numa escola secundária. Freqüentando a escola, um grupo de personagens que desempenham suas funções no filme com distinção, mas que também funcionam num nível simbólico, representando os EUA e sua mecânica política como um todo. O conflito entre os diferentes partidos é administrado por Payne com mão notavelmente boba.
Eleição não é particularmente famoso, não foi sucesso de bilheteria e trata-se de um filme pequeno, dotado de um disfarce, para muitos, impenetrável: foi vendido como comédia teen. A presença de Mathew Broderick parece confirmar isso e nos remete diretamente ao seu Ferris Bueller de Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller's Day Off, EUA, 1986), de John Hughes. No entanto, um dos muitos trunfos de Eleição é exatamente o seu disfarce, uma vez que há, nesse filme, uma raposa feroz escondida na pele de um cordeirinho.
Jim McAllister (Broderick) é o melhor professor da Escola Carver, na cidade de Omaha. Dedicado ao trabalho e premiado inúmeras vezes pelo seu empenho e visão comunitária, ele tem certeza de que sua parte do sonho americano está sendo muito bem feita. Ensina a disciplina “Ética e Moral”, é casado e quer ter um filho com Diane (Molly Hagan), muito embora o clima no lar dos McAllister seja de infertilidade afetiva e sexual.Correto como uma régua, Jim sente-se incomodado ao perceber sua própria irritação com uma aluna chamada Tracy Flick (Reese Witherspoon), uma adolescente pateticamente obstinada e empreendedora que candidata-se à presidência do grêmio estudantil, sem concorrentes. Como geralmente ocorre na narrativa clássica americana, a irritação de McAllister também é nossa irritação e, possivelmente, do próprio Payne (que escreveu o roteiro indicado ao Oscar com Jim Taylor). Tracy é ironizada, ridicularizada pela câmera, embora ela mesma, e o seu jeito, falem por si próprios. De qualquer forma, Payne consegue algum tipo de distanciamento, mas sem nunca perder a essência da identificação entre espectador e personagens, principalmente em relação a McAllister.
Witherspoon (indicada ao Globo de Ouro pelo papel) compõe Tracy como uma locomotiva movida a veneno e uma ambição tocada pela objetividade comum às aves de rapina. Filha de uma ex-aeromoça (Coleen Camp), é a imagem da ambição projetada também pelo sonho americano. Seria prima não muito distante da aplicada personalidade televisiva de Nicole Kidman, em Um Sonho Sem Limite (To Die For, 1995), de Gus Van Sant. Focada no alvo, Tracy fará de tudo para acertá-lo e Payne certifica-se de que suas ações e manipulações permaneçam ancoradas na realidade. Talvez em outro filme, Tracy apelasse para assassinato. Em Eleição, ela almeja Washington DC.
McCallister tenta separar os fatos relacionados a Tracy, especialmente após um incidente que vitimou seu melhor amigo e também professor, Dave (Mark Harelik), algo apresentado pelo filme com ironia dolorosa. Talvez por isso e também motivado por uma defesa da democracia americana e do poder de escolha da sua comunidade estudantil, ele parte para achar um segundo candidato que possa fazer frente à forte plataforma de Tracy. Encontra o candidato biônico perfeito: Paul Metzler (Chris Klein, uma espécie de Keanu Reeves 10 anos mais jovem), menino bom, bonito, popular e burro.Tem início uma guerra de ética e moral que fará McAllister repensar toda a sua vida e a mecânica de uma sociedade injusta, mas sempre com um pé firme na ingenuidade dos otimistas. Narrado num ritmo que mistura agilidade de edição e atenção especial ao conteúdo apresentado, Eleição é uma massa sólida de informação bem apresentada ao longo de 103 minutos. É um filme onde os personagens são bem construídos não apenas pelos diálogos afiados, mas também por uma preparação cuidadosa dos arredores e dos símbolos e signos que os cercam.Isso vai desde a própria escola, às residências classe-média dos personagens, a motéis construídos para servir à família americana e onde corredores são horrendamente acarpetados. Esse tipo de textura tem sido utilizada com enorme efeito pelos Simpsons, já há uma década e meia, e encontra perfeita ressonância nesse filme, que pode ser visto como um ensaio sobre os americanos, seus ideais e a forma como esta sociedade pensa. Há um conteúdo realista de “tempo” e “lugar” que salta aos olhos numa utilização original desses elementos, especialmente pelo tom realista de ironia. O time de coadjuvantes é excelente. Tammy (Jessica Campbell) é a irmã homossexual de Paul que candidata-se à presidência com uma plataforma anárquica que deverá servir propósitos bem pessoais. Linda (Delaney Driscoll) é a vizinha dos McAllister que irá oferecer uma perspectiva de vida mais fértil para Jim enquanto, na escola, alunos e professores são mostrados com tanta naturalidade que o espectador sente-se imediatamente inserido no ambiente. Eleição é também aquele tipo de filme cujo teor é notavelmente amargo, especialmente se olharmos para McAllister, personagem construído com todas as cores de um homem que Frank Capra teria tentado construir. O que realmente não pertence ao estilo Capra é a visão irônica com a qual Payne ajusta sua lente ao mostrar não apenas seu quixotesco personagem principal, mas também a América do meio-oeste.Particularmente perturbador é o desdobramento de uma trama que envolve sexo com menores de idade, adultério, lesbianismo, corrupção e a ingenuidade dos que só querem fazer um bom trabalho para a sociedade. Nesse sentido, o filme faz parte de uma leva de obras recentes que lançam olhar ácido sobre os EUA, como Clube da Luta (Fight Club), Três Reis (Three Kings) e Felicidade (Happiness), com doloroso sarcasmo. O filme tem o cinismo de alguém que parece estar se fazendo de besta, mas que revela-se inteligente e cortante no seu comentário.Se o filme, como um todo, é dotado de um tom corrosivo, Payne deixa para os últimos 10 minutos o efeito máximo do ferrão ao encerrar sua história com o drama e o silêncio social dos inocentes. É uma nota final amarga, mas absolutamente adequada ao perfeito exercício em deboche controlado apresentado ao longo de todo o filme.
DVD - Eleição chegou ao formato DVD num disco razoável (Paramount), com a obrigatória imagem excelente, freqüentemente granulada, mas normal em se tratando de um filme rodado em Super35mm. O formato de tela é “scope”, como no cinema, ajustado para algo em torno de 2.35:1.A trilha sonora em Dolby Digital 5.1 não explora canais traseiros, mas apresenta-se forte especialmente na trilha sempre ativa de Rolfe Kent. Diálogos são perfeitamente reproduzidos, embora o destaque sonoro do filme vá para o primeiro som que ouvimos, ainda na abertura, uma enorme mangueira regando um campo de futebol.Além do básico (capítulos divididos), este DVD traz o comentário simpático e sempre interessante do diretor Alexander Payne. Ele explica aspectos interessantes do filme e muitos dos seus segredos. Ouvir informações sobre esses segredos nos diz muito sobre o processo criativo que guia realizadores e, acreditem em mim, ajuda muito na hora de escrever uma resenha.A textura realista do filme sobre o meio-oeste pode ser explicada pelo fato de o próprio Payne ter nascido e sido criado na cidade de Omaha, onde se passa a história e onde ele filmou Ruth em Questão (Citizen Ruth), seu primeiro filme. É também interessante ouvi-lo falar sobre sua tentativa de defender os personagens de Broderick e Witherspoon através de círculos e linhas retas. Jim seria sempre representado por círculos e Tracy por retas. Isso realmente está no filme, embora o espectador provavelmente não esteja ciente disso. Há também um tema que Payne faz questão de ressaltar envolvendo “lixo”, que parece perseguir todos no filme, especialmente Jim. Caminhões de lixo, lixo e lixeiras estão sempre lá, fazendo parte importante da trama, em determinadas situações. O DVD de Election vale pelos comentários de Payne, que parece ser um realizador extremamente talentoso ao tentar decifrar sua sociedade, assim como personagem simples e de palavra fácil, sem falsas posições intelectualizadas.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
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Quem sou eu
- Sales Coimbra
- Belém, Pará
- Um paraense de 1973, apaixonado por futebol desde 1982, jornalista esportivo a partir de 1999 e blogueiro oficializado em 2008. Sou repórter esportivo das ORM's (Amazônia e O Liberal), mas também me aventuro por outras áreas. Gosto de falar de gastronomia, embora cozinhe muito pouco. Gosto de ver filmes e falar deles. Gosto de ouvir boa música e indicá-la aos amigos. Gosto de comentar as coisas do dia a dia e emitir opiniões mesmo que ninguém esteja interessado nelas.

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